
{"id":1392,"date":"2020-12-03T00:52:22","date_gmt":"2020-12-03T03:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/12\/03\/sxxz\/"},"modified":"2024-06-29T21:11:23","modified_gmt":"2024-06-30T00:11:23","slug":"sxxz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/contextos-perifericos\/sxxz\/","title":{"rendered":"Para realizar Enem, jovens das periferias precisam estudar, trabalhar e sobreviver \u00e0 pandemia"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>Como a pandemia de coronav\u00edrus afetou a rotina e a sa\u00fade mental de jovens moradores de territ\u00f3rios perif\u00e9ricos que est\u00e3o se preparando para realiza\u00e7\u00e3o da prova do ENEM?<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span> Willian  terminando suas rotinas de estudo <\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>Divididos entre os estudos, trabalho e a nova rotina moldada pela pandemia do novo coronav\u00edrus, a juventude perif\u00e9rica tem encontrando uma s\u00e9rie de desafios para se manter firme no prop\u00f3sito de realizar o Enem e ingressar no ensino superior por meio do Prouni, programa do governo federal que garante ao estudante de escolas p\u00fablicas a possibilidade de aumentar as chances de conquistar vagas em universidades p\u00fablicas e bolsas em institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino.<\/span><\/p>\n<p>Mas e a sa\u00fade mental dessa juventude perif\u00e9rica, como anda? Qual \u00e9 o impacto de um bom temperamento emocional para realizar a provada do Enem? Conversamos com estudantes que est\u00e3o passando por esse processo \u00e1rduo de se dividir entre estudos, trabalho e fam\u00edlia, para a gente aprofundar essa discuss\u00e3o sobre o Enem e o acesso ao ensino nossa para quem mora nas periferias.<\/p>\n<p>Um desses jovens \u00e9 Willian Souza Santos,19, morador do Cap\u00e3o Redondo. Ele estuda em casa para realizar as provas do Enem e conta que j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos tentando ingressar em uma universidade p\u00fablica. &#8220;J\u00e1 t\u00f4 h\u00e1 tr\u00eas anos tentando o Enem, meus pais vieram da Bahia atr\u00e1s de uma vida melhor em S\u00e3o Paulo, e eles n\u00e3o chegaram a terminar o fundamental. Minha m\u00e3e \u00e9 secret\u00e1ria e o meu pai \u00e9 carpinteiro, ent\u00e3o eu seria o primeiro a conseguir&#8221;, conta ele, relatando o hist\u00f3rico profissional e educacional da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O estudante comenta sobre seu nervosismo com os cen\u00e1rios de futuro e fala sobre suas ang\u00fastias. &#8220;Minha expectativa para o vestibular \u00e9 preocupante, at\u00e9 porque pelo momento em que estamos vivendo, j\u00e1 existe a inseguran\u00e7a por ter vindo de uma escola p\u00fablica, ser negro, estou nervoso. Eu quero fazer psicologia em uma Federal, especificamente, a Unifesp por gostar da grade curricular deles&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>O jovem faz quest\u00e3o de descrever como a pandemia afetou sua rotina de estudos e suas motiva\u00e7\u00f5es para continuar estudando sozinho. &#8220;Eu quis estudar sozinho por n\u00e3o aguentar mais fazer cursinho, visto que j\u00e1 fiz dois anos. Eu estudo a partir das \u00e1reas que tenho mais dificuldade, que no caso \u00e9 matem\u00e1tica. Sigo um cronograma e tento estudar todos os dias, eu uso o celular, principalmente o YouTube com v\u00eddeo aulas gratuitas. A pandemia afetou a minha rotina, porque eu estudava principalmente nas bibliotecas p\u00fablicas, onde me d\u00e1 mais concentra\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de