
{"id":1759,"date":"2021-08-23T11:41:10","date_gmt":"2021-08-23T14:41:10","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/08\/23\/do-jardim-helena-a-parelheiros-as-tretas-do-acesso-a-internet-movel-na-quebrada\/"},"modified":"2024-06-29T21:07:06","modified_gmt":"2024-06-30T00:07:06","slug":"do-jardim-helena-a-parelheiros-as-tretas-do-acesso-a-internet-movel-na-quebrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/quebrada-tech\/do-jardim-helena-a-parelheiros-as-tretas-do-acesso-a-internet-movel-na-quebrada\/","title":{"rendered":"Do Jardim Helena \u00e0 Parelheiros: as tretas do acesso \u00e0 internet m\u00f3vel na quebrada"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><i data-redactor-tag=\"i\" style=\"font-size: inherit; font-family: inherit; text-align: inherit; letter-spacing: 0px;\">Acesso \u00e0 internet prec\u00e1rio e tardio faz parte do contexto das desigualdades digitais que afetam jovens moradores de periferias do extremo leste e sul de S\u00e3o Paulo.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/b2ap3_large_Gustavo-mora-no-Jardim-Paulista-no-extremo-leste-de-So-Paulo-Arquivo-Pessoal.jpg\" alt=\"Gustavo Ricardo teve seu primeiro acesso a internet aos 15 anos, ap\u00f3s ganhar o primeiro celular dos seus pais. (Foto: Arquivo Pessoal)\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Gustavo Ricardo teve seu primeiro acesso a internet aos 15 anos, ap\u00f3s ganhar o primeiro celular dos seus pais. (Foto: Arquivo Pessoal)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>O acesso \u00e0 internet chegou \u00e0 vida de Gustavo Ricardo, 23, morador do Parque Paulistano, bairro localizado no distrito do Jardim Helena, zona leste de S\u00e3o Paulo em 2012, ano no qual ele completou 15 anos, e como presente de anivers\u00e1rio ele ganhou dos pais o primeiro celular. A partir desse momento marcante, ele relata que come\u00e7ou a explorar o mundo digital.<\/span><\/p>\n<p>Gustavo considera que as novas gera\u00e7\u00f5es de jovens moradores das periferias se conectam cada vez mais cedo com a web, uma hist\u00f3ria bem diferente da sua, que s\u00f3 come\u00e7ou aos 15 anos. &#8220;\u00c9 at\u00e9 uma idade bem avan\u00e7ada, porque hoje em dia as pessoas t\u00eam acesso a internet desde pequeno e isso n\u00e3o foi uma realidade pra mim&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Oito anos ap\u00f3s ganhar o primeiro smartphone, ele conta que at\u00e9 hoje o celular \u00e9 o seu principal meio de acesso \u00e0 internet. Al\u00e9m disso, ele enfatiza que na regi\u00e3o onde mora o acesso \u00e0 internet n\u00e3o \u00e9 amplo, e que muitas vezes os vizinhos recorrem uns aos outros, devido \u00e0 falta de cobertura.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma maravilha a conex\u00e3o da internet por aqui&#8221;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p><cite>Gustavo Ricardo, 23, morador do Jardim Paulistano, bairro&nbsp;localizado no&nbsp;distrito do&nbsp;Jardim Helena, zona leste de S\u00e3o Paulo.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma maravilha a conex\u00e3o da internet por aqui. Moro num bairro que gera\u00e7\u00f5es passadas ocuparam, ent\u00e3o desde l\u00e1 de tr\u00e1s todo mundo se conhece, se voc\u00ea tem uma rela\u00e7\u00e3o de afinidade com o vizinho certamente ele vai te emprestar e te ajudar. Essa coisa de emprestar internet \u00e9 muito comum, voc\u00ea passar a sua senha do wi-fi e o vizinho tamb\u00e9m passar a dele&#8221;, relata.<\/span><\/p>\n<p>As experi\u00eancias de Gustavo com o acesso tardio \u00e0 internet tamb\u00e9m fazem parte da hist\u00f3ria de vida da estudante de moda Andressa Mafra, 22, moradora do Parque Alvorada, bairro localizado na periferia de Guarulhos.<\/p>\n<p>Ela lembra com detalhes sobre quando acessou a internet pela primeira vez e como era o computador usado para acessar a rede. &#8220;Comecei a ter acesso a internet a partir dos meus 14 anos&#8221;, relata Andressa, relembrando o formato do computador que ela tinha em casa. &#8220;Na \u00e9poca era aquele computador enorme com a caixa atr\u00e1s e depois disso que foi evoluindo para o telefone pra celular n\u00e9.