
{"id":1531,"date":"2021-03-24T16:57:43","date_gmt":"2021-03-24T19:57:43","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/03\/24\/eu-fui-cria-da-uneafro-diz-debora-dias-co-vereadora-formada-pela-rede-de-cursinhos\/"},"modified":"2024-06-29T21:10:32","modified_gmt":"2024-06-30T00:10:32","slug":"eu-fui-cria-da-uneafro-diz-debora-dias-co-vereadora-formada-pela-rede-de-cursinhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/series\/eu-fui-cria-da-uneafro-diz-debora-dias-co-vereadora-formada-pela-rede-de-cursinhos\/","title":{"rendered":"\u201cEu fui cria da Uneafro\u201d, diz D\u00e9bora Dias, co-vereadora formada pela rede de cursinhos"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Na terceira entrevista da s\u00e9rie trajet\u00f3ria pol\u00edtica, a co-vereadora D\u00e9bora Dias relembra as primeiras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ela se envolveu aos 12 anos dentro de um ponto de cultura e destaca a import\u00e2ncia da Uneafro Brasil para a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da juventude perif\u00e9rica.&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Cria da Uneafro Brasil, D\u00e9bora Dias, 22, se elegeu como co-vereadora na cidade de S\u00e3o Paulo, pelo mandato coletivo Quilombo Perif\u00e9rico. Ela \u00e9 educadora popular no n\u00facleo Ilda Martins, um dos p\u00f3los da rede cursinhos que prepara o morador da quebrada para acessar o ensino superior, organizado pela Uneafro, na regi\u00e3o da Fazenda da Juta, zona leste de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p>Al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o junto ao movimento de educa\u00e7\u00e3o popular, a jovem estuda ci\u00eancias sociais pela UNIFESP, e \u00e9 integrante do Projeto Agente Popular de Sa\u00fade na zona leste da cidade.<\/p>\n<p>A co-vereadora \u00e9 moradora da Fazenda da Juta, mas nasceu no Parque S\u00e3o Rafael, bairro vizinho na zona leste da cidade, onde ela foi criada por duas mulheres que a incentivaram dentro de seus planos e sonhos de vida.<\/p>\n<p>&#8220;Nasci no parque S\u00e3o Rafael, fui criada pela minha m\u00e3e e pela minha av\u00f3, que foi uma mulher de ax\u00e9 que adotou a minha m\u00e3e j\u00e1 adolescente, que acolheu ela junto da minha irm\u00e3 mais velha, e fui criada por essas duas mulheres dentro de uma casa de ax\u00e9 no parque S\u00e3o Rafael, muito simples n\u00e9, minha m\u00e3e \u00e9 empregada dom\u00e9stica, a minha av\u00f3 tamb\u00e9m foi empregada dom\u00e9stica, mas elas sempre me criaram com valores muito acolhedores, com respeito a eu ter a liberdade de sonhar o que eu queria ser, o sonho foi algo permitido que essas duas mulheres me ajudaram a tecer&#8221;, conta D\u00e9bora.<\/p>\n<p>Embora jovem, a educadora popular e co-vereadora valoriza o fato de o sobrenome &#8216;Dias&#8217;, como um legado da for\u00e7a e ancestralidade da sua fam\u00edlia. &#8220;Eu gosto de ser chamada como D\u00e9bora Dias, porque Dias \u00e9 o sobrenome que a minha m\u00e3e carregou da minha av\u00f3, que eu nem conheci, ent\u00e3o isso me faz ter um pouco dela em mim mesmo sem a conhecer, isso \u00e9 um desafio at\u00e9 que eu quero muito fazer na minha vida, descobrir mais coisas dessa minha av\u00f3 consang\u00fc\u00ednea, porque a minha m\u00e3e foi adotada, eu gosto de afirmar coisas como eu sou D\u00e9bora, preta, favelada e sapat\u00e3o&#8221;, ressalta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Viol\u00eancias Subjetivas<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Dias come\u00e7ou a desenvolver seu olhar pol\u00edtico quando entrou no seu primeiro emprego, no qual ela atuou como orientadora socioeducativa em um Centro para Crian\u00e7as e Adolescentes (CCA) no territ\u00f3rio da Fazenda Da Juta.