
{"id":1468,"date":"2020-12-22T19:50:23","date_gmt":"2020-12-22T22:50:23","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/12\/22\/mulheres-em-circulo-a-experiencia-de-coletivos-de-mulheres\/"},"modified":"2024-06-29T21:10:58","modified_gmt":"2024-06-30T00:10:58","slug":"mulheres-em-circulo-a-experiencia-de-coletivos-de-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/mulheres-em-circulo-a-experiencia-de-coletivos-de-mulheres\/","title":{"rendered":"Mulheres em C\u00edrculo: a experi\u00eancia de coletivos de mulheres"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">Sempre tive muitas mulheres \u00e0 minha volta. Fui criada pela minha m\u00e3e, por amigas da minha m\u00e3e, pelas m\u00e3es de creche e professoras: todas elas me ajudaram na passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia. <span class=\"redactor-invisible-space\"><\/span><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/763\/Capturar.PNG\" title=\"Tiemi 2013 \"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/763\/Capturar.PNG\" title=\"Tiemi 2013 \"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/763\/Capturar.PNG\" title=\"Tiemi 2013 \">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Tiemi 2013 <\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Sempre tive muitas m\u00e3es. Esse sempre foi o meu destino: M\u00e3e Eva Mar\u00e7al, m\u00e3e S\u00f4nia Lopes, as m\u00e3es dos meus namorados e as m\u00e3es dos meus amigos. Minha conex\u00e3o com mulheres sempre foi muito forte e para al\u00e9m do meu entendimento.<\/p>\n<p>Eu conheci o feminismo muito cedo por falas da minha professora e amiga Selma Saraiva, ativista social e artista pl\u00e1stica. Entre aprender a beber, fumar e me divertir nas noites da periferia de S\u00e3o Paulo, aprendi a diferen\u00e7a estabelecida entre falar do feminismo e a pr\u00e1tica do que deveria ser o comportamento esperado de uma mulher.<\/p>\n<p>Minha primeira luta foi o espa\u00e7o de fala. Ser ouvida \u00e9, sem d\u00favida, uma das maiores dificuldades na vida de uma mulher. Fui oradora do gr\u00eamio estudantil como secundarista e n\u00e3o foi f\u00e1cil conquistar esse espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Posso dizer que mesmo com todos os ru\u00eddos existentes, a apropria\u00e7\u00e3o de ideias e a nega\u00e7\u00e3o do conhecimento presente nessa pequena mulher que aqui relata, eu consegui ser ouvida e reconhecida pelo meu posicionamento em diversos espa\u00e7os. Eu sabia que a luta contra esse silenciamento fazia parte da luta feminista, mas n\u00e3o d\u00e1vamos esse nome para o que sempre fez parte da realidade das mulheres perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>O feminismo para mim era branco, falava em outra l\u00edngua, trazia argumentos fora da realidade, e por isso que at\u00e9 quase os 25 anos eu n\u00e3o fiz parte de nenhum coletivo feminista. Aos 27 anos j\u00e1 havia feito muita coisa &#8211; fui atriz, cantora, poeta e m\u00e3e -, mas ainda n\u00e3o havia me conectado com algo que considerava fundamental: a mim pr\u00f3pria. Tudo que eu lia e conhecia frequentemente me distanciava das minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias, pois a vida \u00e9 feita de fatos e n\u00e3o de an\u00e1lises, de nada vale se eles n\u00e3o est\u00e3o conectados. Ent\u00e3o fui para a faculdade de sociologia entender como o conhecimento poderia fazer sentido no cotidiano perif\u00e9rico e suas mazelas.<\/p>\n<p>A essa altura eu j\u00e1 fazia parte das estat\u00edsticas como m\u00e3e solteira, mulher preta e pobre de periferia, e essa constata\u00e7\u00e3o estreitou minha rela\u00e7\u00e3o com o feminismo, pois ele se fazia necess\u00e1rio como base de compreens\u00e3o para todas as dificuldades que eu enfrentava nesse percurso de mulher universit\u00e1ria e m\u00e3e.