
{"id":1689,"date":"2021-06-28T14:03:20","date_gmt":"2021-06-28T17:03:20","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/06\/28\/a-gente-ta-fazendo-uma-revolucao-afirma-aline-brito-mae-sapatao-educadora-e-periferica\/"},"modified":"2024-06-29T21:07:29","modified_gmt":"2024-06-30T00:07:29","slug":"a-gente-ta-fazendo-uma-revolucao-afirma-aline-brito-mae-sapatao-educadora-e-periferica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/contextos-perifericos\/a-gente-ta-fazendo-uma-revolucao-afirma-aline-brito-mae-sapatao-educadora-e-periferica\/","title":{"rendered":"\u201cA gente t\u00e1 fazendo uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Aline Brito, m\u00e3e, sapat\u00e3o, educadora e perif\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Como o dia do orgulho LGBT atravessa a vida das sapatonas que s\u00e3o da quebrada? Como \u00e9 ser sapatona, perif\u00e9rica e m\u00e3e? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que permeiam essa reportagem. Vamos falar sobre as lutas por visibilidade, amor, afeto&nbsp;e constru\u00e7\u00e3o familiar entre corpos que nem sempre s\u00e3o lembrados no Dia Internacional do Orgulho LGBT.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Aline e Alexandra com suas crian\u00e7as e seus cachorros tomando um sol na varanda de sua casa  (Creditos: Fernanda Piccolo)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Hoje, dia 28 de junho, \u00e9 o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Data marcada pela revolta da comunidade LGBT contra uma s\u00e9rie de invas\u00f5es da pol\u00edcia de Nova York aos bares que eram frequentados pela comunidade. Essa luta se deu em diversos eventos e protestos de ruas que ficou conhecido como a Rebeli\u00e3o de Stonewall Inn.<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 foi palco do maior protesto LGBT do mundo, a\u00e7\u00e3o que aconteceu em S\u00e3o Paulo e chegou a somar 5 milh\u00f5es de pessoas na rua em 2017 e entrou no recorde mundial do Guinness Book. O primeiro evento aconteceu no ano de 1995, no Rio de Janeiro. A mobiliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou dentro da 17\u00b0 confer\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex, e ocupou as ruas de S\u00e3o Paulo pela primeira vez em 1996.<\/p>\n<p>Atualmente, um dos marcos nessa luta \u00e9 a Parada do orgulho LGBT, evento que acontece anualmente na Avenida Paulista e que conta com grandes marcas e m\u00eddias estampando as cores das bandeiras LGBT.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 ser l\u00e9sbica na quebrada? O que \u00e9 ser lesbica moradora do Cap\u00e3o Redondo? O que \u00e9 ser l\u00e9sbica, moradora da quebrada e m\u00e3e? O que \u00e9 dupla maternidade? Como \u00e9 constituir fam\u00edlia sendo uma corpa preta, sapat\u00e3o e de quebrada? Como \u00e9 para os corpos que n\u00e3o s\u00e3o vistos dentro do dia internacional do orgulho LGBT?<\/p>\n<p>Aline Cristina Brito da Costa Cust\u00f3dia, 24 anos, nascida em Santos, moradora do Cap\u00e3o Redondo, zona sul de S\u00e3o Paulo, territ\u00f3rio onde trabalha como educadora social na F\u00e1brica de Cultura e Alessandra Santos de Oliveira, 30 anos, confeiteira independente. Elas s\u00e3o as m\u00e3es de Jamal e Jawari, e criadoras do perfil no instagram Maternidade Sapat\u00e3o, onde elas compartilham a maternidade entre corpas sapat\u00f5es como algo poss\u00edvel e o dia a dia de duas m\u00e3es de quebrada.<\/p>\n<p>&#8220;Com a p\u00e1gina Maternidade Sapat\u00e3o, a gente se tornou refer\u00eancia pra quebrada sabe, confesso que eu me tornei refer\u00eancia para mim mesma, porque agora quando eu abro o instagram e vejo o maternidade, fico &#8216;olha existe um casal de duas m\u00e3es pretas sabe&#8217;, eu fico muito emocionada com a nossa hist\u00f3ria&#8221;, conta Aline Brito.