&#8221;<\/p>\n<p>A estudante de moda ressalta que a partir do momento que ela come\u00e7ou a ter wi-fi em casa, o celular ganhou uma fun\u00e7\u00e3o fundamental na sua vida. &#8220;At\u00e9 hoje o celular \u00e9 o melhor ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o pra mim, o que eu mais uso, \u00e9 algo indispens\u00e1vel na minha vida.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/b2ap3_large_Davi-Biaggioli-mora-em-Parelheiros-e-s-vezes-precisa-sair-do-bairro-e-ir-para-a-cada-das-irms-acessar-internet.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Davi Biaggioli sofre para estudar, pois tem dias que sua internet n\u00e3o tem nenhum mega de velocidade para acessar a web. (Foto: Coletivo ArquePerifa)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Esse cen\u00e1rio faz parte da rotina do estudante da \u00e1rea da tecnologia e morador de Parelheiros, Davi Biaggioli, 16. Ele conta que a chegada da internet no bairro faz parte de um cen\u00e1rio prec\u00e1rio de idas e vindas.&#8221;Foi dif\u00edcil a gente ter acesso \u00e0 internet aqui, teve um tempo que tinha e depois n\u00e3o tinha mais&#8221;, conta o jovem.<\/span><\/p>\n<p>Nesse processo, uma das formas do estudante de tecnologia acessar a internet foi por meio de modem m\u00f3vel, um meio que trouxe muitos problemas com o passar do tempo. &#8220;A gente teve aquele pen drive, que \u00e9 horr\u00edvel e por volta de 2014 a gente teve internet, mas dependia do dia.&#8221;<\/p>\n<p>A altern\u00e2ncia da qualidade de sinal faz parte do cotidiano de Davi, que \u00e0s vezes consegue acessar sites b\u00e1sicos para apoiar os estudos, mas em outros momentos fica sem sinal. &#8220;Num dia bom o acesso chega a seis megas, mas dependendo do dia \u00e9 1, 2 ou nenhum mega&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo jovem \u00e9 pedir apoio para as irm\u00e3s que moram numa regi\u00e3o central de Parelheiros, onde a qualidade de internet \u00e9 melhor, devido aos com\u00e9rcios no entorno. &#8220;Minhas irm\u00e3s moram no centro e l\u00e1 tem internet boa, n\u00e3o posso contar com a internet da minha casa, sabe? Se for algo que precise mesmo, tenho que sair de casa. Isso dificulta n\u00e9, principalmente na pandemia.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>\n\t<span>Dados desiguais&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Um estudo recente apontou o Jardim Helena como um dos 10 distritos de S\u00e3o Paulo com maior desigualdade digital no acesso \u00e0 internet.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o cen\u00e1rio apontado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Infraestrutura para Telecomunica\u00e7\u00f5es (ABRINTEL), que investigou a quantidade de antenas de celular nos distritos paulistanos por quantidade de habitantes.<\/p>\n<p>Dos 135 mil habitantes do Jardim Helena, a regi\u00e3o possui uma antena de c\u00e9lula para cada 8.440 pessoas usarem o sinal de telefonia m\u00f3vel. O estudo mostra que o ideal \u00e9 que uma esta\u00e7\u00e3o de transmiss\u00e3o de sinal seja usada por no m\u00e1ximo 2.200 usu\u00e1rios.<\/p>\n<p><span>Na regi\u00e3o de Pinheiros, zona oeste de S\u00e3o Paulo, h\u00e1 335 pessoas para cada antena de celular. Ou seja, a abund\u00e2ncia de antenas na regi\u00e3o permite a distribui\u00e7\u00e3o de um sinal de internet m\u00f3vel com muita qualidade para os usu\u00e1rios locais.<\/span><\/p>\n<p>Na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, 61% dos usu\u00e1rios residentes em \u00e1reas de baixa vulnerabilidade acessam a internet, por meio de celulares e computadores.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas regi\u00f5es com alta taxa de vulnerabilidade social, 70% dos entrevistados usam exclusivamente o celular como interface de acesso \u00e0 rede.<\/p>\n<p>Esses dados pertencem \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es realizadas na pesquisa TIC Domic\u00edlios 2019, publicada em 2020 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informa\u00e7\u00e3o (Cetic.br).