<\/span><\/p>\n<p><span>&#8220;Quando eu entrei naquele espa\u00e7o para mim foi fundamental compreender as nuances que eu conhecia como moradora da quebrada. Quando voc\u00ea est\u00e1 dentro de um dos pequenos aparelhos da institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica que faz atendimento com as crian\u00e7as e adolescentes, voc\u00ea come\u00e7a a ter uma vis\u00e3o das aus\u00eancias mais subjetivas daquele territ\u00f3rio, porque aquilo que \u00e9 objetivo eu j\u00e1 tinha visto antes, que \u00e9 a falta em alguns lugares de saneamento b\u00e1sico, como esgoto a c\u00e9u aberto, precariedade no atendimento p\u00fablico de diversas inst\u00e2ncias como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social, todas essas coisas a gente consegue ver um pouquinho a olho nu, mas tem as subjetividades, as viol\u00eancias que \u00e9 instaurada nos corpos e nas corpas da juventude em que eu tava naquela condi\u00e7\u00e3o de educadora, ent\u00e3o eu sempre digo que existe uma D\u00e9bora que a D\u00e9bora antes do CCA e a D\u00e9bora depois&#8221;, explica.<\/span><\/p>\n<p><span>Atrav\u00e9s desta experi\u00eancia pol\u00edtica, definida por ela, D\u00e9bora afirma que conseguiu enxergar o que n\u00e3o conseguia ver antes. A graduanda de Ci\u00eancias Sociais foi estudante do cursinho popular da Uneafro, no n\u00facleo Rosa Parks que funciona dentro do CEU S\u00e3o Rafael.<\/span><\/p>\n<p><span>Ap\u00f3s entrar na faculdade, ela retorna ao n\u00facleo do cursinho popular como volunt\u00e1ria e depois se torna coordenadora do n\u00facleo que ajuda a fundar no territ\u00f3rio da Fazenda da Juta, o n\u00facleo Ilda Martins de Souza desde 2019. &#8220;Eu fui cria na Uneafro Brasil, fui estudante desse cursinho que funcionava l\u00e1 no Parque S\u00e3o Rafael&#8221;, relembra.<\/span><\/p>\n<p><span>Divida entre o trabalho, estudos e a atua\u00e7\u00e3o no projeto de educa\u00e7\u00e3o popular, D\u00e9bora destaca a import\u00e2ncia de ter um espa\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o popula\u00e7\u00e3o no meio da quebrada. &#8220;Eu trabalhava na assist\u00eancia social e era volunt\u00e1ria no n\u00facleo de educa\u00e7\u00e3o popular que eu estudei vivenciando todos os processos desse territ\u00f3rio, a gente acredita que nesse territ\u00f3rio tamb\u00e9m seria importante ter um n\u00facleo l\u00e1 no meio da quebrada. E \u00e9 isso, eu entro no cursinho como aluna, de aluna eu ingresso na universidade, eu viro educadora e de educadora me tornei coordenadora, e dessa coordena\u00e7\u00e3o a gente come\u00e7a a visualizar que aquele territ\u00f3rio que eu trabalhava tamb\u00e9m necessitava de outro n\u00facleo dentro da quebrada e passo a fazer parte da coordena\u00e7\u00e3o geral desse n\u00facleo da Uneafro.&#8221;<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/b2ap3_small_FOTO-DEB1.jpg\" alt=\"D\u00e9bora Dias no ato para o n\u00e3o fechamento do P.A do Hospital Vila Alpina (Foto: Wellington Amorim)\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>D\u00e9bora Dias no ato para o n\u00e3o fechamento do P.A do Hospital Vila Alpina (Foto: Wellington Amorim)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Quando a gente nasce preta, favelada e querendo entender as condi\u00e7\u00f5es de pessoa LGBT, a gente come\u00e7a a perceber o espa\u00e7o que est\u00e1 a nossa volta&#8221;<\/p>\n<p><cite>D\u00e9bora Dias<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Dias faz uma an\u00e1lise do que aconteceu em sua trajet\u00f3ria quando ela come\u00e7ou a perceber que parte