
{"id":1360,"date":"2020-11-19T18:14:19","date_gmt":"2020-11-19T21:14:19","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/11\/19\/o-que-e-black-money\/"},"modified":"2024-06-29T21:11:31","modified_gmt":"2024-06-30T00:11:31","slug":"o-que-e-black-money","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/o-que-e-black-money\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 \u201cBlack Money\u201d?"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Tem muita gente aqui no Brasil que parece n\u00e3o entender a ideia do &#8220;dinheiro preto&#8221;. J\u00e1 ouvi pessoas dizerem coisas como, imagine se cri\u00e1ssemos o termo &#8220;dinheiro branco&#8221; &nbsp;ou diss\u00e9ssemos coisas como &#8220;isso \u00e9 racismo reverso&#8221;. Esses coment\u00e1rios s\u00e3o apenas reflexos do racismo que j\u00e1 existe dentro dessa pessoa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Foto: Hilberto Dias \/ Arte: Rogerinho Art<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Em nossa opini\u00e3o, \u00e9 a ideia de apoiar comerciantes, empresas e prestadores de servi\u00e7os que sejam pretos. Significa deixar o &#8220;d\u00f3lar&#8221; ou no caso do Brasil, o &#8220;real&#8221; circular dentro da comunidade preta e entre os pequenos neg\u00f3cios, para que o nosso dinheiro nos beneficie, incentivando o consumo consciente e intelectual atrav\u00e9s da representatividade.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos o d\u00f3lar circula na comunidade asi\u00e1tica e na comunidade branca (especialmente judaica), o que isso realmente significa \u00e9, digamos, em uma comunidade judaica, um judeu recebe seu sal\u00e1rio. Em sua vizinhan\u00e7a haver\u00e1 bancos judeus, escolas p\u00fablicas e privadas, hospitais, padarias, etc., que ele comprar\u00e1 dessas pessoas e elas far\u00e3o a mesma coisa. O d\u00f3lar judeu vai circular, e essa comunidade vai acabar sendo mais saud\u00e1vel financeiramente. Enquanto isso, s\u00f3 circula o d\u00f3lar negro nos Estados Unidos, ou seja, afro-americanos recebem o pagamento e logo v\u00e3o gastar nos clubes, comprar roupas, t\u00eanis dentre outras coisas e nada que implique colocar nosso dinheiro nas m\u00e3os de outras pessoas negras. Portanto, muitos bairros pretos nos Estados Unidos continuam em estado de precariedade. O dinheiro definitivamente n\u00e3o circula entre os afro-americanos.<\/p>\n<p>Tem muita gente aqui no Brasil que parece n\u00e3o entender a ideia do &#8220;dinheiro preto&#8221;. J\u00e1 ouvi pessoas dizerem coisas como, imagine se cri\u00e1ssemos o termo &#8220;dinheiro branco&#8221; (como a palavra &#8220;dinheiro&#8221; ainda n\u00e3o sugere isso) ou diss\u00e9ssemos coisas como &#8220;isso \u00e9 racismo reverso&#8221;. Esses coment\u00e1rios s\u00e3o apenas reflexos do racismo que j\u00e1 existe dentro dessa pessoa. As pessoas, especialmente neste pa\u00eds, n\u00e3o t\u00eam a capacidade de entender como certos conceitos como &#8220;Black Money&#8221; e &#8220;Black Love&#8221; s\u00e3o extremamente cruciais para a sa\u00fade e sobreviv\u00eancia de nossas comunidades pretas diasp\u00f3ricas.<\/p>\n<p><span>\u00c9 interessante o fato que todas essas opini\u00f5es manifestadas especialmente nas redes sociais, apontam um profundo desconforto quando falamos de assuntos que nos afetam, mas os chineses, indianos, japoneses, judeus e outros grupos que fazem o dinheiro circular em suas comunidades s\u00e3o vistos como normais quando se unem por um prop\u00f3sito, eles podem sem problemas. Eles inclusive namoram e constituem fam\u00edlia com pessoas da mesma etnia. Quando os pretos (especialmente aqui no Brasil) falam sobre querer se relacionar apenas com pessoas pretas, \u00e9 um grande problema.