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"instagram\">\n<div class=\"responsive-instagram\">\n    <iframe src=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CPdodTBH_GN\/embed\" width=\"100%\" border=\"0\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\" class=\"instagram-block\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Ela afirma que ama ser m\u00e3e, principalmete ser uma m\u00e3e preta: &#8220;Ser m\u00e3e \u00e9 foda, eu amo ser m\u00e3e, e o que eu mais gosto \u00e9 de ser m\u00e3e preta, e eu acho que as m\u00e3es pretas s\u00e3o muito zikas, ta ligado. Confesso que as m\u00e3es pretas s\u00e3o verdadeiras deusas mesmos, espero um dia me tornar uma m\u00e3e t\u00e3o foda quanto a minha m\u00e3e sabe, \u00e9 a quest\u00e3o do revolucionario, n\u00e9&#8221;, afirma Aline Brito.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;O amor \u00e9 um bagulho muito negado, muito negado pra mulher preta n\u00e9, ent\u00e3o eu acho muito foda a gente ter uma fam\u00edlia com duas m\u00e3es pretas, de ter essa resist\u00eancia, e ser esse amor preto, a gente ta fazendo uma revolu\u00e7\u00e3o.&#8221; Aline Brito<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>Brito conta como esse amor nasceu e como o territ\u00f3rio do Cap\u00e3o Redondo, que \u00e9 onde elas moram hoje, foi a terra desse amor. &#8220;A gente se conheceu na sarrada do brejo, que era uma festa n\u00e9, s\u00f3 de sapat\u00e3o e bissexual, a\u00ed depois come\u00e7amos a trocar ideia pelas redes sociais, e a\u00ed papo vem e papo vai, ela me cozinhando, 5 meses depois, a gente se trombou no Cap\u00e3o&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Ela compartilha que o Cap\u00e3o Redondo sempre esteve presente na vida e hist\u00f3ria de amor das duas. &#8220;O Cap\u00e3o sempre esteve presente na nossa vida, na nossa hist\u00f3ria de amor. Nosso primeiro beijo foi no Cap\u00e3o, e depois se trombamo l\u00e1 de novo, e desde ent\u00e3o a gente t\u00e1 junta n\u00e9, desde 11 de abril de 2018, \u00e9 nossa data mesmo, porque \u00e9 isso, a gente \u00e9 sapat\u00e3o, \u00e9 intensa&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Aline e Alessandra foram morar juntas em 2019, quando j\u00e1 sentiam que n\u00e3o conseguiam ficar mais uma longe da outra e nem ficar se deslocando de um canto para outro da cidade para viver esse amor de pertinho.<\/p>\n<p>&#8220;Quando foi em 2019, a gente decidiu morar juntas, porque \u00e9 isso n\u00e9, eu morava l\u00e1 na Cidade Tiradentes, no fund\u00e3o da leste e ela morava na zona sul n\u00e9, l\u00e1 na Ch\u00e1cara Santana, era 3 horas n\u00e9, m\u00f3 rol\u00ea atravessando a cidade, a gente vinha ficava dois, tr\u00eas dias na casa dela, ficava dois, tr\u00eas dias na minha casa n\u00e9, da\u00ed a gente chegou a conclus\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1vamos morando juntas, s\u00f3 que tava pagando dois aluguel&#8221;, relata Aline.<\/p>\n<p>Ela conta que quando percebiam j\u00e1 estavam o m\u00eas todo juntas e n\u00e3o conseguiamos mais ficar longe uma da outra, ent\u00e3o resolveram ir morar juntas e alugar uma casa maior. &#8220;A gente j\u00e1 tinha uma ideia de alugar uma casa grande, com quintal, com espa\u00e7o para ter cachorro e tudo, com dois quartos, um para nois e outro para estudar, pra jogos, quem sabe filhos&#8221;, conta.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>    <cite><\/cite><\/p>\n<p>&#8220;A&nbsp;gente conseguiu registrar os meninos certinho, inclusive a gente foi o primeiro casal a registrar dois filhos leg\u00edtimos no nosso nome, um casal de duas m\u00e3es, no cart\u00f3rio de Cap\u00e3o Redondo&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/b2ap3_large_Creditos-Fernanda-Piccolo1.