da constru\u00e7\u00e3o social dos moradores das periferias tem como base o racismo, machismo, e \u00e9 colonial. &#8220;Quando a gente nasce preta, favelada e querendo entender as condi\u00e7\u00f5es de pessoa LGBT, a gente come\u00e7a a perceber que o espa\u00e7o que est\u00e1 a nossa volta n\u00e3o faz muito sentido, e a\u00ed depois a gente descobre porque ele \u00e9 um espa\u00e7o que \u00e9 constru\u00eddo a partir de uma estrutura racista, lgbtqia+f\u00f3bica e machista com um pensamento e uma constru\u00e7\u00e3o colonial, ent\u00e3o voc\u00ea percebe que voc\u00ea n\u00e3o consegue fluir com as ideias que est\u00e3o a sua volta, e a\u00ed a gente percebe as narrativas quando a gente \u00e9 crian\u00e7a, as nossas corpas sendo diferenciadas no espa\u00e7o escolar, o que acontece com a juventude negra dentro do espa\u00e7o escolar, n\u00e3o \u00e9 que evade, \u00e9 que ela \u00e9 expulsa pelo racismo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>D\u00e9bora usa muito a express\u00e3o &#8216;Corpas&#8217; porque acredita na import\u00e2ncia de desconstruir o imagin\u00e1rio da sociedade sobre quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade que s\u00e3o invisibilidades ou deturpadas, para n\u00e3o se tornarem assuntos comuns no cotidiano dos moradores das periferias e favelas.<\/p>\n<p>A co-vereadora faz uma linha do tempo sobre sua trajet\u00f3ria em movimentos culturais e conta os pontos mais importantes que a fizeram chegar dentro desse mandato coletivo hoje. &#8220;Tem um lugar pra mim que \u00e9 muito espec\u00edfico: eu tinha uma bolsa em uma escola particular onde eu fazia aula de dan\u00e7a, e a\u00ed eu chegava da escola e ensinava tudo o que eu aprendia para as minhas amigas, e eu ficava me perguntando por que elas tamb\u00e9m n\u00e3o podiam fazer dan\u00e7a n\u00e9?&#8221;, questiona ela, afirmando que acho essa foi \u00e0 primeira motiva\u00e7\u00e3o que a levou ser volunt\u00e1ria em um ponto de cultura do bairro quanto tinha apenas 12 anos.<\/p>\n<p>Ela acreditava que as meninas do seu bairro tamb\u00e9m tinham o direito de aprender a dan\u00e7ar bal\u00e9, assim como ela usufru\u00eda de uma bolsa de estudos na escola particular. Essa compreens\u00e3o acabou aproximando D\u00e9bora ainda na adolesc\u00eancia da discuss\u00e3o do direito a cultura na quebrada.<\/p>\n<p>&#8220;Foi meu primeiro contato mais direto com uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para eu me aproximar de um espa\u00e7o que tinha essa configura\u00e7\u00e3o de luta, com uma pol\u00edtica p\u00fablica da cultura, que s\u00e3o os Pontos de Cultura, ent\u00e3o foi esse meu primeiro contato, depois disso a\u00ed fui organizar o gr\u00eamio da escola e ser presidenta e participar do parlamento jovem&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>Ela acredita que antes de chegar \u00e0 C\u00e2mara Municipal da maior cidade do pa\u00eds, esse processo foi vivenciado ainda na sua adolesc\u00eancia. &#8220;Hoje a gente est\u00e1 aqui nessa casa, mas quando eu tinha 13 ou 14 anos, estive nessa casa como vereadora jovem criando projeto de lei e debatendo, ent\u00e3o foi uma experi\u00eancia muito importante, e \u00e9 importante dizer que nas duas edi\u00e7\u00f5es que eu participei eu era a \u00fanica menina negra, ent\u00e3o essas coisas me marcam e demarcam que espa\u00e7os a minha corpa pode ocupar, e como ela causava estranhamento quando eu estava aqui, ent\u00e3o teve essas linhas que me levaram a estar nos espa\u00e7os pol\u00edticos&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>J\u00e1 contamos aqui, mas e importante relembrar que D\u00e9bora tem 22 anos, com isso, a sua trajet\u00f3ria de estudante de escola p\u00fablica atravessou momentos marcantes dos \u00faltimos 10 anos, como por exemplo, a luta dos estudantes por melhorias na rede p\u00fablica de educa\u00e7\u00e3o em 2016.