
{"id":1545,"date":"2021-03-29T19:46:47","date_gmt":"2021-03-29T22:46:47","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/03\/29\/somos-seres-politicos-conheca-a-trajetoria-politica-de-keit-lima-na-brasilandia\/"},"modified":"2024-06-29T21:10:29","modified_gmt":"2024-06-30T00:10:29","slug":"somos-seres-politicos-conheca-a-trajetoria-politica-de-keit-lima-na-brasilandia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/series\/somos-seres-politicos-conheca-a-trajetoria-politica-de-keit-lima-na-brasilandia\/","title":{"rendered":"\u201cSomos seres pol\u00edticos\u201d: conhe\u00e7a a trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Keit Lima na Brasil\u00e2ndia"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><i data-redactor-tag=\"i\" style=\"font-size: inherit; font-family: inherit; text-align: inherit; letter-spacing: 0px;\">Nordestina, perif\u00e9rica e engajada na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia, zona norte de S\u00e3o Paulo, Keit Lima \u00e9 a \u00faltima entrevistada da s\u00e9rie trajet\u00f3ria pol\u00edtica, que mostra a hist\u00f3ria de mulheres perif\u00e9ricas que dedicam parte de sua vida a construir a pol\u00edtica institucional.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, Keit Lima se candidatou a vereadora com filia\u00e7\u00e3o ao PSOL. Ela alcan\u00e7ou a marca de 11.355 votos, para ocupar uma vaga na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o conseguiu se eleger. Hoje ela \u00e9 vereadora suplente pelo partido que acolheu a sua vis\u00e3o pol\u00edtica, enraizada na sua origem nordestina e perif\u00e9rica.<\/span><\/p>\n<p>Keit mora Brasil\u00e2ndia, distrito da zona norte de S\u00e3o Paulo desde os oito anos. Ela nasceu em Recife e veio com a sua fam\u00edlia para S\u00e3o Paulo em busca de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e formas de melhorar de vida.<\/p>\n<p>Hoje ela est\u00e1 cursando o curso superior de direito, sua segunda gradua\u00e7\u00e3o pela Faculdade Zumbi dos Palmares. Entre os movimentos sociais que ela participa est\u00e3o a Marcha de Mulheres Negras, Educafro, Mulheres Negras Decide e o grupo Mulheres do Brasil.<\/p>\n<p>Essa trajet\u00f3ria de ativismo pol\u00edtico come\u00e7a dentro do ensino p\u00fablico, quando ela tinha 13 anos e estava cursando a s\u00e9tima s\u00e9rie na escola EMEF Jo\u00e3o Amos Comenius, localizada no Jardim Vista Alegre, no territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia. L\u00e1 ela come\u00e7ou a ensinar crian\u00e7as mais novas que tinham dificuldade no processo de aprendizagem para ler e escrever.<\/p>\n<p>&#8220;Eu comecei no ativismo atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o com 13 anos, porque eu realmente acredito que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a forma mais eficiente para diminuir a desigualdade. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 meu principal ativismo, eu comecei como se fosse uma assistente&nbsp;para os professores, eu ajudava os estudantes de 1\u00b0 a 4\u00b0 serie que n\u00e3o sabiam ler, ent\u00e3o eu dedicava algumas horas do meu dia para ajudar algumas turmas, as professoras destinavam alguns alunos e eu trabalhava aquele per\u00edodo junto com eles, e foi a partir da\u00ed que eu comecei&#8221;, relembra Keit.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 Brasil\u00e2ndia, Keit saiu com sua fam\u00edlia de Recife, no estado de Pernambuco, motivada pelo anseio dos seus pais para que ela e a irm\u00e3 tivessem acesso a uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e a servi\u00e7os de sa\u00fade para um tratamento m\u00e9dico da sua av\u00f3, um dos motivos mais importantes para essa migra\u00e7\u00e3o de estado.