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;A gente tem que perceber que a desigualdade social tamb\u00e9m \u00e9 replicada no mundo digital&#8221;<\/p>\n<p><cite>Toni Santos, educador de cultura digital e mestre em ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o pelo CELAC-USP<span class=\"redactor-invisible-space\"><\/span><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Para Toni Santos, educador de cultura digital e mestre em ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o pelo CELAC-USP, as desigualdades digitais fazem parte do cotidiano dos moradores das periferias na mesma medida de outras aus\u00eancias de direitos sociais.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;A gente tem que perceber que a desigualdade social tamb\u00e9m \u00e9 replicada no mundo digital, da mesma maneira que as periferias s\u00e3o maioria em desigualdade social com rela\u00e7\u00e3o a tudo que a gente tem de bens e de necessidades b\u00e1sicas, desde sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o, transporte e qualidade de vida no geral&#8221;, analisa Santos.<\/p>\n<p>Ele explica o analfabetismo digital \u00e9 um dos produtos das desigualdades digitais a ser percebido e combatido no cotidiano dos moradores das periferias.<\/p>\n<p>&#8220;A maioria das escolas p\u00fablicas est\u00e3o no ensino h\u00edbrido, e muitos estudantes n\u00e3o conseguem realizar as atividades online e por que? Existe um analfabetismo digital que faz com que esse jovem de maneira aut\u00f4noma tenha dificuldade de acessar os aplicativos do estado e se expressar, se comunicar, fazer as atividades e tirar d\u00favidas&#8221;, argumenta o educador de cultura digital.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>\n\t<b>Educa\u00e7\u00e3o e internet prec\u00e1ria<\/b><span>&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Com um olhar para o ecossistema de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de estudantes mais conectado com o ambiente escolar, a doutora em educa\u00e7\u00e3o e escritora Juliana da Paz, moradora do Cap\u00e3o Redondo, afirma que \u00e9 preciso explicar para a sociedade a diferen\u00e7a entre o acesso \u00e0 internet e o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;A escola \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que deveria proporcionar esse acesso \u00e0 tecnologia e a internet, contudo, a escola p\u00fablica ainda n\u00e3o consegue. Ent\u00e3o n\u00f3s temos muitas escolas onde a popula\u00e7\u00e3o acessa a educa\u00e7\u00e3o, mas dentro desse curr\u00edculo desenvolvido n\u00e3o h\u00e1 um acesso \u00e0 tecnologia e a internet na escola&#8221;, explica Juliana, afirmando que deveria sim existir uma grade pedag\u00f3gica para garantir acesso \u00e0 internet e tecnologia como ferramenta educativa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;A escola \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que deveria proporcionar esse acesso \u00e0 tecnologia e a internet&#8221;<\/p>\n<p><cite>Juliana da Paz&nbsp; \u00e9&nbsp;doutora em educa\u00e7\u00e3o e escritora <span class=\"redactor-invisible-space\"><\/span><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>O mestre em ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o, Toni Santos, ressalta que o analfabetismo digital \u00e9 um dos principais problemas gerados pela falta de pol\u00edticas p\u00fablicas para acesso \u00e0 internet e tecnologia nas periferias.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;O analfabetismo digital faz com que as pessoas tenham um celular, e elas n\u00e3o utilizam nem 10% da capacidade desse celular, faz com que as pessoas tenham um equipamento para se comunicar e elas ainda gastem dinheiro com outras coisas. Faz com que as pessoas acreditem em fake news&#8221;, aponta o mestre em ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele finaliza, afirmando: &#8220;a gente precisa primeiramente criar e desenvolver processos de inclus\u00e3o digital que sejam efetivos para impactar positivamente n\u00e3o s\u00f3 os jovens, mas os moradores das periferias como um todo&#8221;, conclui Toni.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acesso \u00e0 internet prec\u00e1rio e tardio faz parte do contexto das desigualdades digitais que afetam jovens moradores de periferias do extremo leste e sul de S\u00e3o Paulo. Gustavo Ricardo teve seu primeiro acesso a internet aos 15 anos, ap\u00f3s ganhar o primeiro celular dos seus pais. 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