todo adoecimento mental que causou em mim e no bairro tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>\n\t<span>&nbsp;<\/span>Vestibular e sa\u00fade Mental<\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Estressado com a chegada e os preparativos para o vestibular, o estudante relata o desgaste da sua sa\u00fade mental. &#8220;O vestibular me causa nervosismo e muita press\u00e3o, e eu sei que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comigo, mas tamb\u00e9m as pessoas ao meu redor, as pessoas que moram onde eu moro e tamb\u00e9m querem entrar em uma universidade p\u00fablica. A pandemia s\u00f3 veio para agravar isso, porque \u00e9 a primeira vez que vamos lidar com uma prova t\u00e3o importante como o Enem em um cen\u00e1rio t\u00e3o turbulento e incerto, que \u00e9 dif\u00edcil at\u00e9 pensar na prova&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Ele acredita que uma boa sa\u00fade mental \u00e9 fruto de um estado de bem estar emocional. &#8220;Sa\u00fade mental para mim \u00e9 voc\u00ea se sentir mentalmente bem, conseguir lidar com as coisas de forma tranquila e sem estresse&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Willian faz quest\u00e3o de enfatizar que tudo o que est\u00e1 passando tem uma forte liga\u00e7\u00e3o com a forma como o Governo lida com as pol\u00edticas p\u00fablicas ligadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a juventude. &#8220;O Estado parece n\u00e3o se importar muito com os jovens estudantes e trabalhadores, especialmente quando se trata de sa\u00fade mental ou o processo de estudo para o Enem em ano de pandemia. Isso fica claro quando vemos a propaganda feita pelo MEC, em que a mensagem transmitida sugere que n\u00f3s temos que dar um jeito de estudar de qualquer forma e quem n\u00e3o tiver recursos, como internet, computador e livros, j\u00e1 \u00e9 exclu\u00eddo do processo seletivo antes mesmo de fazer a prova. Em virtude do desd\u00e9m que o governo tem para com os jovens pobres, pretos e perif\u00e9ricos que nem eu por exemplo.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/b2ap3_large_creditos-vanusa-nobre-Bianca.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>creditos: Vanusa Nobre <\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\">\n<p>Os cursinhos populares nos impulsionam a continuar nessa luta de ocupar as faculdades p\u00fablicas que \u00e9 nosso lugar por direito<\/p>\n<p><cite>Stefany Santos<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>A moradora de Po\u00e1 Stefany Santos Louren\u00e7o,18, estuda no cursinho popular Uneafro Brasil. Mesmo com o suporte dos educadores da organiza\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o popular, ela compartilha algumas inseguran\u00e7as sobre o futuro da sua trajet\u00f3ria como estudante universit\u00e1ria. &#8220;Estudo durante tr\u00eas anos, realizei a prova do Enem duas vezes, quero fazer Hist\u00f3ria na USP, mas sigo muito insegura, mesmo sendo um sonho sempre tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o vou conseguir&#8221;, afirma ela, enfatizando que todos os seus planos foram afetados: &#8220;desde pequenos at\u00e9 grandes planos foram afetados e quando isso acontece vem o sentimento de frustra\u00e7\u00e3o e nossa sa\u00fade mental fica em estado cr\u00edtico&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>A estudante comenta como a pandemia afetou sua rotina de estudos, e as dificuldades de conseguir em casa um espa\u00e7o e estrutura para estudar para o Enem. &#8220;Antes da pandemia eu tinha um planejamento de estudos para o ano inteiro e com a chegada da pandemia precisei trabalhar mais e n\u00e3o consegui acompanhar o ritmo dos estudos que eu tinha antes e em casa dificilmente consigo estudar. Geralmente o espa\u00e7o que tenho \u00e9 na cozinha onde todos transitam, fazendo muito barulho e n\u00e3o consigo me concentrar, tudo se tornou mais dif\u00edcil com o distanciamento&#8221;.