<\/p>\n<p>&#8220;Eu vim pra c\u00e1 com oito anos. Como muitas fam\u00edlias nordestinas a minha tamb\u00e9m veio em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e tamb\u00e9m em busca de sa\u00fade p\u00fablica, porque a minha av\u00f3 tinha acabado de ter um AVC n\u00e9, um derrame, ent\u00e3o a gente tamb\u00e9m veio em busca de sa\u00fade p\u00fablica e melhores condi\u00e7\u00f5es para o tratamento dela&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A Brasil\u00e2ndia tamb\u00e9m foi o ponto de partida para conectar Keit com outros espa\u00e7os da cidade de S\u00e3o Paulo. &#8220;A rela\u00e7\u00e3o que eu tenho com a cidade parte desse territ\u00f3rio que est\u00e1 da ponte para c\u00e1 n\u00e9, tem que atravessar a cidade para ter acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, mas \u00e9 um territ\u00f3rio que sou muito grata, onde eu luto por esse territ\u00f3rio.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/b2ap3_large_KEIT_6.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p><span>&#8220;Quando mainha fica com a filha da vizinha para ela ir \u00e0 faculdade, isso \u00e9 pol\u00edtico&#8221;<\/span><\/p>\n<p><cite>Keit Lima<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A moradora da Brasil\u00e2ndia usa a express\u00e3o &#8220;seres pol\u00edticos&#8221; para afirmar que a pol\u00edtica est\u00e1 presente em tudo na nossa vida, inclusive no cotidiano do morador das periferias. &#8220;Somos seres pol\u00edticos e a pol\u00edtica est\u00e1 a\u00ed nesse ser, nessa troca, de quando mainha fica com a filha da minha vizinha para ela poder ir para a faculdade, isso \u00e9 pol\u00edtico, para mim isso \u00e9 muito pol\u00edtico, quando a gente fala da pol\u00edtica institucional a gente est\u00e1 falando sobre instrumentalizar as nossas lutas, ent\u00e3o como que a gente instrumentaliza a nossa luta, as nossas reivindica\u00e7\u00f5es, as nossas pautas, as nossas dores, como a gente faz pol\u00edtica p\u00fablica para diminuir essa desigualdade, essa discrep\u00e2ncia que existe atrav\u00e9s tamb\u00e9m da pol\u00edtica institucional&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da sua vis\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e luta por direitos no territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia, Keit revela que atua em outras periferias de S\u00e3o Paulo, em parceria com movimentos sociais que apoiam a sua atua\u00e7\u00e3o e conta sobre a import\u00e2ncia dessa conex\u00e3o para se manter na ativa. &#8220;Eu tamb\u00e9m atuo em outros territ\u00f3rios perif\u00e9ricos organizada em movimentos sociais, ent\u00e3o atrav\u00e9s desses movimentos a gente se encontra sobre esse lugar das dores n\u00e9, as dores das favelas, das pessoas, das fam\u00edlias perif\u00e9ricas, e tamb\u00e9m se encontra na luta, ent\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s dessa organiza\u00e7\u00e3o que eu atuo&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Ela destaca que a atua\u00e7\u00e3o dentro da Educafro foi um divisor de \u00e1guas, para ela ultrapassar as barreiras sociais e geogr\u00e1ficas dos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos e vivenciar outras formas de fazer pol\u00edtica. &#8220;Eu comecei a enxergar mais a pol\u00edtica institucional no meu dia a dia atrav\u00e9s dos movimentos que eu construo especialmente a Educafro, eu fui a primeira mulher a ser coordenadora da escola de l\u00edderes, e a\u00ed eu tive mais presente, a pol\u00edtica institucional come\u00e7ou a se tornar constante dentro das minhas articula\u00e7\u00f5es, porque at\u00e9 ent\u00e3o meu ativismo era totalmente com a base, totalmente dentro das periferias, e a partir desse momento eu atuava dentro das periferias, mas fazendo um interm\u00e9dio junto a pol\u00edtica institucional, levando as demandas da base para a pol\u00edtica institucional e o que muda a partir desse momento \u00e9 ver o tamanho do descaso, de eu ir tentar conversar com parlamentar e ele simplesmente n\u00e3o atender&#8221;, revela.