
{"id":1497,"date":"2021-03-02T19:43:57","date_gmt":"2021-03-02T22:43:57","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2021\/03\/02\/voce-escuta-musica-em-outros-idiomas\/"},"modified":"2024-06-29T21:10:45","modified_gmt":"2024-06-30T00:10:45","slug":"voce-escuta-musica-em-outros-idiomas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/voce-escuta-musica-em-outros-idiomas\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea escuta m\u00fasicas em outros idiomas?"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Gostar\u00edamos muito de compreender esta din\u00e2mica,&nbsp;porque somos de fato um grupo de hip hop multil\u00edngue e multinacional, visto que falo ingl\u00eas como primeira l\u00edngua e espanhol, e a Lena fala portugu\u00eas e italiano.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Jordan Fields e Lena Silva. Arquivo pessoal.<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Sinto que fa\u00e7o parte de um grupo muito pequeno e fechado de pessoas nos Estados Unidos que ouvem com frequ\u00eancia m\u00fasica em outros idiomas. Eu escuto m\u00fasica principalmente em espanhol, portugu\u00eas e franc\u00eas ocasional, gosto tamb\u00e9m de ouvir m\u00fasica em dialetos africanos. Isso n\u00e3o \u00e9 muito comum nos EUA, j\u00e1 que apenas 4% dos americanos ouvem m\u00fasica em outras l\u00ednguas sempre, 8% ouvem frequentemente, 25% dizem \u00e0s vezes, 27% raramente e 34% nunca, segundo <\/span><a href=\"https:\/\/www.statista.com\/statistics\/803372\/listening-to-foreign-lyrics\/\" style=\"font-size: inherit; background-color: rgb(255, 255, 255); text-align: inherit; letter-spacing: 0px;\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"color: #5EA4F2\" style=\"color: rgb(94, 164, 242);\">pesquisa<\/span><\/a><span> feita com 5.778 entrevistados. E eu j\u00e1 fiz parte desses 34%.<\/span><\/p>\n<p>Os quatro por cento que mencionei s\u00e3o quase inteiramente compostos de imigrantes latinos e seus descendentes que vivem nos Estados Unidos. De todas as pessoas que frequentemente ouvem m\u00fasica em outros idiomas, 52% s\u00e3o espanh\u00f3is.<\/p>\n<p>As pessoas nos Estados Unidos v\u00eaem o mundo de uma lente extremamente limitada, a maioria de n\u00f3s n\u00e3o sabemos nada sobre o mundo e, pelo pouco que sabemos, sempre nos colocamos no meio. Esse \u00e9 um fen\u00f4meno maior que a ra\u00e7a, mas com o p\u00e9ssimo sistema de ensino que temos nas \u00e1reas negras daquele pa\u00eds, d\u00e1 para imaginar o qu\u00e3o limitado \u00e9 o acesso.<\/p>\n<p>Hoje em dia falo portugu\u00eas fluente, mas nem eu sabia que o Brasil tinha negros at\u00e9 assistir o filme Cidade de Deus, tamb\u00e9m achava que se falava espanhol aqui, o Rio de Janeiro era a capital e tudo era uma imensa floresta. \u00c0s vezes eu culpo o esporte nos Estados Unidos tamb\u00e9m, porque vejo que aqui no Brasil, mesmo quem \u00e9 muito pobre e sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sabe que lugares como Barcelona, Madrid, Manchester e Portugal existem por causa dos times de futebol. Mas voc\u00ea pode acreditar que existem muitos pobres afro-americanos que nunca ouviram falar de nenhum desses lugares? Nossos esportes jogam apenas em outras cidades e estados dos EUA.