<\/p>\n<p>Louren\u00e7o finaliza falando sobre a import\u00e2ncia do cursinho na sua vida e no territ\u00f3rio. &#8220;Os cursinhos populares s\u00e3o de enorme import\u00e2ncia nos impulsionando a continuar nessa luta em ocupar as faculdades p\u00fablicas que \u00e9 nosso lugar por direito, a Uneafro me ajudou a ter outra vis\u00e3o de mundo, n\u00e3o somos apenas um cursinho, fazemos um trabalho com a autoestima, milit\u00e2ncia e vida, e \u00e9 de extrema import\u00e2ncia nas periferias que n\u00f3s jovens se sentimos reconhecidos e com pertencimento de fazer de algo&#8221;.<\/p>\n<p>Outra estudante de cursinho popular \u00e9 a Bianca Nobre, 17, moradora do Alto do Riviera no Jardim \u00c2ngela, zona sul de S\u00e3o Paulo. A aluna da Rede de Cursinhos Populares Ubuntu relata suas dificuldades de estudar em casa. &#8220;Para mim, as maiores dificuldades de estudar em casa \u00e9 a falta de contato humano n\u00e9, aquele calor da sala de aula, isso fez eu me sentir muito s\u00f3, e perder bastante motiva\u00e7\u00e3o, eu tamb\u00e9m tive que me adaptar a um modelo de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia que ele requer mais disciplina, e era uma disciplina que eu costumava ter mais em sala de aula, ent\u00e3o esse tipo de estudo online tamb\u00e9m \u00e9 um pouco dificultoso pra mim&#8221;, compartilha Bianca.<\/p>\n<p>Outro ponto bem importante descrito pela estudante aponta a desigualdade social sobre a infraestrutura para estudar dentro de casa, tanto no contexto familiar, quanto no acesso a materiais, e enxerga isso como privil\u00e9gio quando pensa em seus amigos e at\u00e9 no seu territ\u00f3rio. &#8220;Eu tenho sorte de tanto minha fam\u00edlia, meus amigos, e o cursinho tamb\u00e9m me apoiarem bastante nessa jornada, mas eu vi relatos e situa\u00e7\u00f5es de pessoas que deixaram de estudar, tenho acesso \u00e0 internet, computador, celular, e me sinto bem privilegiada quanto a isso, porque eu sei que n\u00e3o s\u00e3o todas as pessoas aqui da periferia que tem, mas mesmo assim eu acho dif\u00edcil, n\u00e3o substitui a sensa\u00e7\u00e3o de sala de aula, \u00e9 dif\u00edcil me adaptar a ficar olhando pra uma tela no v\u00eddeo e n\u00e3o me distrai, n\u00e3o me sentir s\u00f3&#8221;.<\/p>\n<p>A desmotiva\u00e7\u00e3o de Bianca para com os estudos vem sendo combatida com o apoio da Rede Ubuntu, segundo ela, o cursinho tem ajudado a seguir em frente e se sentir mais forte nesse processo. &#8220;Eu me desmotivei de um tempo pra c\u00e1, ent\u00e3o eu mantive o estudo, s\u00f3 que n\u00e3o no mesmo ritmo, n\u00e3o na mesma const\u00e2ncia de antes, n\u00e3o todo dia por exemplo, n\u00e3o o tempo todo, igual era. Agora eu tento manter o que eu consigo, tento me respeitar, respeitar minha cabe\u00e7a, s\u00f3 esperando que isso tudo passe, e eu consiga alcan\u00e7ar meu objetivo, o cursinho oferece muito apoio amigo, um apoio emocional, e \u00e9 isso que me impede de desistir dos meus sonhos, os professores de l\u00e1 tamb\u00e9m entendem o sofrimento do estudante, que eles j\u00e1 passaram por essas situa\u00e7\u00f5es, e agora a pandemia potencializou essa inseguran\u00e7a, essa ansiedade, essa frustra\u00e7\u00e3o&#8221;, conta a estudante.