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo me afirmei mais do que nunca como mulher negra, apesar de muitas pessoas terem uma vis\u00e3o embranquecida da minha presen\u00e7a em raz\u00e3o dos meus tra\u00e7os ind\u00edgenas, assim como minha forma de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; adquirida no movimento social e pol\u00edtico &#8211; confunde algumas delas sobre a minha classe social. Sempre fugindo dos estere\u00f3tipos e buscando uma constru\u00e7\u00e3o de uma auto imagem que me fortalecesse no contexto social p\u00fablico, me vi muitas vezes constrangida, por n\u00e3o ser reconhecida em lugares que para mim sempre foram comuns em minha vida. A constru\u00e7\u00e3o de um estere\u00f3tipo de mulher perif\u00e9rica, muitas vezes destr\u00f3i um espa\u00e7o de conviv\u00eancia importante para as mulheres.<\/p>\n<p>Durante minha vida acad\u00eamica conheci uma bibliografia imensa sobre mulheres, mas um livro em si mudou minha trajet\u00f3ria: <em data-redactor-tag=\"em\" data-verified=\"redactor\">Mulheres: o g\u00eanero nos une, a classe nos divide<\/em> de Cec\u00edlia Toledo.<\/p>\n<p>J\u00e1 abastecida de leituras marxistas, esse livro me fez rever e focar absolutamente na mulher e suas quest\u00f5es. Toledo aponta que a mulher passou por diversas situa\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o no decorrer do tempo, mas que, no entanto, ela n\u00e3o nasceu oprimida ou inferiorizada, mas passou a ser tratada dessa maneira, e que essa rela\u00e7\u00e3o esteve relacionada, direta ou indiretamente, \u00e0 divis\u00e3o social do trabalho.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed percebi que a submiss\u00e3o da mulher n\u00e3o \u00e9 natural, porque naturalizamos esse estado de coisas que v\u00eam de nossos parceiros, de nossos patr\u00f5es e todo e qualquer homem que se v\u00ea na disputa de espa\u00e7o social. \u00c9 importante destacar que minha vida se fez no movimento social e cultural, mas mesmo nesses espa\u00e7os a constru\u00e7\u00e3o da masculinidade est\u00e1, at\u00e9 hoje, envolta de um machismo velado pela amplitude da arte e das necessidades sociais -, como sa\u00fade e habita\u00e7\u00e3o. Apesar de as grandes l\u00edderes desses movimentos serem mulheres, muitas vezes homens se apropriam dessas lutas se tornando destaque nesses movimentos.<\/p>\n<p>Toledo fala sobre a quest\u00e3o da pobreza e as piores condi\u00e7\u00f5es de vida da mulher negra, mas tamb\u00e9m fala sobre suas lutas. A mulher negra naturalizou a luta como parte da sua vida, pois ser mulher \u00e9 lutar o tempo todo pela sua sobreviv\u00eancia e de sua fam\u00edlia, sendo dif\u00edcil a\u00ed identificar esse cotidiano de luta com as bandeiras feministas, tornando esse movimento estranho \u00e0s a\u00e7\u00f5es que ela realiza cotidianamente e seus espa\u00e7os de conquista.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia na Universidade foi um tempo de matura\u00e7\u00e3o, leitura e conhecimento, muita troca e rea\u00e7\u00f5es diante do machismo presente, mas somente em 2012, quando retornei \u00e0 periferia, comecei realmente a pensar atua\u00e7\u00f5es que possibilitassem a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e de g\u00eanero na quebrada.<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 fato: n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil pensar sobre emancipa\u00e7\u00e3o feminina quando n\u00f3s mesmas estamos engendradas nessas amarras &#8211; relacionamentos, trabalhos, filhos, a vida em movimento &#8211; enquanto estamos refletindo sobre o que significa de fato poder ser quem somos e conquistar espa\u00e7os, sem que isso de certa forma, se torne um conflito em nossa pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 fr\u00e1gil e precisa ser protegida. Sacrific\u00e1-la mesmo como medida tempor\u00e1ria, \u00e9 tra\u00ed-la. Como, ent\u00e3o, agir em um contexto onde a vida vivida nos envolve constantemente no machismo? Eu ainda n\u00e3o sei, mas descobri em 2015 que estar constantemente entre mulheres nos livra de diversas amarras e promove um processo de cura importante.