<\/p>\n<p>&#8220;Todo esse processo durante o ensino m\u00e9dio \u00e9 importante para dizer que em 2016, quando estavam acontecendo as ocupa\u00e7\u00f5es nas escolas eu estava no terceiro ano do ensino m\u00e9dio. A minha escola n\u00e3o ocupou, mas eu estive em outras escolas ajudando as escolas vizinhas a ocupar, e isso foi um fervo um g\u00e1s muito grande tamb\u00e9m na nossa juventude, enfim, eu tive a felicidade de viver essas experi\u00eancias nas lutas e depois ingressar nesse movimento que eu tenho muito orgulho de construir que \u00e9 a Uneafro Brasil, como aluna, coordenadora, construir as coisas na quebrada a partir desse movimento&#8221;, diz a co-vereadora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>Pol\u00edtica x Pol\u00edtica Institucional<span>&nbsp;<\/span><\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A futura cientista social faz quest\u00e3o de deixar bem claro o seu entendimento sobre o fazer pol\u00edtica no seu cotidiano. &#8220;Eu acho que n\u00e3o h\u00e1 nada que a gente fa\u00e7a que n\u00e3o seja um ato pol\u00edtico, tomar escolhas s\u00e3o processos pol\u00edticos que est\u00e3o enraizados na estrutura social que a gente vivencia, toda experi\u00eancia que a gente vivencia no nosso dia a dia de escolhas s\u00e3o processos pol\u00edticos, que envolvem tanto o campo da nossa objetividade de lidar no dia a dia, quanto da nossa subjetividade&#8221;, define a co-vereadora, dando um exemplo sobre como o afeto pode ser um ato pol\u00edtico revolucion\u00e1rio na vida das pessoas.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu escolho que vou comprar em uma Fast Fashion ou que eu vou comprar de uma artes\u00e3, estou fazendo uma escolha pol\u00edtica, ou seja, n\u00e3o tenha nada, nada que n\u00e3o seja uma escolha pol\u00edtica&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Ela explica que a pol\u00edtica institucional est\u00e1 ligada \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que organizam as normas e regras da sociedade e d\u00e1 exemplos de como a escola \u00e9 uma das possibilidades de vivenciar a pol\u00edtica institucional no cotidiano do morador da quebrada.<\/p>\n<p>&#8220;A escola \u00e9 um espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica institucional, assim como outros espa\u00e7os que est\u00e3o no nosso dia dia, s\u00f3 que a gente n\u00e3o faz essa diferencia\u00e7\u00e3o e muita das vezes a gente tem uma constru\u00e7\u00e3o social que tem at\u00e9 muita repulsa com a palavra pol\u00edtica, sem entender que tudo que a gente faz \u00e9 pol\u00edtica, no campo da objetividade ou subjetividade&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Segundo a co-vereadora, construir outra pol\u00edtica institucional \u00e9 uma forma de entender como surgem as pol\u00edticas p\u00fablicas e cita novamente a import\u00e2ncia da escola nesse processo. &#8220;No \u00e2mbito escolar, nas mat\u00e9rias que a gente faz como hist\u00f3ria, sociologia e filosofia, a gente come\u00e7a a entender um pouco mais sobre como essas institui\u00e7\u00f5es se constituem.&#8221;<\/p>\n<p>A partir da import\u00e2ncia de fazer escolhas e sentir os impactos que o voto causa no cotidiano das pessoas, D\u00e9bora avalia os cidad\u00e3os brasileiros que n\u00e3o valorizam o direito de votar precisam experimentar uma mudan\u00e7a de imagin\u00e1rio sobre esse poder pol\u00edtico e popular.