<\/p>\n<p>Em meio ao di\u00e1logo sobre a import\u00e2ncia de construir um di\u00e1logo com quem faz pol\u00edtica institucional, ou seja, quem \u00e9 eleito para representar os direitos e interesses do povo, a vereadora suplente pelo PSOL resgata uma lembran\u00e7a de um fato ocorrido que foi fundamental para despertar nela essa vontade de construir um novo jeito de fazer pol\u00edtica, compromissado com os moradores das periferias.<\/p>\n<p>Ela conta que esse momento marcante aconteceu durante uma visita na C\u00e2mara dos Deputados Federais, em Bras\u00edlia. &#8220;Teve uma milit\u00e2ncia espec\u00edfica em Bras\u00edlia, que me causou muita revolta, onde eu fui com um \u00f4nibus cheio, formado em sua maioria por mulheres negras e mais velhas, tinha pessoas do Brasil todo, e a\u00ed tr\u00eas pessoas mais velhas passaram mal do lado de fora da C\u00e2mara dos Deputados sob o sol, porque tr\u00eas deputados espec\u00edficos proibiram a nossa entrada, eles proibiram que a gente entrasse para conversar sobre pol\u00edtica p\u00fablica, sobre uma proposta de reivindica\u00e7\u00e3o nossa, e aquilo para mim foi inadmiss\u00edvel&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Ela descreve o sentimento que sentiu no momento e compartilha como conseguiu se organizar para a viagem em busca de di\u00e1logo com parlamentares. &#8220;Olhar e entender que se a gente n\u00e3o estiver l\u00e1 ningu\u00e9m sequer vai nos escutar sabe, n\u00e3o \u00e9 interesse deles. Eu, essas mulheres e todas as pessoas que estavam ali tivemos que nos articular para ir trabalhar mais horas nos nossos trabalhos, faltar na faculdade, abrindo m\u00e3o de estar em casa, para estar ali reivindicando, para estar ali construindo, e sequer fomos atendidos, e a ordem era todo mundo que estava com a camiseta da Educafro n\u00e3o iria entrar&#8221;, conta Keit, enfatizando que at\u00e9 hoje quando se lembra desse epis\u00f3dio da sua vida na pol\u00edtica fica revoltada.<\/p>\n<p>&#8220;Fico com raiva ao lembrar essas mulheres ca\u00eddas no ch\u00e3o, porque a press\u00e3o caiu, porque estavam horas sob o sol. Ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 mais, n\u00e3o d\u00e1 mais, esse foi o meu estopim para pensar o que precisamos fazer para isso nunca mais acontecer, para que a gente n\u00e3o precise passar por isso, ent\u00e3o n\u00f3s precisamos estar l\u00e1, porque a\u00ed seremos n\u00f3s que estaremos dialogando, somos n\u00f3s que n\u00e3o vamos permitir isso&#8221;, acredita.<\/p>\n<p>Diante dessas recorda\u00e7\u00f5es que revelam um momento tenso da sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica, a ativista lembra que a ideia de se candidatar a vereadora em S\u00e3o Paulo \u00e9 coletiva e n\u00e3o partiu s\u00f3 dela. &#8220;A ideia de me candidatar foi constru\u00edda e decidida coletivamente, ningu\u00e9m faz nada s\u00f3 e muito menos eu, eu venho de movimentos sociais, eu acredito nesse projeto pol\u00edtico constru\u00eddo de v\u00e1rias m\u00e3os, ent\u00e3o \u00e9 a partir desse lugar que eu venho&#8221;, conta ela, apontando a import\u00e2ncia de consolidar um projeto pol\u00edtico constru\u00eddo coletivamente pelos movimentos sociais, tanto pelo movimento negro, perif\u00e9rico ou de mulheres.