<\/p>\n<p>Em 2013, criamos o coletivo Katu junto a professores da regi\u00e3o, atuando em escolas p\u00fablicas na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de jovens do ensino m\u00e9dio: uma estrat\u00e9gia de conversar com os jovens sobre as conven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas existentes, g\u00eanero, cultura e sexualidade que, sem d\u00favida, \u00e9 um tema que sempre surgir\u00e1 se em uma roda de jovens pedirmos que eles sugiram temas para um debate.<\/p>\n<p>Por meio desse coletivo conheci mulheres que tamb\u00e9m continham em seu discurso ideias e pr\u00e1ticas feministas em \u00e2mbito perif\u00e9rico: Alessandra Tavares, Jenyffer Nascimento, Mariana Brito, Carla Arailda, Danielle Regina, Daniela Braga, Dandara Kunt\u00ea, entre tantas outras.<\/p>\n<p>Temos outras hist\u00f3rias de encontro, claro: foram outros debates, mesas, encontros e comemora\u00e7\u00f5es dentro do espa\u00e7o da cultura e do movimento social. Mas entre esses encontros nasceu uma a\u00e7\u00e3o feminista que levava em conta nossas particularidades territoriais, \u00e9tnicas e econ\u00f4micas. N\u00e3o foi o primeiro lugar da cidade em que essa discuss\u00e3o se dava, seria imposs\u00edvel, sem um estudo qualificado, historiografar esse movimento, mas afirmo que ele veio com for\u00e7a reanimando o movimento feminista nas periferias.<\/p>\n<p>Em 8 mar\u00e7o de 2015, nasceu o encontro de mulheres Periferia Segue Sangrando, a partir da reflex\u00e3o de uma m\u00fasica do Rapper GOG e das a\u00e7\u00f5es da grafiteira e artista pl\u00e1stica Carolina Teixeira, que pintava \u00fateros pela cidade. Realizamos um encontro onde reunimos mulheres da periferia sul em c\u00edrculo para falar das nossas mazelas e realizar um processo de cura coletivo.<\/p>\n<p>Com base nos c\u00edrculos restaurativos e sua metodologia potente no trabalho dos impactos da viol\u00eancia na subjetividade, que trabalha por meio de viv\u00eancia o mergulho em sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, os danos que viol\u00eancias vividas ainda nos provocam e nos afetam em rela\u00e7\u00e3o aos outros e, principalmente, em nossa atua\u00e7\u00e3o como mulheres livres. Dores essas vis\u00edveis e invis\u00edveis que trazemos como marcas em nossos corpos f\u00edsicos e metaf\u00edsicos, pois, nossas ancestrais tamb\u00e9m viveram trajet\u00f3rias marcadas pela dor. O racismo, elemento da escravid\u00e3o, e o machismo e o preconceito de g\u00eanero nos atravessam historicamente e elaboram esse imagin\u00e1rio do medo da liberdade que se confunde com a impossibilidade de viver plenamente como mulher.<\/p>\n<p>Esse encontro foi um marco no meu imagin\u00e1rio de feminismo, pois nunca havia participado de algo t\u00e3o completo, belo e extravagante. Mulheres de diversas partes e contextos diferentes em c\u00edrculo, com uma pe\u00e7a de fala (instrumento utilizado como mediador de fala, quem est\u00e1 com a pe\u00e7a est\u00e1 com a palavra, at\u00e9 que se esgote sua fala e ela passe a pe\u00e7a para outra mulher), falando de suas hist\u00f3rias e trajet\u00f3rias. Entre dores e alegrias, n\u00f3s, entre outras, compartilhamos ali a import\u00e2ncia de nossas hist\u00f3rias para a elabora\u00e7\u00e3o de nossas vidas.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida aquele c\u00edrculo me curou de tantas formas que n\u00e3o cabem em palavras, mas uma coisa \u00e9 fato: descobri ali que a fala sobre a import\u00e2ncia da luta da mulher contra o machismo e as diversas formas de opress\u00e3o que se apresentam em nossas caminhadas se d\u00e1 por meio da escuta e do compartilhamento.