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Creditos: Fernanda Piccolo<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Alinexu, como Aline Brito \u00e9 conhecida na sua quebrada, conta que a vontade maior dela e da sua companheira Alessandra, serem m\u00e3es, veio de quando elas cuidavam da beb\u00ea de uma amiga para ela ir trabalhar.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Uma amiga nossa, aqui da quebrada, teve uma beb\u00ea, \u00e9 m\u00e3e solo, tava sempre no corre, n\u00e3o tinha com quem deixar a beb\u00ea e come\u00e7amos a cuidar dela aos finais de semana, e aquilo mexeu com a gente. E a Dessa \u00e9 uma bebezinha pretinha a coisa mais linda, ela chegava aqui bem cedo, \u00e0s vezes ela fica dois dias aqui sabe, e aquela coisa de dar comida, trocar a beb\u00ea, dar banho, tudo e tal. Foi mexendo com a gente, co\u00e7ando o \u00fatero n\u00e9&#8221;, compartilha Aline.<\/p>\n<p>Aline e Alessandra sempre tiveram e compartilharam dos planos de serem m\u00e3es e construir uma fam\u00edlia: &#8220;At\u00e9 que um belo dia, a Ale, falou &#8216;mano \u00e9 isso, eu quero ter um beb\u00ea, eu quero ser m\u00e3e, t\u00f4 pronta, acho que t\u00e1 na hora, a gente pode ter um beb\u00ea, n\u00e9?&#8217;. E eu vamos, e a gente sempre trocou muito, sempre foi algo que estava dentro dos nossos planos, casar, de ser m\u00e3e, de ter uma fam\u00edlia&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Com o objetivo e planos conjuntos, Brito conta que ent\u00e3o come\u00e7aram a pensar na fertiliza\u00e7\u00e3o caseira e no processo de fertiliza\u00e7\u00e3o em vitro, que consiste na coleta dos gametas fora do \u00fatero para transferir o embri\u00e3o depois.<\/p>\n<p>&#8220;Come\u00e7amos a pensar em como, pensamos na fertiliza\u00e7\u00e3o caseira, at\u00e9 pelo pre\u00e7o e tudo.. Por que para gente que \u00e9 LGBT ter filho, tem muito a ver com uma quest\u00e3o social. Se voc\u00ea for fazer uma fertiliza\u00e7\u00e3o em vitro, que foi o nosso caso, \u00e9 muito caro, \u00e9 tipo 30, 40 mil, \u00e9 um absurdo, n\u00e3o era nosso plano inicial fazer em vitro, mesmo que fosse at\u00e9 juntar esse valor n\u00e9, juntar 40 mil reais para o tratamento, era muito dinheiro, a gente ia trabalhar a vida inteira, e guardar dinheiro para ser m\u00e3e, e a gente queria ser agora&#8221;, relata Aline.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Colocamos o p\u00e9 no ch\u00e3o, &#8216;vamos ser m\u00e3es, vamos fazer uma fertiliza\u00e7\u00e3o caseira, mas se der certo, como vai ser&#8217;, pensamos em ficar uns dois anos a\u00ed guardando um dinheiro, pra ter esse p\u00e9 de meia mesmo sabe&#8221;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Alinexu conta que o plano de esperar esse tempo mudou, quando elas tiveram a chance de engravidar com o apoio de uma cl\u00ednica. &#8220;Passou um tempo e Orix\u00e1 aben\u00e7oou a gente grandemente, uma mina que a gente conhece foi fazer \u00fatero solid\u00e1rio em uma cl\u00ednica, a\u00ed l\u00e1 eles estavam precisando de uma mina preta, de prefer\u00eancia de pele escura que quisesse doar \u00f3vulos e em troca ganharia a gesta\u00e7\u00e3o, engravidar atrav\u00e9s do m\u00e9todo de ovodoa\u00e7\u00e3o compartilhada&#8221;, compartilha.