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>Uma breve hist\u00f3ria<\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, um conjunto de c\u00f3digos foi criado pelos estados do sul dos Estados Unidos chamado &#8220;C\u00f3digos Negros&#8221; que diziam que nenhum homem negro poderia estar desempregado, mas tamb\u00e9m nenhum homem negro poderia ter terras e contratar outro homem negro para trabalhar, ent\u00e3o a sociedade branca do sul que tinha acabado de perder a guerra e seu estilo de vida orgulhoso e queriam criar uma sociedade que se parecesse o mais antiga e conservadora poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Portanto, por muitas d\u00e9cadas ap\u00f3s a escravid\u00e3o, o povo afro-americano permaneceu em um sistema an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, por\u00e9m sem o t\u00edtulo de escravid\u00e3o. Isso foi depois da guerra civil, e o sul por muitos anos ainda estava sendo ocupado por soldados do norte, mas quando os soldados come\u00e7aram a sair depois do famoso caso Plessy vs Ferguson de 1896, onde um homem negro foi informado que ele tinha que viajar no vag\u00e3o reservado para pretos do trem no estado da Louisiana.&nbsp;<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o havia leis federais ou brecha para apoiar a segrega\u00e7\u00e3o, mas uma vez que a ideia de &#8220;separados, mas iguais&#8221; (que nunca foi igual) provou n\u00e3o ser inconstitucional na Louisiana, todos os estados do sul adotaram o mesmo m\u00e9todo e por muito mais de meio s\u00e9culo os pretos foram segregados e enfrentaram um tipo de terrorismo que voc\u00ea encontraria nas piores na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas vamos deixar isso de lado e focar nos aspectos positivos da segrega\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos. Os negros foram for\u00e7ados a ter uma mente empresarial. Antes da <strong data-redactor-tag=\"strong\" data-verified=\"redactor\">integra\u00e7\u00e3o legal,<\/strong> no final dos anos 1950, existiam hospitais, f\u00e1bricas, restaurantes, ligas esportivas que jogavam nacional e internacionalmente (j\u00e1 que as ligas negras de beisebol tinham um time de Cuba).&nbsp;<\/p>\n<p>Era determinado que a<strong data-redactor-tag=\"strong\" data-verified=\"redactor\"> integra\u00e7\u00e3o legal<\/strong> n\u00e3o se misturasse e casasse com brancos, mas que tivessem prote\u00e7\u00f5es legais e melhores estruturas e oportunidades. Todos os produtos e servi\u00e7os eram de qualidade muito inferior do que era para brancos. Tamb\u00e9m tinha a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o serem assassinados por coisas simples como olhar para uma mulher branca por muito tempo ou n\u00e3o sair do caminho de um homem branco andando na cal\u00e7ada. Os brancos n\u00e3o viam os negros como humanos, suas vidas tinham muito menos valor como corpos livres e n\u00e3o como escravos.<\/p>\n<p>Durante aquele tempo nos bairros negros dos Estados Unidos, o d\u00f3lar certamente circulou, n\u00e3o tinha escolha, tinha que circular porque os negros n\u00e3o podiam gastar seu dinheiro nos com\u00e9rcios dos brancos, mesmo que quisessem. A maioria dos pretos ainda eram muito pobres, mas muitas fortunas foram feitas por pretos de sorte naquela \u00e9poca. Avance rapidamente para Brown vs Board of Education e as leis que acabaram com a segrega\u00e7\u00e3o legal e o que come\u00e7amos a ver \u00e9:<\/p>\n<p>&#8211;&nbsp;Um ataque sistem\u00e1tico dos EUA aos neg\u00f3cios negros e \u00e0 liberdade econ\u00f4mica dos negros.<\/p>\n<p>&#8211;&nbsp;Um desejo de valida\u00e7\u00e3o, negros que queriam finalmente ser capazes de comprar produtos brancos e ir aos espa\u00e7os onde os brancos iam para se sentirem mais realizados, mesmo que isso significasse dar seu dinheiro para pessoas que te odeiam. Veja desta forma, se por muitas d\u00e9cadas os produtos de outros pa\u00edses (que eram muito melhores e mais baratos) fossem impedidos de vir para o Brasil, voc\u00ea apoiaria os produtos brasileiros, mas no momento em que produtos importados podem vir para o Brasil com um custo inferior e uma qualidade superior, muita gente vai deixar de consumir produtos nacional que antes apoiavam, e isso desmoronaria a economia brasileira.