<\/p>\n<p>Esse foi um momento em que na periferia Sul diversos coletivos feministas come\u00e7aram a existir. A Coletiva Fala Guerreira estabeleceu um curso de comunicadoras, reuniu mulheres de diversos cantos da cidade na Associa\u00e7\u00e3o Cultural Bloco do Beco no Jardim Ibirapuera, sede ainda hoje de diversas a\u00e7\u00f5es feministas da Zona Sul. Desse curso nasceu a revista Fala Guerreira que, com seis exemplares, trouxe diversas mulheres na produ\u00e7\u00e3o de textos sobre a mulher no contexto perif\u00e9rico, al\u00e9m de debates e a\u00e7\u00f5es relevantes.<\/p>\n<p>Ainda outras surgiram como as coletivas Camomilas, Mulheres Negras, Aud\u00e1cia, entre diversas outras espalhadas pela cidade &#8211; elas surgiram. Ou ressurgiram, em um contexto mais denso da discuss\u00e3o de um feminismo perif\u00e9rico. Grupos art\u00edsticos como a Capulanas \u2013 Cia de arte negra compostos por mulheres, t\u00eam em sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica a mulher negra e a di\u00e1spora, que j\u00e1 existia, mas que nesse contexto de descobrimento da import\u00e2ncia dos coletivos de mulheres se apresenta com uma pot\u00eancia nas narrativas ligadas \u00e0 ancestralidade negra e sua import\u00e2ncia no feminismo perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Ficamos fortes, eu fiquei forte, e o debate de g\u00eanero, quente, em um contexto nacional. Rodas e mais rodas de debate e forma\u00e7\u00e3o de g\u00eanero surgiram, e mais e mais se estabelece uma conex\u00e3o com as mulheres, suas hist\u00f3rias e trajet\u00f3rias.<\/p>\n<p><span>Eu aprendi muito no c\u00edrculo de mulheres, aprendi que minha vida na periferia de S\u00e3o Paulo tem import\u00e2ncia em um contexto geral para a reflex\u00e3o da mulher perif\u00e9rica.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Sabedoria de m\u00e3e, sua cabe\u00e7a seu guia, ela me dizia entre conversas sobre o futuro e minha covardia.<\/p>\n<p>Bebi muita \u00e1gua de mina, me banhei, brinquei, comunguei com ela as vozes que me seguiam. Meu ber\u00e7o mina da Monte Azul, sem intender vivi em torno da \u00e1gua quase que uma vida, \u00e1gua morta dos c\u00f3rregos, \u00e1gua viva da mina.<\/p>\n<p>Essa \u00e1gua fez a menina&#8230;. Ah se eu soubesse o que sei hoje, teria feito daquela mina minha morada. Mas eu sentia de outra forma com meu baldinho de idas e vindas, sentia tristeza da minha pobreza, vergonha n\u00e3o, isso nunca foi servido l\u00e1 em casa em nenhuma mesa.<\/p>\n<p>Eu cresci em comunidade de verdade, muitas m\u00e3os para forjar essa menina, m\u00e3es de creche, crian\u00e7as, amigos e a mina.&#8221;<\/p>\n<p><cite>Anabela Gon\u00e7alves<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Aqui se estabelece uma narrativa existente nos c\u00edrculos de mulheres, n\u00e3o estou aqui tentando conjecturar dentro de uma an\u00e1lise intelectual a import\u00e2ncia desses encontros, mas que vejam a partir de mim a import\u00e2ncia de transforma\u00e7\u00e3o da linguagem e da fala no processo de alinhamento da luta feminina.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida quando falo de mim, tenho que recorrer a um dos temas mais perturbadores na vida de uma feminista h\u00e9tero: relacionamentos afetivos, amorosos e sexuais na contemporaneidade e suas amarras na manuten\u00e7\u00e3o do machismo e do capitalismo como normas sociais.<\/p>\n<p>Em d\u00favida sempre, ser\u00e1 que essa discuss\u00e3o se refere ao sexo ou a constru\u00e7\u00e3o de uma masculinidade machista que pode reverberar em qualquer dos corpos que se relacionem? Sabemos que essa masculinidade machista tem se manifestado em corpos masculinos, sujeitando mulheres a relacionamentos privativos, violentos e torturantes, e eu n\u00e3o fugi a essa regra terr\u00edvel, mas os c\u00edrculos me fortaleceram para sair desses processos, olhando para o que era meu, o que era do outro e como as estruturas sociais alimentavam essas rela\u00e7\u00f5es. Hoje o amor n\u00e3o \u00e9 mais casar, mas tamb\u00e9m \u00e9 casar, n\u00e3o \u00e9 mais alian\u00e7as, mas tamb\u00e9m \u00e9 alian\u00e7as, entre outros comportamentos patriarcais equivalentes, o que melhora nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a possibilidade.