<\/p>\n<p>Ela acrescenta que o importante mesmo \u00e9 reivindicar e colocar as pautas e as dores da popula\u00e7\u00e3o pobre e perif\u00e9rica com muita seriedade e comprometimento. &#8220;Fiquei muito feliz de estar na constru\u00e7\u00e3o de uma cidade mais justa, mais democr\u00e1tica, onde a periferia n\u00e3o seja tratada com descaso&#8221;, enfatiza ela, apontando a sua gratid\u00e3o por sua candidatura representar a constru\u00e7\u00e3o de um projeto pol\u00edtico coletivo.<\/p>\n<p>Keit faz quest\u00e3o de esclarecer que diferente de outros candidatos que disputam as elei\u00e7\u00f5es, a sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o termina na campanha eleitoral. &#8220;O que eu reivindico \u00e9 que todos os corpos tenham os seus direitos garantidos, ent\u00e3o que bom que disputamos essa narrativa, que bom que conseguimos alcan\u00e7ar muitas vidas perif\u00e9ricas, que bom que eu trouxe esse debate de ser, de fazer e mostrar que a pol\u00edtica \u00e9 nossa, que a gente que tem que estar l\u00e1, ent\u00e3o trazer esse debate para as periferias continua e vamos continuar construindo porque a nossa luta n\u00e3o para&#8221;, conta.<\/p>\n<p><span>Ela afirma que n\u00e3o existe outro caminho se n\u00e3o a pol\u00edtica institucional para construir um mundo menos desigual e democr\u00e1tico. &#8220;A pol\u00edtica institucional nada mais \u00e9 do que a ferramenta para constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa, uma ferramenta para fazer pol\u00edticas p\u00fablicas e diminuir desigualdades&#8221;, refor\u00e7a a vereadora suplente, destacando que esse \u00e9 o ponto de partida para a constru\u00e7\u00e3o de um projeto coletivo de cidade, estado e pa\u00eds onde todas as vidas t\u00eam a sua humanidade garantida, assim como diz Sueli Carneiro: &#8216;a nossa humanidade n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel, todos tem o seu direito de existir&#8217;.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>\n<b style=\"color: inherit; letter-spacing: 0px; text-align: inherit;\">A&nbsp;pandemia&nbsp;na Brasil\u00e2ndia<\/b><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>Keit ressalta que enxerga a Brasil\u00e2ndia como um lugar de muita pot\u00eancia, e que neste momento de pandemia seus moradores est\u00e3o tentando sobreviver, devido ao descaso do poder p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Do lado de c\u00e1 da ponte a gente sempre teve que lidar com o descaso do estado, agora com a pandemia isso est\u00e1 muito mais escancarado&#8221;, analisa Keit, afirmando que algumas pesquisas produzidas a partir de dados oficiais revelam que o fato de ser morador da periferia aumenta em 10 vezes mais a chance de morrer de complica\u00e7\u00f5es causadas pela covid-19.<\/p>\n<p>&#8220;A Brasil\u00e2ndia por muito tempo liderou o bairro com mais mortes mesmo n\u00e3o sendo o com mais casos, o que deixa muito evidente o quanto que a gente n\u00e3o tem acesso a sa\u00fade p\u00fablica de qualidade e \u00f3bvio que isso n\u00e3o come\u00e7ou agora, a gente sempre teve que lidar com isso antes da pandemia, se voc\u00ea fosse marcar um cl\u00ednico geral aqui na Brasil\u00e2ndia demoraria 62 dias n\u00e9, \u00e9 mais ou menos a m\u00e9dia para ser atendido \u00e9 o que diz uma pesquisa, enquanto l\u00e1 em Pinheiros s\u00e3o zero dias, essa desigualdade n\u00e3o come\u00e7ou na pandemia, s\u00f3 que agora est\u00e1 muito escancarado n\u00e9&#8221;, relata a vereadora suplente.