<\/p>\n<p>Barreto finaliza comentando a import\u00e2ncia do cursinho n\u00e3o s\u00f3 neste momento para sua vida inteira. &#8220;Foi uma import\u00e2ncia gigantesca, imensur\u00e1vel, porque al\u00e9m de professores eu encontrei pessoas que me inspiram diariamente, e eles acreditam no meu sonho junto comigo, ent\u00e3o eu n\u00e3o tenho o que falar, e mesmo sabendo que eles tamb\u00e9m est\u00e3o passando por dificuldades, porque n\u00e3o s\u00f3 os alunos, mas os professores tamb\u00e9m ficam mal nesse tempo, eles ainda est\u00e3o aqui presente, t\u00e3o conversando, isso eu acho que \u00e9 essencial, ainda mais agora&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>Os alunos n\u00e3o s\u00e3o iguais aqueles do comercial do Enem n\u00e9, a gente tem uma realidade muito dura&nbsp;aqui<\/p>\n<p><cite>Agnes Roldan<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>A coordenadora do cursinho popular Ubuntu, Agnes Roldan, 20, descobriu a exist\u00eancia da iniciativa em 2017, ano no qual, a universit\u00e1ria ainda estava cursando o ensino m\u00e9dio e hoje cursa Ci\u00eancias Sociais na FMU.<\/span><\/p>\n<p>Ela lembra como foi esse processo de sair do ensino m\u00e9dio e ingressar na universidade com apoio do cursinho popular. &#8220;Em 2017, no meio do ano eu ainda era estudante do ensino m\u00e9dio, descobri que existia um cursinho na periferia de gra\u00e7a. Isso n\u00e3o fazia muito sentido na minha cabe\u00e7a, mas eu quis saber como era, onde era, recebi informa\u00e7\u00f5es de como chegar no cursinho e cheguei. Um dos meus colegas de trabalho hoje \u00e9 o Renato, que me recebe e me abra\u00e7a, isso \u00e9 bem marcante pra mim.<\/p>\n<p>Agnes recorda o importante fato de que ap\u00f3s dois anos ap\u00f3s de ingressar como aluna, ela foi convidada para fazer parte do grupo de coordena\u00e7\u00e3o do cursinho. &#8220;Estudei o resto do ano na Ubuntu e ingressei na faculdade depois, os ajudei com algumas coisas de entrevista no ano seguinte, a\u00ed em 2019, o Renato, o mesmo que me recebeu em 2017 para ser aluna, me liga perguntando se eu n\u00e3o quero entrar na coordena\u00e7\u00e3o, e essa vai ser minha historia com o cursinho, muito pr\u00f3xima, quase uma fam\u00edlia, e tem essa liga\u00e7\u00e3o de ser aluna e depois ser coordenadora&#8221;.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 pandemia, a coordenadora relata que foram necess\u00e1rias uma s\u00e9rie de adapta\u00e7\u00f5es no planejamento geral do cursinho e que medidas foram tomadas para de alguma forma aproximar as pessoas dentro da internet.<\/p>\n<p>&#8220;De repente a gente precisa parar esse planejamento e mover tudo para uma realidade online, e na realidade online \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea manter essa afetividade na educa\u00e7\u00e3o, o contato pr\u00f3ximo, e a\u00ed a gente passou a tentar concertar isso, a gente faz lives aos s\u00e1bados para eles terem aulas com os professores do cursinho, na semana eles estudam na plataforma do descomplica , tem uma equipe de reda\u00e7\u00e3o para corrigir reda\u00e7\u00e3o pra eles, al\u00e9m disso, a gente faz outras atividades&#8221;, conta Agnes.<\/p>\n<p>Ela revela que neste momento, os alunos da Rede Ubuntu est\u00e3o usufruindo de parcerias importantes para manter os sonhos de acessar a universidade acesso e energizados. &#8220;Eles est\u00e3o passando por uma s\u00e9rie de di\u00e1logos com um grupo de pesquisadores sobre como vai ser o futuro do trabalho, e como eles olham esse futuro, e teve parceria com a 4gPra estudar, que ajudou demais a gente, pois os alunos puderam realmente ter acesso \u00e0 internet e estudar e se concentrar nos estudos&#8221;, explica a jovem, afirmando com a aproxima\u00e7\u00e3o da data do Enem vai rolando um nervosismo entre os alunos do cursinho.