<\/span><\/p>\n<p>A moradora do Cap\u00e3o Redondo afirma que de in\u00edcio ficaram receosas se deveriam aceitar ou n\u00e3o. &#8220;O bagulho era p\u00e1 pum assim, j\u00e1 ir na cl\u00ednica, come\u00e7ar o tratamento, eles estavam com uma urg\u00eancia, e a gente ficou pensando quando ser\u00e1 que vamos ter essa oportunidade de novo n\u00e9, e ainda mais de uma forma acess\u00edvel assim. Inclusive \u00e9 isso, esse m\u00e9todo de ovodoa\u00e7\u00e3o compartilhada que as cl\u00ednicas t\u00eam feito, tem fortalecido v\u00e1rias m\u00e3es de quebrada a\u00ed, a se tornarem m\u00e3es, a\u00ed a gente aceitou&#8221;, coloca Aline.<\/p>\n<p>Elas come\u00e7aram o tratamento em dezembro de 2019 e &#8220;Dia 20 foi a transfer\u00eancia dos embri\u00f5es pro \u00fatero da Ale e dia 28 de fevereiro a gente comprou o teste de gravidez de farmacia e deu positivo, e o mais doido \u00e9 que foram transferidos dois embri\u00f5es pro \u00fatero da Ale, &#8216;e a\u00ed ser\u00e1 que vai vir g\u00eameos?'&#8221;, comenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Esse plano de ser m\u00e3e, de ter filhos, de formar uma fam\u00edlia t\u00e1 ligado, viver aquele continho de fadas mesmo sabe, talvez a gente s\u00f3 tenha essa oportunidade de engravidar na vida, ent\u00e3o que venha dois logo&#8221;&nbsp;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/b2ap3_large_creditos-Isabelli-Vasco.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Creditos: IsabelliVasco<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Aline tamb\u00e9m conta como foi o processo de lacta\u00e7\u00e3o e que o plano delas dentro dessa maternidade era tamb\u00e9m ter uma amamenta\u00e7\u00e3o dupla.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Eu passei pelo processo de introdu\u00e7\u00e3o da lacta\u00e7\u00e3o, a gente sabia que era poss\u00edvel a quest\u00e3o da dupla amamenta\u00e7\u00e3o e a gente contatou uma obcestricia aqui da quebrada bem foda, inclusive \u00e9 ali do Jangadeiro, fomos conversar com a Nabe, e ela disse que era super poss\u00edvel sim, e que ia foratalecer a gente nisso&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Ela conta que com a ajuda de uma profissional, tamb\u00e9m da quebrada, come\u00e7ou o processo de introdu\u00e7\u00e3o da lacta\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00e9 simples, \u00e9 f\u00e1cil, e eu falo que \u00e9 f\u00e1cil porque eu era das pessoas que pensava, &#8216;ser\u00e1 que tem que fazer uma cirurgia ou algo assim?&#8217;, e n\u00e3o \u00e9, precisa fazer o uso de uma medica\u00e7\u00e3o, precisa de aux\u00edlio com os est\u00edmulos, com aquelas bombinhas sabe de tirar leite, e tem que ser acompanhada, eu fui acompanhada pela Nabe&#8221;, ela refor\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 apenas ir na farmacia e comprar o rem\u00e9dio, \u00e9 necess\u00e1rio aux\u00edlio e acompanhamento profissional.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p><span>&#8220;\u00c9 todo um processo, e \u00e9 isso, comecei a produzir leite, estou produzindo, estou amamentando, mas fica a\u00ed o salve para as minas de quebrada que \u00e9 poss\u00edvel sim, duas m\u00e3es amamentar, ou at\u00e9 se voc\u00ea adotar um bebe, \u00e9 poss\u00edvel amamentar, a gente divide a amamenta\u00e7\u00e3o e da para os dois&#8221;<\/span><\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>A educadora conta que a ideia do instagram surgiu a partir de uma procura das duas na rede por fam\u00edlias de duas m\u00e3es pretas, ou dois pais pretos e n\u00e3o encontraram. &#8220;Decidimos por nosso corre na internet atrav\u00e9s do Maternidade Sapat\u00e3o, passando nossa viv\u00eancia de quebrada, e tamb\u00e9m para mostrar que \u00e9 poss\u00edvel pras sapat\u00e3o de quebrada a\u00ed, pras mina que \u00e9 poss\u00edvel sim, a gente formar nossa fam\u00edlia de dupla maternidade, de dupla paternidade, que seja com ado\u00e7\u00e3o, que seja com fertiliza\u00e7\u00e3o caseira, que seja com a fertiliza\u00e7\u00e3o em vitro&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Ela afirma que mostram o dia a dia real delas como m\u00e3es pretas e perif\u00e9ricas: &#8220;A gente mostra nosso corre de quebrada mesmo, das m\u00e3es que v\u00e3o comprar roupa l\u00e1 no japoneses Santo Amaro, \u00e9 isso, a gente mostra que \u00e9 poss\u00edvel, e mostra como podemos ser uma m\u00e3e de quebrada normal&#8221;.