<\/p>\n<p>Lima faz quest\u00e3o de deixar claro o significado da Brasil\u00e2ndia para ela que vive e atua na constru\u00e7\u00e3o de algumas lutas por direitos sociais no territ\u00f3rio. &#8220;Eu comecei a ter a discuss\u00e3o sobre cultura aqui. \u00c9 o lugar que eu fui para muito baile funk, onde eu curti muito a minha adolesc\u00eancia nos bailes, e \u00e9 um territ\u00f3rio onde respira cultura, tem muita pot\u00eancia, mas infelizmente onde existe muito descaso do Estado perante as vidas tanto aqui da Brasil\u00e2ndia, como em todas as periferias da cidade, eu me constru\u00ed como ativista pisando nesse territ\u00f3rio, e entendendo e lutando para diminuir essa desigualdade que existe dependendo de que lado da ponte voc\u00ea est\u00e1&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Um dos dilemas que conecta a Brasil\u00e2ndia a um colapso social na pandemia, de acordo com a vis\u00e3o pol\u00edtica de Keit \u00e9 a quest\u00e3o do isolamento social, uma escolha importante para preservar a vida, que n\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel a todos dos moradores. &#8220;O isolamento n\u00e3o chegou aqui, porque as fam\u00edlias t\u00eam que escolher entre morrer de fome ou morrer de covid, nunca teve nenhum amparo do Estado para que as fam\u00edlias perif\u00e9ricas pudessem fazer isolamento e tivesse comida na mesa, a pandemia chegou e vira e mexe aqui n\u00e3o tem \u00e1gua&#8221;, denuncia ela, apontando um cen\u00e1rio de calamidade p\u00fablica<\/p>\n<p>Segundo a moradora, uma sa\u00edda para amenizar essa situa\u00e7\u00e3o tem sido a atua\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes comunit\u00e1rios que est\u00e3o mobilizando a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias no territ\u00f3rio. &#8220;Os l\u00edderes comunit\u00e1rios se levantam e ajudam, t\u00e1 chegando sab\u00e3o nas casas, t\u00e1 chegando \u00e1lcool em gel, t\u00e1 chegando cesta b\u00e1sica, \u00e9 tudo atrav\u00e9s dos l\u00edderes comunit\u00e1rios, somos n\u00f3s que estamos fazendo, \u00e9 atrav\u00e9s da gente que est\u00e1 sendo feito algo, porque queremos a periferia viva, e a gente n\u00e3o abre m\u00e3o disso, e \u00e9 por isso que a gente se levanta para que isso aconte\u00e7a, nas periferias&#8221;, aponta a vereadora suplente, enfatizando que at\u00e9 o momento &#8220;o estado chegou&#8221; no territ\u00f3rio.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&nbsp;&#8220;A desigualdade tem cor, g\u00eanero e territ\u00f3rio&#8221;<\/p>\n<p><cite>Keit Lima<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Lima comenta que n\u00e3o existe e nunca existir\u00e1 um real Estado de democracia, sem que mulheres pretas, ind\u00edgenas e perif\u00e9ricas estejam dentro da pol\u00edtica institucional, como construtoras de pol\u00edtica p\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p>&#8220;Essas mulheres precisam ser escreventes de pol\u00edticas p\u00fablicas, porque a gente sabe que a desigualdade tem cor, g\u00eanero e tem territ\u00f3rio, ent\u00e3o s\u00e3o essas pessoas que sentem diariamente na pele o impacto da desigualdade que tem que estar l\u00e1 escrevendo e fazendo pol\u00edtica p\u00fablica junto com a popula\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o se pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o chega \u00e0 periferia, se pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o chega \u00e0s pessoas pretas, n\u00e3o chega aos ind\u00edgenas \u00e9 porque n\u00e3o s\u00e3o essas pessoas que est\u00e3o fazendo&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m comenta sobre a import\u00e2ncia desses corpos estarem ocupando esse espa\u00e7o pol\u00edtico para a pol\u00edtica ter a cara do povo brasileiro. &#8220;A gente n\u00e3o chega a uma real democracia enquanto o parlamento n\u00e3o for a cara do povo, enquanto o povo n\u00e3o estiver l\u00e1 sendo representado em sua totalidade, sendo representado com seu corpo e com as suas pautas, com a seriedade e comprometimento, \u00e9 por isso que \u00e9 muito importante eleger mulheres pretas, ind\u00edgenas e perif\u00e9ricas.