<\/p>\n<p>Minha jornada come\u00e7ou em 2010, ent\u00e3o tenho cerca de 11 anos de imigra\u00e7\u00e3o, hoje eu sei que outros lugares e l\u00ednguas existem fora dos Estados Unidos. Primeiro foi com o espanhol, tive que aprender a l\u00edngua por motivos sociais por causa dos problemas e da viol\u00eancia na minha comunidade. Voc\u00ea acredita que quando eu dirigia pela minha comunidade tocando m\u00fasica em espanhol, recebia muito julgamento do meu povo? Pessoas gritavam comigo quando eu estava com o som alto no meu carro. &#8220;Yo! Voc\u00ea \u00e9 negro!! Ou\u00e7a m\u00fasica negra, pare de tentar ser espanhol!&#8221;<\/p>\n<p>S\u00f3 para voc\u00ea nos entender um pouco mais, em muitas comunidades negras onde h\u00e1 imigrantes latinos, a maioria dos negros n\u00e3o os chama de latinos, a maioria os chama de &#8220;espanh\u00f3is&#8221;, o que pra mim era normal at\u00e9 eu come\u00e7ar a entender o mundo, e vi que espanhol \u00e9 espanhol. Os ditos latinos foram colonizados por espanh\u00f3is e s\u00f3 falam a l\u00edngua do colonizador, mas a maioria das pessoas n\u00e3o sabe disso. \u00c9 como chamar os brasileiros de portugueses ou chamar os americanos de ingleses. Ent\u00e3o, realmente, eu estava sendo julgado e discriminado pelo meu pr\u00f3prio povo com base em sua ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em contraste os brasileiros s\u00e3o muito diferentes, a maioria das pessoas que vejo toca m\u00fasica em outros idiomas o tempo todo e \u00e9 normal, ningu\u00e9m grita, &#8220;ei, desligue essa merda de ingl\u00eas!&#8221;. No Brasil, 62% da popula\u00e7\u00e3o acredita que \u00e9 poss\u00edvel aprender l\u00ednguas ouvindo m\u00fasica e muitas pessoas aqui pensam nisso porque est\u00e3o usando as plataformas de streaming de m\u00fasica. Por\u00e9m, existe outra realidade de muitas pessoas no Brasil que amam ouvir m\u00fasica em ingl\u00eas ou em espanhol, mas nunca tentam entender as letras. Isso \u00e9 muito dif\u00edcil de compreender do ponto de vista dos Estados Unidos, acho que n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que faria algo assim. L\u00e1 se ouve m\u00fasica em outro idioma se voc\u00ea j\u00e1 tem conhecimento ou apenas ouve m\u00fasica em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 injusto quando voc\u00ea pensa sobre isso, para um artista nos Estados Unidos quando ele se torna popular, a arte dele pode se espalhar pelo mundo, oportunidades de shows e tudo, sem nunca ter que aprender nenhuma outra l\u00edngua. Um exemplo disso foi em 2019, quando Cormega, um dos meus rappers favoritos, veio ao Brasil se apresentar na Zona Leste. Al\u00e9m de cantar todas as suas m\u00fasicas em ingl\u00eas, ele realmente tentava falar com o p\u00fablico apenas em ingl\u00eas, fazendo perguntas e at\u00e9 esperando uma resposta, ou dando comandos como &#8220;levanta as m\u00e3os pra cima!&#8221;. Achei rid\u00edculo e disse a mim mesmo que se eu ficasse famoso um dia, nunca faria algo assim, pelo menos tentaria aprender algumas palavras do pa\u00eds em que estou atuando. Um artista brasileiro nunca faria isso, voc\u00ea n\u00e3o pode ir para os EUA e s\u00f3 fazer rap em portugu\u00eas, ou s\u00f3 falar em portugu\u00eas com o p\u00fablico, isso nunca daria certo e ningu\u00e9m prestaria aten\u00e7\u00e3o em voc\u00ea. Poderia funcionar se fizessem um show para a comunidade brasileira, mas os n\u00fameros de poss\u00edveis f\u00e3s n\u00e3o ficariam muito altos nesse caso.