<\/p>\n<p>Brito relata como foi o processo de registro das crian\u00e7as, j\u00e1 que elas foram o primeiro casal homoafetivo a registrar dois filhos no cart\u00f3rio do Cap\u00e3o Redondo, territ\u00f3rio que de novo marca os passos mais importantes do casal.<\/p>\n<p>&#8220;A gente conseguiu registrar os meninos certinho, inclusive a gente foi o primeiro casal a registrar dois filhos leg\u00edtimos no nosso nome, um casal de duas m\u00e3es, no cart\u00f3rio de Cap\u00e3o Redondo, nossos filhos bem de quebrada mesmo, eles s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o mais de quebrada porque eles nasceram no Hospital S\u00e3o Paulo, l\u00e1 pra Vila Mariana [risadas]&#8221;, conta Aline que complementa ressaltando que queriam que as crian\u00e7as tivessem nascido no M&#8217;Boi Mirim, mas o hospital estava com foco de atendimento a covid-19.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;nois \u00e9 o primeiro casal de mulheres a registrar duas crian\u00e7as no Cap\u00e3o mano, mas t\u00e1 l\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o que quando chega com declara\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica, o papel de rec\u00e9m nascidos e nossos rg, eles tem que registrar, o casal n\u00e3o precisa estar casado, no caso da fertiliza\u00e7\u00e3o em vitro n\u00e3o precisa&#8221;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h4>A quebrada como espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria<\/h4>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/b2ap3_large_Creditos-Fernanda-Piccolo2.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Creditos:Fernanda Piccolo<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>&#8220;Eu n\u00e3o me sinto t\u00e3o representada, na quest\u00e3o do lgbtqia+, eu acho que inclusive \u00e9 uma bandeira muito conhecida pelos homens gays, t\u00e3o sempre l\u00e1 no movimento, os homens gays, brancos, quando vai umas mulher, \u00e9 umas mulher branca, quando vai pessoas trans, s\u00e3o homens trans brancos, mulheres trans brancas, \u00e9 muito diferente da viv\u00eancia, a gente que \u00e9 da quebrada, a gente tem uma viv\u00eancia mais vida loca, mais miliduca com as minas travesti t\u00e1 ligado&#8221;, coloca Aline sobre questionar essa representatividade do orgulho lgbtqi+ que ainda n\u00e3o chega em seus corpos e muito menos em seu territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p>Aline relembra que n\u00e3o \u00e9 apenas um dia de representatividade que a m\u00eddia precisa divulgar, mas mostrar um cotidiano di\u00e1rio pela sobreviv\u00eancia que pessoas lgbtqia+ precisam ter dentro da quebrada;<\/p>\n<p>&#8220;Como as minas travesti, preta, que tava la no corre a m\u00f3 temp\u00e3o, ta ligado, os manos trans a\u00ed, que t\u00e3o no corre pra pagar 200 conto em uma ampola de horm\u00f4nio, ai quando levanta essas bandeiras do lgbtqia+ na internet, por exemplo, eu vejo uma galera branca ta ligado&#8221;, coloca Brito, questionando o modelo de representatividade que invibializa outros corpos da mesma comunidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;E se n\u00e3o t\u00e1 representando a quebrada, n\u00e3o me representa, t\u00e1 ligado, e \u00e9 isso&#8221;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>A educadora ressalta que existe artista de quebrada trazendo essa narrativa, por\u00e9m ainda acredita que \u00e9 pouco perto de toda grandeza territorial que o territ\u00f3rio possui e n\u00e3o \u00e9 reconhecida.