&#8221;<\/p>\n<p>Ela revela que umas das suas principais reivindica\u00e7\u00f5es que passam pela pol\u00edtica institucional se baseia na efetiva\u00e7\u00e3o de direitos b\u00e1sicos \u00e0 exist\u00eancia humana. &#8220;Eu acho que o desafio \u00e9 a viol\u00eancia constante que meu corpo carrega n\u00e9, esse corpo de mulher preta, gorda, perif\u00e9rica e nordestina, mas eu n\u00e3o volto atr\u00e1s, n\u00e3o d\u00e1 mais para aceitar esse genoc\u00eddio em curso contra as vidas perif\u00e9ricas e pobres. A cada 23 minutos tomba um corpo, n\u00e3o d\u00e1 mais, n\u00e3o aceito, reivindico e essa reivindica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m perpassa pela pol\u00edtica institucional,&#8221; esclarece.<\/p>\n<p>Em uma linha do tempo, ela acredita que s\u00f3 est\u00e1 aqui pelos ac\u00famulos de aprendizados fruto das viv\u00eancias em fam\u00edlia. &#8220;Com 13 anos come\u00e7o a ser volunt\u00e1ria da escola e come\u00e7o a fazer trocas com os professores, diretora e vice-diretora, e a\u00ed eu come\u00e7o a entender um pouco mais, eu saio da\u00ed com 17 anos, e j\u00e1 entro na minha primeira gradua\u00e7\u00e3o. Com 22 anos eu j\u00e1 atuo como consultora plena em uma das melhores consultorias multinacional do mundo. Eu olho para aquele espa\u00e7o e n\u00e3o encontro nenhum dos meus, eu olho para aquele lugar e n\u00e3o vejo gente perif\u00e9rica e preta&#8221;, questiona ela.<\/p>\n<p>Ao questionar a estrutura de diversidade profissional na multinacional, Keit diz ter ficado incomodada com aquela situa\u00e7\u00e3o presente no seu ambiente de trabalho, e com base nessa viv\u00eancia ela passa a ter mais interesse em fazer algum tipo de mudan\u00e7a na vida dos moradores do territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia, por meio de suas a\u00e7\u00f5es de voluntariado realizadas sempre aos s\u00e1bados e domingos na Educafro. A partir desta inquieta\u00e7\u00e3o surge a sua conex\u00e3o pela luta antirracista e a favor pelo direito \u00e0 vida dos moradores das periferias e favelas de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A partir do resgate das suas mem\u00f3rias, Keit encontra for\u00e7as para continuar neste lugar de construir outra pol\u00edtica institucional e ser refer\u00eancia para elaborar pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0s desigualdades. &#8220;A pol\u00edtica institucional \u00e9 um espa\u00e7o muito bem alimentado para que gente preta, pobre e da periferia entenda que aquele espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 nosso, ent\u00e3o a gente precisa passar por v\u00e1rios processos para entender que aquele espa\u00e7o \u00e9 nosso sim, que \u00e9 a gente tem que estar l\u00e1&#8221;, finaliza.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nordestina, perif\u00e9rica e engajada na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia, zona norte de S\u00e3o Paulo, Keit Lima \u00e9 a \u00faltima entrevistada da s\u00e9rie trajet\u00f3ria pol\u00edtica, que mostra a hist\u00f3ria de mulheres perif\u00e9ricas que dedicam parte de sua vida a construir a pol\u00edtica institucional. 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