<\/p>\n<p><span>&#8220;Tem um trecho da poesia do S\u00e9rgio Vaz que ele fala algo como o voto ser a \u00fanica vez que a gente \u00e9 o patr\u00e3o, \u00e9 muito importante a gente dizer isso porque a gente constr\u00f3i no processo pol\u00edtico que a gente vivenciou de tens\u00f5es pol\u00edticas desde o processo colonial que o povo n\u00e3o \u00e9 quem decide, o povo ele sempre vai ser massa de manobra, isso \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio muito superficial, mas na verdade \u00e9 que se as pessoas soubessem o quanto ela est\u00e1 dentro desse processo, participando efetivamente com o seu voto, ele pode ser decisivo para muitas coisas&#8221;, reflete.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;\u00c9 uma esperan\u00e7a coletiva pensar outro tipo de fazer pol\u00edtica&#8221;<\/p>\n<p><cite>D\u00e9bora Dias<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Formada por Elaine Mineiro, Alex Barcelos, D\u00e9bora Dias, J\u00falio C\u00e9sar, Erick Ovelha e Samara Sosthenes, a&nbsp;mandata&nbsp;coletiva&nbsp;Quilombo Perif\u00e9rico ocupa hoje um gabinete na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, a chapa filiada ao PSOL foi eleita com 22.742 votos. A campanha foi centrada em defender direitos e criar pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e0 base da educa\u00e7\u00e3o popular e da cultura perif\u00e9rica.<\/p>\n<p>&#8220;Coordenando cursinho, mobilizando meus companheiros e a juventude ali do territ\u00f3rio, e isso foi um chamado de tarefa pol\u00edtica do movimento, o movimento que indica meu nome para compor essa constru\u00e7\u00e3o incr\u00edvel que hoje a gente chama de Quilombo Perif\u00e9rico. Essa constru\u00e7\u00e3o ela n\u00e3o veio de agora, ela vem de um processo tamb\u00e9m do companheiro Douglas Belchior e de outros representantes do movimento negro, que sempre estiveram a\u00ed na disputa dessa pol\u00edtica institucional, e a\u00ed para o ano de 2020 pensou-se em uma nova configura\u00e7\u00e3o dessa disputa pol\u00edtica&#8221;, relembra ela, contando sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da candidatura coletiva impulsionado pelo movimento negro e perif\u00e9rico de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A mandada&nbsp;coletiva&nbsp;Quilombo Perif\u00e9rico contou com a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Uneafro Brasil, Bloco do Beco, Ag\u00eancia Solano Trindade, Maloka Socialista, Movimento Cultural das Periferias e Jongo dos Guaianazes.<\/p>\n<p>&#8220;O Quilombo Perif\u00e9rico se disp\u00f4s a construir um mandato que \u00e9 coletivo n\u00e3o por ter seis pessoas, mas ele \u00e9 coletivo porque \u00e9 o movimento que constr\u00f3i, para pensar a pol\u00edtica institucional, lembrando sempre que o povo preto t\u00eam um projeto pol\u00edtico para esse pa\u00eds, um projeto pol\u00edtico de vida, e eu acho que o Quilombo Perif\u00e9rico tem muito esse lugar de ser um mandato que se coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de ser mandado, mas tamb\u00e9m de continuar sendo movimento, fazer essas trocas na sua integralidades mesmo, de construir e somar juntos, ent\u00e3o acho que essa constru\u00e7\u00e3o coletiva que vai muito al\u00e9m de n\u00f3s seis, ela representa esses tantos movimentos que ajudaram a construir essa candidatura e que hoje constroem esse mandato&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>D\u00e9bora tamb\u00e9m releva seu sentimento de ser uma co-vereadora perif\u00e9rica, sapat\u00e3o com apenas 22 anos. &#8220;\u00c9 uma baita responsabilidade para uma pessoa que tem 22 anos, \u00e0s vezes vem neste lugar do meu deus isso \u00e9 muito real, isso \u00e9 muito s\u00e9rio, e isso \u00e9 muito importante e tem haver com a vida de muitas pessoas, no nosso caso mais de 22 mil pessoas que acreditaram nesse projeto pol\u00edtico e votou para que o Quilombo Perif\u00e9rico e os movimentos que a gente representa pudesse construir na cidade, \u00e9 uma grande responsabilidade mesmo&#8221;, reconhece.