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o nos intoxicar com as velhas inflama\u00e7\u00f5es patriarcais que atrasam nossas conquistas pessoais, independente de g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o? Tudo isso faz parte de uma grande e velha constru\u00e7\u00e3o sobre nossas vidas. Hoje somos &#8220;Marias que vai com as outras&#8221;, estamos organizadas em pautas de extrema relev\u00e2ncia para o presente, o passado e o futuro, resolvendo inflama\u00e7\u00f5es ancestrais que tiram de n\u00f3s o peso de um passado de silenciamento e viol\u00eancia, tornando poss\u00edvel a fala de nossas ancestrais reverberar em nossas falas, mesmo lidando com o silenciamento e a viol\u00eancia constantemente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>Mas uma quest\u00e3o presente sempre fica: como regular o amor politicamente?<span>&nbsp;<\/span><\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Bem, hoje n\u00e3o estamos mais sozinhas para pensar sobre nossas rela\u00e7\u00f5es, sendo elas heterossexuais ou n\u00e3o, sendo elas monog\u00e2micas ou n\u00e3o. As mulheres e seus estudos, nos trouxeram a possibilidade de saber que nada \u00e9 natural, tudo \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, e como tal pode ser demolido.<\/p>\n<p>Quando falamos dos c\u00edrculos de mulheres aqui da periferia Sul de S\u00e3o Paulo, ainda em um recorte menor, da minha periferia sul, Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, Jardim \u00c2ngela e Cap\u00e3o Redondo, estamos falando de mulheres negras, mesmo com o relativismo estabelecido pelo colorismo, n\u00f3s nos reconhecemos, tamb\u00e9m e ainda mais, pelas condi\u00e7\u00f5es materiais de empobrecimento que vivemos. Por meio desse reconhecimento temos nos inspirado em nossa di\u00e1spora para reafirmar a import\u00e2ncia das organiza\u00e7\u00f5es femininas, n\u00e3o s\u00f3 em um contexto ocidental, por meio das lutas do movimento feminista organizado, tamb\u00e9m composto historicamente por mulheres negras em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 1983, quando o governador de S\u00e3o Paulo, Franco Montoro, nomeou 30 conselheiras, todas elas brancas, para o Conselho Estadual da Condi\u00e7\u00e3o Feminina &#8211; CECF (o primeiro conselho governamental dos direitos das mulheres e que inspirou todos os demais criados no Brasil), desencadeou-se um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o de mulheres militantes do movimento negro paulista, tendo como resultado a cria\u00e7\u00e3o do Coletivo de Mulheres Negras de S\u00e3o Paulo. Sua mobiliza\u00e7\u00e3o fez com que duas mulheres fossem nomeadas para compor o CECF.<\/p>\n<p><span>Em 1984, realizou-se o 1\u00ba Encontro Estadual de Mulheres Negras, que discutiu, entre outros temas, as rela\u00e7\u00f5es entre homens negros e mulheres brancas, a viol\u00eancia, a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a est\u00e9tica, o mercado de trabalho, a educa\u00e7\u00e3o, a m\u00eddia e a religi\u00e3o. Em 1988, ano comemorativo do centen\u00e1rio da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura, surgiu oficialmente o movimento das mulheres negras do Brasil, surge o Fala Preta e o Gueled\u00e9s, grupos que inspiram nossas a\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje.<\/span><\/p>\n<p>Em nosso contexto ancestral africano temos duas associa\u00e7\u00f5es femininas importantes: Ialod\u00ea era uma associa\u00e7\u00e3o feminina cujo nome significa &#8220;senhora encarregada dos neg\u00f3cios p\u00fablicos&#8221;. Sua dirigente tinha lugar no conselho supremo dos chefes urbanos e era considerada uma alta funcion\u00e1ria do Estado, respons\u00e1vel pelas quest\u00f5es femininas, representando especialmente, os interesses das comerciantes.