<\/p>\n<p>A coordenadora comenta sobre as propagandas que passa na televis\u00e3o a respeito dos estudantes e fala sobre como \u00e9 a realidade. &#8220;Os alunos n\u00e3o s\u00e3o iguais aqueles do comercial do Enem n\u00e9, a gente tem uma realidade muito dura, muitos alunos est\u00e3o trabalhando, fazendo jornada dupla, tripla, no meio de uma crise sanit\u00e1ria, isso gera tristeza, isso gera desesperan\u00e7a. Ent\u00e3o voc\u00ea percebe que eles querem muito continuar, querem muito realizar o sonho de poder entrar em uma faculdade, mas o momento vai desanimando&#8221;, analisa.<\/p>\n<p>Embora a coordenadora do cursinho popular enfatiza como eles est\u00e3o cuidando e fortalecendo os seus alunos, ela prev\u00ea um futuro dif\u00edcil para os estudantes de escolas p\u00fablicas que moram nas periferias e favelas. &#8220;O cen\u00e1rio \u00e9 dif\u00edcil, o cen\u00e1rio daqui para frente prev\u00ea muita evas\u00e3o escolar, infelizmente \u00e9 uma coisa que eu consigo enxergar, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que o governo est\u00e1 tendo com os alunos de escola p\u00fablica nesse momento, ele prev\u00ea uma evas\u00e3o escolar, uma evas\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo na realidade, por conta de um ensino remoto que n\u00e3o foi pensado nos alunos pobres n\u00e9, que s\u00e3o a maioria de escolas p\u00fablicas&#8221;.<\/p>\n<p>Consciente do estado de abandono dos estudantes das escolas p\u00fablicas na periferias, Roldan fala sobre como a Rede Ubuntu tem pensado a sa\u00fade mental entre os estudantes nesse momento. &#8220;\u00c9 um coletivo que vem pensando essas a\u00e7\u00f5es, enquanto rede a gente fez algumas rodas de conversa com eles, pra pensar sa\u00fade mental, para trabalhar essa esperan\u00e7a, pra dizer estamos aqui, somos Ubuntu, e tem dado certo, tem sido muito gostoso esse momento, pra cuidar da sa\u00fade mental dos alunos, que \u00e9 uma coisa que realmente pesa muito, na hora de voc\u00ea prestar vestibular&#8221;.<\/p>\n<p>Agnes finaliza comentando sobre os posicionamentos do Estado referente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade mental dos jovens que est\u00e3o estudando para o vestibular. &#8220;Se a gente vivesse no mundo ideal, a gente teria o estado que pensasse nas desigualdades, o estado deveria ter feito isso, pensando nos alunos, nos recortes dos alunos, pensando nos professores que est\u00e3o tendo que trabalhar o dia inteiro, que tiveram sal\u00e1rio cortado nessa \u00e9poca, ent\u00e3o com acesso aos dados que ele tem, e com um pouco mais de pensamento nas desigualdades sociais que a gente tem, o estado poderia ter feito um servi\u00e7o mais efetivo&#8221;, argumenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&nbsp;Enlouquece ai, \u00e9 a hora pra isso mesmo, vai ficar tudo bem, isso n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a mental, \u00e9 uma ansiedade natural, doen\u00e7a mental \u00e9 realmente outra coisa<\/p>\n<p><cite>&nbsp;Mayra Ribeiro<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>&nbsp;<span>Olhando para esse cen\u00e1rio de desigualdade sociais na educa\u00e7\u00e3o, avan\u00e7o no n\u00famero de casos cr\u00edticos de sa\u00fade mental e escassez de direitos digitais, a psic\u00f3loga Mayra Ribeiro, 40, integrante da Uneafro Brasil, explica o que est\u00e1 acontecendo neste momento de pandemia com a juventude perif\u00e9rica e enfatiza que ela passara por vive v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es