<\/p>\n<p><span>Outro sentimento manifestado pelo co-vereadora \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel de ter ganhado dentro da cidade de S\u00e3o Paulo e de poder levar as demandas da sua quebrada para dentro da C\u00e2mara Municipal. &#8220;Ent\u00e3o eu n\u00e3o sei dizer o que possa ser de fato esse sentimento de vit\u00f3ria, mas \u00e9 um sentimento de esperan\u00e7a, acredito que \u00e9 muito mais esperan\u00e7a de pensar que estamos caminhando junto com as nossas quebradas, isso \u00e9 uma vit\u00f3ria coletiva, \u00e9 uma esperan\u00e7a coletiva de pensar um outro tipo de fazer pol\u00edtica.&#8221;<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/b2ap3_large_aaa_20210323-173810_1.JPG\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Mandata Coletiva Quilombo Perif\u00e9rico (Foto: Wellington Amorim)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Eu espero tamb\u00e9m ser uma corpa e uma construtora de pol\u00edticas p\u00fablicas que tamb\u00e9m faz desse lugar um espa\u00e7o pra outras mulheres negras, outras meninas e meninos pretinhos das nossas quebradas&#8221;<\/p>\n<p><cite>D\u00e9bora Dias<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Uma das miss\u00f5es da co-vereadora \u00e9 tecer outras possibilidades de futuro para as crian\u00e7as da quebrada, para isso, ela deposita suas motiva\u00e7\u00f5es na sua ancestralidade familiar. &#8220;Eu tamb\u00e9m sou uma mulher preta, como diz perif\u00e9rica, filha de uma m\u00e3e empregada dom\u00e9stica e de uma av\u00f3 que tinha sido empregada dom\u00e9stica, n\u00e9, e \u00e9 muito louco dizer isso porque eu sou a primeira na minha fam\u00edlia a ingressar no ensino superior e a \u00fanica que n\u00e3o teve que trabalhar com servi\u00e7os de limpeza, ent\u00e3o vamos pensar nas gera\u00e7\u00f5es da minha av\u00f3, minha m\u00e3e e o que eu tenho not\u00edcia da minha bisav\u00f3, todas elas foram mulheres que trabalharam com servi\u00e7o de limpeza e n\u00e3o conseguiram chegar nem na quarta s\u00e9rie&#8221;, revela D\u00e9bora, citando suas motiva\u00e7\u00f5es pessoais e pol\u00edticas para &#8220;ser uma corpa e uma construtora desse coletivo de pol\u00edticas p\u00fablicas que tamb\u00e9m faz desse lugar pra outras mulheres negras, outras meninas e meninos pretinhos das nossas quebradas.&#8221;<\/p>\n<p>A cientista social destaca a import\u00e2ncia de eleger pessoas que tenham planos pol\u00edticos e discuss\u00f5es pol\u00edticas alinhadas com essas identidades. &#8220;Eu acho que tem uma coisa que \u00e9 muito importante dizer, \u00e9 que assim: n\u00e3o basta s\u00f3 n\u00f3s elegermos pessoas pretas, pessoas ind\u00edgenas, lgbtqia +. Essas pessoas precisam estar alinhadas a um projeto pol\u00edtico de vida para essas corpas, porque a gente tem experi\u00eancias de pessoas pretas, pessoas lgbtqia+, pessoas ind\u00edgenas que est\u00e3o dentro do processo da pol\u00edtica institucional e n\u00e3o est\u00e3o alinhadas com as pautas de necessidade que esses grupos precisam&#8221;, argumenta ela.