<\/p>\n<p>Eu tive a oportunidade de sair do pa\u00eds ainda muito jovem. Quando conclu\u00ed o ensino m\u00e9dio fui para a Europa morar com tias e primas que se estabeleceram no norte da It\u00e1lia, na cidade de G\u00eanova. At\u00e9 ent\u00e3o eu fui sem muitos prop\u00f3sitos. Eu queria mesmo era sair do bairro onde eu morava aqui em S\u00e3o Paulo, trabalhar e ajudar a minha m\u00e3e. Passei 10 anos da minha vida l\u00e1, onde eu pude assistir a muitos shows internacionais e viajar por alguns pa\u00edses da Europa. Com o forte fluxo de imigra\u00e7\u00e3o de povos de alguns pa\u00edses europeus, \u00c1frica e Am\u00e9rica do Sul, \u00e9 muito comum entre os italianos ouvir m\u00fasica em outros idiomas, mesmo que n\u00e3o saibam falar esses idiomas e muitos artistas italianos cantam em ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas e at\u00e9 mesmo portugu\u00eas como \u00e9 o caso das cantoras Gaia Gozzi e Charlotte de Melo.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa Music Listening 2019 da <a href=\"https:\/\/www.fimi.it\/mercato-musicale\/pubblicazioni\/music-listening-2019-estratto-italia.kl\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"color: #5ea4f2\" style=\"color: rgb(94, 164, 242);\">IFPI (International Forum for Postgraduate Studies Information)<\/span><\/a> &#8211; organiza\u00e7\u00e3o que representa a ind\u00fastria discogr\u00e1fica no mundo inteiro, na It\u00e1lia a m\u00fasica pop ainda predomina. A It\u00e1lia segue a tend\u00eancia geral com algumas peculiaridades. O repert\u00f3rio local continua a dar voz, mas isso tamb\u00e9m pode ser constatado nos rankings e certifica\u00e7\u00f5es semanais e anuais que, durante anos, viram principalmente os artistas italianos no topo, com um aumento tamb\u00e9m no mercado de singles: 61% ouvem ao pop italiano, seguido pelo rock e composi\u00e7\u00e3o, enquanto trap e hip hop explodem entre os jovens, pontuando 53% na faixa dos 16-24 anos, e latim em alta (37,6%).<\/p>\n<p>E as m\u00fasicas que t\u00eam diversos idiomas em um? Bom, esse \u00e9 um estudo que n\u00e3o consigo encontrar ou talvez ainda n\u00e3o tenha sido realizado, mas poderia haver um grupo de pessoas que gosta especificamente de ouvir m\u00fasica que tenha mais de um idioma? Gostar\u00edamos muito de compreender esta din\u00e2mica, porque somos de fato um grupo de hip hop multil\u00edngue e multinacional, visto que falo ingl\u00eas como primeira l\u00edngua e espanhol, e a Lena fala portugu\u00eas e italiano.<\/p>\n<p>Compartilhe conosco qual \u00e9 o seu pensamento e vamos iniciar essa pesquisa aqui.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gostar\u00edamos muito de compreender esta din\u00e2mica,&nbsp;porque somos de fato um grupo de hip hop multil\u00edngue e multinacional, visto que falo ingl\u00eas como primeira l\u00edngua e espanhol, e a Lena fala portugu\u00eas e italiano. Foto: Jordan Fields e Lena Silva. Arquivo pessoal. 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BiXop nasceu e cresceu no estado de Nova J\u00e9rsei em meio a viol\u00eancia e desigualdade que \u00e9 n\u00e3o mostrada na m\u00eddia brasileira.  O seu interesse pelo hip hop brasileiro resultou na aprendizagem da l\u00edngua portuguesa, e a decis\u00e3o de mudar para o Brasil e criar m\u00fasica multilingue buscando novas op\u00e7\u00f5es de crescer como artista.\r\nEnquanto Lena Silva, nasceu no estado da Bahia na cidade de Jequi\u00e9. Teve a oportunidade de viajar e morar no exterior, aprendeu a falar italiano e conheceu a arte da fotografia, hoje \u00e9 fot\u00f3grafa, dreadmaker e cantora\/mc, al\u00e9m de ser companheira de vida de Bixop. 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