e press\u00f5es. &#8220;O que ta acontecendo com o jovem, que faz o vestibular, \u00e9 ele t\u00e1 se sentindo mal, deprimido, ansioso, isso n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a mental, t\u00e1 de boa, que bom que ele t\u00e1 sentindo tudo isso, enlouquece ai, \u00e9 a hora pra isso mesmo, vai ficar tudo bem, isso n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a mental, \u00e9 uma ansiedade natural, doen\u00e7a mental \u00e9 realmente outra coisa&#8221;,<\/span><\/p>\n<p>A psic\u00f3loga comenta como esse \u00e9 o momento de romper com o tradicional jeito de utilizar de outros meios e formas para adquirir conhecimento e se fazer conhecimento. &#8220;Os pr\u00f3prios conte\u00fados online v\u00e3o facilitando essa nova maneira de aprendizagem, atrav\u00e9s disso, dessa pessoa mesmo, ir l\u00e1, pegar o conte\u00fado que o professor colocou no Google Class, e dali ele mesmo ir procurando, e olhando, e que eles tamb\u00e9m passam a ressignificar esse lugar onde vivem, eu acho que tamb\u00e9m tem esse momento de ressignificar isso, saber que \u00e0s vezes voc\u00ea vai conseguir ler, acompanhar o YouTube e tudo mais, na quest\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o e do barulho, porque tem muita gente l\u00e1, \u00e9 de novo n\u00e3o pensar no m\u00e9todo tradicional, \u00e9 pensar aqui, o foninho, a leitura, eu a tela, e um cantinho&#8221;.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga fala sobre a forma a inseguran\u00e7a afeta os estudantes e ressalta que o papel dos cursinhos surgirem como espa\u00e7os de quilombo. &#8220;O jovem negro, como todo jovem ele \u00e9 inseguro, o racismo pode fazer que ele fique ainda mais inseguro, mas n\u00e3o que isso tenha como ser mensurado, eu diria que a inseguran\u00e7a \u00e9 complicada nesse momento, de mudan\u00e7a de vida que \u00e9 o vestibular, ent\u00e3o o cursinho popular \u00e9 a ferramenta ancestral que fez o desenvolvimento da popula\u00e7\u00e3o negra, funciona pela di\u00e1spora, organizada em movimentos, como a ferramenta do quilombo, a periferia \u00e9 aonde todos os negros foram alocados, por conta do racismo espacial, ent\u00e3o o que eu acho dos cursinhos e a estrutura, \u00e9 a \u00fanica estrutura que at\u00e9 agora a gente conhece, que foi capaz de transformar a vida dos negros de vez at\u00e9 agora&#8221;.<\/p>\n<p>Atenta aos impactos causados pela inexist\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que cuide da sa\u00fade mental da juventude, Mayra comenta sobre as posi\u00e7\u00f5es do governo neste momento. &#8220;Eu acredito que nesse momento esse governo n\u00e3o tem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o assumidamente que acreditam na for\u00e7a do bra\u00e7o, ent\u00e3o qualquer coisa de achar que eles est\u00e3o incentivando a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 pura ilus\u00e3o, porque eles falam abertamente que n\u00e3o ligam. Acredito que todos os jovens que est\u00e3o prestando vestibular, ainda mais jovens de quebrada, t\u00eam plena consci\u00eancia que na quebrada dele ainda tem problemas maiores a serem resolvidos, e que precisam ser pensados primeiro, antes da pol\u00edtica p\u00fablica da sa\u00fade mental dele, antes de estar realizando um sonho, importante lembrar que ainda a entrada para universidade, \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de um sonho&#8221;, aponta ela.