<\/p>\n<p>Segundo D\u00e9bora, o projeto pol\u00edtico precisa ser decolonial e anti-racista. &#8220;Olhando o processo da classe trabalhadora, das mulheres, mulheres negras especificamente, mulheres ind\u00edgenas, enfim, das mulheres trans, acho que a gente tem que tomar um pouco de cuidado, as representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o important\u00edssimas, isso muda muita coisa, muda o corpo, muda as tens\u00f5es que se criam nesse ambiente da constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica institucional, mas essas representa\u00e7\u00f5es elas n\u00e3o podem estar vazias, s\u00f3 utilizando esse nome de &#8216;preta&#8217; ou &#8216;de quebrada&#8217; ou etc., ela tem que ser uma representa\u00e7\u00e3o que de fato tenha preposi\u00e7\u00f5es de um projeto pol\u00edtico de vida para esses grupos&#8221;, enfatiza.<\/p>\n<p><span>Ela finaliza a entrevista destacando as expectativas de a\u00e7\u00f5es dentro da C\u00e2mera Municipal. &#8220;Trabalhar esse momento que a gente est\u00e1 adentrando ao espa\u00e7o, esse \u00e9 o momento de conhecer cada nuance dessa casa, conhecer os processos normativos, voltar aos nossos planos e constru\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que vem de muitos anos n\u00e9, a gente tem 300 anos a\u00ed para poder de algum modo recuperar, a gente n\u00e3o vai fazer tudo de uma vez, mas a gente tem como centralidade olhar para cada especificidade dessa cidade pensando nessas quest\u00f5es de centraliza\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento, pensando em quest\u00f5es que protejam as nossas comunidades perif\u00e9ricas que incentive a cultura do povo preto, perif\u00e9rico, economia solid\u00e1ria. A gente come\u00e7a sabendo que tem muita demanda, muito trabalho para ser feito, e a\u00ed a gente est\u00e1 na disposi\u00e7\u00e3o de poder somar em cada uma das lutas que a gente se disp\u00f4s a construir dentro dos movimentos que a gente participa e que a gente acompanha&#8221;, conclui.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na terceira entrevista da s\u00e9rie trajet\u00f3ria pol\u00edtica, a co-vereadora D\u00e9bora Dias relembra as primeiras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ela se envolveu aos 12 anos dentro de um ponto de cultura e destaca a import\u00e2ncia da Uneafro Brasil para a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da juventude perif\u00e9rica.&nbsp; Cria da Uneafro Brasil, D\u00e9bora Dias, 22, se elegeu como co-vereadora na [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":1528,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[193,48,155,186,149,156,182,194],"ppma_author":[77,73],"class_list":["post-1531","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-series","tag-debora-dias","tag-especial","tag-mandato-coletivo","tag-politica-institucional","tag-politica-nas-periferias","tag-quilombo-periferico","tag-trajetoria-politica","tag-uneafro-brasil"],"acf":[],"authors":[{"term_id":77,"user_id":6,"is_guest":0,"slug":"vitoria-reporterpoliticagmail-com","display_name":"Vit\u00f3ria Guilhermina","avatar_url":{"url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Foto-Vitoria.jpeg","url2x":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Foto-Vitoria.jpeg"},"first_name":"Vit\u00f3ria","last_name":"Guilhermina","user_url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/xxvitoriaalves\"><i><\/i> \/xxvitoriaalves<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_vitoriaae\/\"><i> <\/i> @_vitoriaae<\/a>\r\nMoradora do Rio Pequeno, zona oeste de S\u00e3o Paulo, Vit\u00f3ria Guilhermina, 20, \u00e9 formada em Orienta\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria pela Etec CEPAM. Em 2018 ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Ela atua em seu territ\u00f3rio com projetos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o Cursinho Livre Cl\u00e1udia Silva Ferreira. 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