&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto a Ialod\u00ea se encarregava da troca de bens materiais, a sociedade Gueled\u00e9 era uma associa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima da troca de bens simb\u00f3licos. Sua visibilidade advinha dos rituais de propicia\u00e7\u00e3o \u00e0 fertilidade e fecundidade &#8211; aspectos importantes do poder especificamente feminino.<\/p>\n<p>Nesse contexto temos nossas Ialod\u00eas e nossas Gueled\u00e9s. Acredito que os c\u00edrculos femininos s\u00e3o em forma nossos Gueled\u00e9s, formas de encontro que nos remetem a nossa ancestralidade e formas de cultivar a vida dentro do sistema ocidental de forma alternativa, com processos de cura, religare com nossas heran\u00e7as ancestrais e retomada da for\u00e7a feminina existente em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&#8220;Conta-se que logo que o mundo foi criado, todos os orix\u00e1s vieram para a terra e come\u00e7aram a tomar decis\u00f5es e dividir encargos entre eles, em concili\u00e1bulos nos quais somente os homens podiam participar.<\/p>\n<p>Osun n\u00e3o se conformava com essa situa\u00e7\u00e3o. Ressentida pela exclus\u00e3o, ela vingou-se dos orix\u00e1s masculinos. Condenou todas as mulheres \u00e0 infertilidade, de sorte que qualquer iniciativa masculina no sentido da fertilidade era fadada ao fracasso.<\/p>\n<p>Por isso os homens foram consultar Olodumare.<\/p>\n<p>Olodumare soube que Osun fora exclu\u00edda das reuni\u00f5es, ele aconselhou os orix\u00e1s a convid\u00e1-la, e \u00e0s outras mulheres, pois sem Osun e seu poder sobre a fecundidade, nada poderia ir adiante.<\/p>\n<p>Os orix\u00e1s seguiram os s\u00e1bios conselhos de Olodumare, e assim suas iniciativas voltaram a ter sucesso. As mulheres voltaram a gerar filhos e a vida na terra prosperou.&#8221;<\/p>\n<p><cite>Prandi, Reginaldo, 2001<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Esse Itan (lenda) j\u00e1 nos aponta nosso poder m\u00edtico ancestral para as lutas que temos que travar cotidianamente. Todas as mulheres que eu conheci s\u00e3o lutadoras em seu universo. Minha m\u00e3e saiu muito jovem de sua terra natal, Vit\u00f3ria da Conquista \u2013 Bahia, rumo a S\u00e3o Paulo. Ap\u00f3s a morte de minha av\u00f3, viu sua fam\u00edlia ser desmembrada pelo meu av\u00f4 que deu todos os filhos para que outros criassem, e nesse contexto ela veio para S\u00e3o Paulo com uma fam\u00edlia para trabalhar sem remunera\u00e7\u00e3o por comida e teto.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos nessa situa\u00e7\u00e3o, fugiu dessa casa deixando para tr\u00e1s tudo que tinha, inclusive seus documentos que estavam em poder da patroa. Retirou novos documentos em S\u00e3o Paulo e se deu o nome de Maria Gon\u00e7alves Vaz, criado por ela, pois n\u00e3o sabia seu nome de cor e assim recriou sua trajet\u00f3ria. Carrego meu sobrenome com orgulho, pois \u00e9 s\u00edmbolo da reconstru\u00e7\u00e3o de uma vida longe da escravid\u00e3o domiciliar que muitas mulheres da gera\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e e da minha v\u00f3 passaram para sobreviver em um sistema de privil\u00e9gios.<\/p>\n<p><span>Minha m\u00e3e faleceu aos 65 anos por conta da hipertens\u00e3o e obesidade que estiveram sempre presentes em sua trajet\u00f3ria por situa\u00e7\u00f5es traumatizantes vividas e pelo estado de humilha\u00e7\u00e3o social constante, por ser uma mulher negra, pobre, nordestina e com desfalques em sua alfabetiza\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, ela foi v\u00edtima de uma vulnerabilidade psicossom\u00e1tica que prov\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o excessiva a tens\u00f5es que t\u00eam origem na constante e hist\u00f3rica negativa de direitos sociais nas periferias.<\/span><\/p>\n<p>Essa narrativa, assim como outras, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel por meio dos c\u00edrculos de mulheres. Hist\u00f3rias que trazem para o contexto da problematiza\u00e7\u00e3o trajet\u00f3rias inteiras contra o abuso sistem\u00e1tico da for\u00e7a de trabalho feminina.