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga encerra deixando uma mensagem a todos que est\u00e3o na caminhada de ingressar na universidade e no mundo acad\u00eamico. &#8220;\u00c9 sempre importante que essa pessoa que t\u00e1 tentando ingressar na faculdade, entenda que ela t\u00e1 realizando um sonho, e que vai ser muito bom, e por mais que seja uma jornada dif\u00edcil, a jornada da intelectualidade \u00e9 uma das mais bonitas que t\u00eam escolher viver sobre o pensar, sobre o ler, sobre ajudar as pessoas, enquanto se faz isso, atrav\u00e9s de pesquisa, artigo, entre outras coisas, \u00e9 um dos maiores privil\u00e9gios que algu\u00e9m pode ter ent\u00e3o boa sorte, se joguem&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Como a pandemia de coronav\u00edrus afetou a rotina e a sa\u00fade mental de jovens moradores de territ\u00f3rios perif\u00e9ricos que est\u00e3o se preparando para realiza\u00e7\u00e3o da prova do ENEM? Willian terminando suas rotinas de estudo &nbsp;Divididos entre os estudos, trabalho e a nova rotina moldada pela pandemia do novo coronav\u00edrus, a juventude perif\u00e9rica tem encontrando uma [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1390,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[47],"ppma_author":[76,77],"class_list":["post-1392","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contextos-perifericos","tag-contextos-perifericos"],"acf":[],"authors":[{"term_id":76,"user_id":4,"is_guest":0,"slug":"tamires-reportergmail-com","display_name":"Tamires Rodrigues","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/35c215435a0f86a060c20a4bd4798603805a5f3102383dc9b62822b867089d1e?s=96&d=mm&r=g","first_name":"Tamires","last_name":"Rodrigues","user_url":"http:\/\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/tamires.rodrigues.10421\"><i><\/i> \/tamires.rodrigues.10421<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tamy_rodriigues\/\"><i> <\/i> @tamy_rodriigues<\/a>\r\nTamires Rodrigues, 23, \u00e9 estudante de an\u00e1lise e desenvolvimento de sistemas e moradora do Jardim \u00c2ngela, zona sul de S\u00e3o Paulo. Em 2018, ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Atrav\u00e9s da escrita e da escuta ativa, ela pauta a tecnologia contando a hist\u00f3rias de moradores e projetos das periferias e favelas, para transformar seu imagin\u00e1rio sobre a quebrada."},{"term_id":77,"user_id":6,"is_guest":0,"slug":"vitoria-reporterpoliticagmail-com","display_name":"Vit\u00f3ria Guilhermina","avatar_url":{"url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Foto-Vitoria.jpeg","url2x":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Foto-Vitoria.jpeg"},"first_name":"Vit\u00f3ria","last_name":"Guilhermina","user_url":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/xxvitoriaalves\"><i><\/i> \/xxvitoriaalves<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_vitoriaae\/\"><i> <\/i> @_vitoriaae<\/a>\r\nMoradora do Rio Pequeno, zona oeste de S\u00e3o Paulo, Vit\u00f3ria Guilhermina, 20, \u00e9 formada em Orienta\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria pela Etec CEPAM. Em 2018 ela se formou em Pr\u00e1ticas Jornal\u00edsticas Nas Periferias pelo programa de forma\u00e7\u00e3o Voc\u00ea Rep\u00f3rter da Periferia. Ela atua em seu territ\u00f3rio com projetos de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o Cursinho Livre Cl\u00e1udia Silva Ferreira. Por meio da escrita, ela est\u00e1 aprendendo a ser cientista social fazendo jornalismo de quebrada."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1392"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3748,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1392\/revisions\/3748"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1392"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}