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Tem por exemplo a Jup do Bairro, que \u00e9 aqui da quebrada, que \u00e9 aqui da zona sul, a gente tem a Lin da Quebrada l\u00e1 do fund\u00e3o, l\u00e1 da zona leste, s\u00e3o as minas da quebrada que j\u00e1 est\u00e3o chegando no rol\u00ea, mas eu acho que ainda t\u00e1 faltando um pouco mais sabe&#8221;, afirma Aline.<\/p>\n<p>Se reapropriar de termos pejorativos e transformar isso no seu objeto de fala. &#8220;Eu sou sapat\u00e3o, eu sou da quebrada, a gente que \u00e9 da quebrada a gente se reapropria do sapat\u00e3o, \u00e9 isso mesmo, eu sou sapat\u00e3o&#8221;, reafirma Aline, refor\u00e7ando que j\u00e1 existe uma cultura sapat\u00e3o de quebrada com suas vestimentas e modos.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\">\n<p>&#8220;Mas falando assim de n\u00f3s, da sapata de quebrada, com bermud\u00e3o, chinel\u00e3o, camis\u00e3o e tal, muita de n\u00f3s assim j\u00e1 nasce sapat\u00e3o, j\u00e1 vem pro mundo sendo sapat\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Ela aponta que apenas pode falar sobre o que vive, que \u00e9 ser uma sapat\u00e3o na quebrada: &#8220;Eu gosto de falar que eu tenho muito orgulho de ser sapat\u00e3o, n\u00e3o falar orgulho de ser lbtqia+, eu falo sapat\u00e3o, \u00e9 o que eu sou, \u00e9 a bandeira que eu levanto, que eu represento, eu acho quando eu falo orgulho de ser lbtqia+ eu to levantando outras bandeiras, n\u00e3o to falando que eu n\u00e3o tenho que levantar a bandeira das minhas trans, das minas bi, s\u00f3 que eu acredito muito tamb\u00e9m de lugar de fala, t\u00e1 ligado&#8221;.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h4>\n\t<span>&nbsp;<\/span>O amor cura<\/h4>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/b2ap3_large_creditos-Binho-Cidral.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>creditos:Binho Cidral<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Aline conta que Alexandra mora perto de sua fam\u00edlia, por\u00e9m sua av\u00f3 teve dificuldade para aceitar sua escolha em amar outras mulheres. &#8220;Embora ela tenha o espa\u00e7o no quintal da v\u00f3 dela, a v\u00f3 dela falou que \u00e9 isso, &#8216;o diabo n\u00e3o vai fazer filho aqui no meu quintal, ent\u00e3o j\u00e1 que voc\u00ea quer se relacionar com mulher voc\u00ea pode se retirar daqui&#8217;, ent\u00e3o t\u00e1 bom, \u00e9 isso, a\u00ed ela foi pra fora, morar com outra mulher&#8221;, compartilha Aline sobre o momento fase que sua companheira saiu de casa por sua av\u00f3 n\u00e3o aceitar suas escolhas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;A\u00ed ela se reaproximou da fam\u00edlia dela, morando comigo, mas a\u00ed nos role de fam\u00edlia, nos eventos, eu n\u00e3o podia entrar na casa da v\u00f3 da Ale, s\u00f3 na casa do pai da Ale, e eu s\u00f3 podia ficar no m\u00e1ximo, na casa da v\u00f3 dela at\u00e9 o quintal&#8221;<\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Aline conta que o restante da familia de Ale era totalmente receptiva: &#8220;L\u00e1 no quintal da fam\u00edlia dela mora a tia, o pai, a sobrinha, morava o primo e todo mundo l\u00e1 gosta de mim, todo mundo super me aceita, ai quando a av\u00f3 ia pro culto, era engra\u00e7ado que a tia falava assim, &#8216;olha a v\u00f3 foi pra igreja, vem aqui com a Aline que ela foi pra igreja&#8217;, a\u00ed quando a Dona Lurdes ia pra igreja eu entrava l\u00e1, comia, jantava de boas&#8221;, conta Aline, que quando a av\u00f3 da Ale estava elas n\u00e3o tinham esse conv\u00edvio antes dos filhos chegarem na fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando os beb\u00eas chegaram algo se modificou, todas as cren\u00e7as que sua av\u00f3 tinha constru\u00eddo foram modificadas quando pegou os g\u00eameos no colo.