<\/p>\n<p>A narrativa, sem d\u00favida, por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 suficiente: uma regra dos c\u00edrculos \u00e9 n\u00e3o analisar, nem tentar justificar ou contextualizar a hist\u00f3ria das mulheres. Tudo que se passa no c\u00edrculo fica no c\u00edrculo, n\u00e3o pode ser revelado ou discutido depois. \u00c9 um exerc\u00edcio de escuta e acolhimento em primeira pessoa, eu relato somente o que eu vivi, a partir de mim, sem julgamentos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caminho, entre tantas ideias de autocuidado, o c\u00edrculo de mulheres se mostra para mim um espa\u00e7o de cura e resist\u00eancia, ele n\u00e3o precisa de muito para acontecer, basta um grupo de mulheres dispostas a discutir sua realidade e suas contradi\u00e7\u00f5es com uma escuta ativa, e no sentido de esvaziarem-se para que caiba novas no\u00e7\u00f5es de si, um novo olhar, sem o constrangimento de se adequar \u00e0s quest\u00f5es ideol\u00f3gicas postas na sociedade, mas convictas de que n\u00e3o estamos em disputa, mas em constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de compreens\u00e3o e de possibilidade de sermos quem somos em uma constante de transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aqui eu fecho meu depoimento e viv\u00eancia e passo a pe\u00e7a de fala para todas que est\u00e3o em busca de formas de organiza\u00e7\u00e3o feminina. Possivelmente voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 rodeada de mulheres, m\u00e3es, av\u00f3s, amigas, tias. Fa\u00e7am circular as viv\u00eancias e trajet\u00f3rias, moldando em si mesmas a possibilidade de resigna\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o as adversidades que encontramos para existir nessa sociedade que muitas vezes demonstra um \u00f3dio desmedido sobre nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Seguimos sangrando!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre tive muitas mulheres \u00e0 minha volta. Fui criada pela minha m\u00e3e, por amigas da minha m\u00e3e, pelas m\u00e3es de creche e professoras: todas elas me ajudaram na passagem da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia. Tiemi 2013 Sempre tive muitas m\u00e3es. Esse sempre foi o meu destino: M\u00e3e Eva Mar\u00e7al, m\u00e3e S\u00f4nia Lopes, as m\u00e3es dos [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1467,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[79],"ppma_author":[500],"class_list":["post-1468","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","tag-colunas"],"acf":[],"authors":[{"term_id":500,"user_id":12,"is_guest":0,"slug":"denme-col-2cattive-me","display_name":"Anabela Gon\u00e7alves","avatar_url":{"url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/ANABELA.jpg","url2x":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/ANABELA.jpg"},"first_name":"Anabela","last_name":"Gon\u00e7alves","user_url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/anabela.goncalves\"><i><\/i> \/anabela.goncalves<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/belaanavaz\"><i> <\/i> @belaanavaz<\/a>\r\nSoci\u00f3loga com extens\u00e3o em estudos da Genealogia do g\u00eanero -PUC -SP. Com experi\u00eancia em ger\u00eancia de projetos, planejamento e acompanhamento de equipe de a\u00e7\u00e3o e educadora. Atuo como presidenta da organiza\u00e7\u00e3o social Bloco do Beco, al\u00e9m de 20 anos como ativista na Periferia Sul com a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de g\u00eanero, pol\u00edtica e cultura, em coletivos como KATU de educa\u00e7\u00e3o, Fala Guerreira e Periferia Segue Sangrando."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1468"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1468\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3694,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1468\/revisions\/3694"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1468"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}