<\/p>\n<p>&#8220;A\u00ed depois que os meninos nasceu ela ficou meio embaralhada, falou mano, como assim, duas mulheres, dois filhos, ela s\u00f3 tem 80 n\u00e9, pra ela entender e absorver tudo isso foi um grande processo, e \u00e9 isso, ela entendeu, absorveu, hoje eu posso super entrar no quintal&#8221;, conta Aline, que afirma n\u00e3o carregar ressentimentos desse processo por entender suas viv\u00eancias e cren\u00e7as.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p><span>&#8220;Eu entendo tamb\u00e9m que o cristianismo \u00e9 foda, que a igreja \u00e9 foda mesmo, pega sua mente, \u00e9 tipo isso pra uma mulher que \u00e9 crist\u00e3 sua vida inteira, que tem 80, ai eu querer chegar do nada e falar, sou mesmo, mulher da Alexandra e tal, aceita ai, sendo que naturalmente ela ja compreendeu isso&#8221;<\/span><\/p>\n<p><cite><\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Aline ainda detalha como o comportamento da av\u00f3 de Alessandra mudou depois da conviv\u00eancia com os beb\u00eas. &#8220;O orix\u00e1 j\u00e1 clareou a cabe\u00e7a dela, que \u00e9 isso a neta dela \u00e9 sapat\u00e3o, al\u00e9m de ser sapat\u00e3o \u00e9 m\u00e3e, com uma outra mulher sapat\u00e3o que tem dois filhos sabe, e ela \u00e9 bisav\u00f3 dos meninos, ent\u00e3o ela super apaixonada tamb\u00e9m pelos meninos, ela adora, a gente acha engra\u00e7ado&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>A av\u00f3 tem dificuldade de falar o nome das crian\u00e7as, Jamal e Jawari, mas &#8220;quando ela ta aqui do lado, ela fala, eu n\u00e3o peguei esse daqui no colo, me d\u00e1 esse aqui, e fica, agora me d\u00e1 esse daqui, e ela n\u00e3o sabe falar o nome dele, que \u00e9 meio dif\u00edcil, e a gente achou muito engra\u00e7adinho, muito fofinho t\u00e1 ligado, ent\u00e3o \u00e9 isso&#8221;, conta Aline.<\/p>\n<p>Ao falar sobre o futuro de sua fam\u00edlia, Aline e Alessandra trazem como refer\u00eancia o document\u00e1rio chamado Brazil &#8211; Jurema e Nicinha, que fala sobre o amor de duas mulheres aos 43 anos, que moram na favela da Rocinha do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 esse legado que a gente quer deixar, \u00e9 o legado da Nicinha e da Jurema, \u00e9 do amor, de resist\u00eancia, de 40 anos a\u00ed, formando filhos, netos, t\u00e1 ligado. E essa queda tamb\u00e9m, a gente tem sempre essa quest\u00e3o da solid\u00e3o da mulher preta, tantas minas preta solit\u00e1ria no mundo, a\u00ed \u00e9 isso sabe, a gente ser duas mulheres preta que se amam j\u00e1 \u00e9 uma puta revolu\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 isso, o amor preto, o afeto, \u00e9 negado sim pra mulher preta&#8221;, finaliza Aline.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como o dia do orgulho LGBT atravessa a vida das sapatonas que s\u00e3o da quebrada? Como \u00e9 ser sapatona, perif\u00e9rica e m\u00e3e? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que permeiam essa reportagem. Vamos falar sobre as lutas por visibilidade, amor, afeto&nbsp;e constru\u00e7\u00e3o familiar entre corpos que nem sempre s\u00e3o lembrados no Dia Internacional do Orgulho LGBT. 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Em 2018 ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Ela atua em seu territ\u00f3rio com projetos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o Cursinho Livre Cl\u00e1udia Silva Ferreira. 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