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que em pequena escala aconteceu com a comunidade afro-americana antes semiaut\u00f4noma nos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1960 at\u00e9 1990, e ainda estamos sentindo os efeitos, e \u00e9 por isso que existe hoje um movimento que resgatou o conceito de Black Money.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h3>O que perdemos?<\/h3>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>A ironia da integra\u00e7\u00e3o \u00e9 que ela parece t\u00e3o pac\u00edfica e inofensiva para os negros americanos que a hist\u00f3ria geralmente a mostra como positiva. No entanto, para mim, BiXop, aos olhos de muitos negros com consci\u00eancia racial, percebemos que foi a pior coisa desde a escravid\u00e3o que poderia ter acontecido a n\u00f3s como um povo. Nunca nos integramos culturalmente, ficamos morando a maior parte em bairros negros, mas muitas das pessoas que possu\u00edam a maior riqueza nas comunidades negras (novamente procurando por essa valida\u00e7\u00e3o, querendo ser verdadeiramente &#8220;americanos&#8221;) se mudaram para as comunidades brancas. A&nbsp;ideia de que eles foram em busca de uma vida melhor entre um grupo de terroristas selvagens \u00e9 muito conflitante para mim.<\/p>\n<p>Com isso, os bairros pretos perdem n\u00e3o s\u00f3 seus investidores, mas tamb\u00e9m a maioria dos neg\u00f3cios ao longo dos anos. Imagine os restaurantes negros nas \u00e1reas negras que n\u00e3o podiam mais competir com a nova franquia branca de restaurantes de fast food que agora podiam entrar na comunidade negra e, claro, por que os negros que querem ser &#8220;americanos&#8221; n\u00e3o correm para comer no McDonald&#8217;s (que nos EUA era e ainda \u00e9 muito mais barato do que um prato feito aqui no Brasil) e ignora os restaurantes dos negros.&nbsp;<\/p>\n<p>Perderam os bancos, as empresas de transporte, as seguradoras, quase tudo que t\u00ednham conquistado com a segrega\u00e7\u00e3o. Esse foi o grande motivo que causou o decl\u00ednio da comunidade negra nos Estados Unidos e porque ha muitos lugares que, infelizmente, est\u00e3o cheios de viol\u00eancia e carecem de oportunidades na na\u00e7\u00e3o mais rica do mundo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-minimalbox\"><p>Em 1985, sessenta bancos de propriedade de pessoas pretas, prestavam servi\u00e7os financeiros \u00e0s suas comunidades; hoje, restam apenas vinte e tr\u00eas. Em onze estados que tiveram bancos de propriedade de negros em 1994, nenhum ainda est\u00e1 em atividade. Das cinquenta seguradoras de propriedade de negros que operavam durante a d\u00e9cada de 1980, hoje apenas duas permanecem.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, dezenas de milhares de estabelecimentos varejistas de propriedade de negros e empresas de servi\u00e7os locais tamb\u00e9m desapareceram, tendo falido ou sido adquiridos por empresas maiores. Refletindo esses desenvolvimentos, os negros americanos em idade produtiva tornaram-se muito menos propensos a serem seus pr\u00f3prios patr\u00f5es do que na d\u00e9cada de 1990. O n\u00famero per capita de empregadores negros, por exemplo, diminuiu cerca de 12% apenas entre 1997 e 2014.<\/p>\n<p><cite>Brian S. Feldman &#8211; Washington Monthly<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>O que est\u00e1 por tr\u00e1s dessas tend\u00eancias e quais s\u00e3o as implica\u00e7\u00f5es para a sociedade americana como um todo? Com certeza, pelo menos parte desse decl\u00ednio empresarial reflete desenvolvimentos econ\u00f4micos positivos. Uma parcela lentamente crescente de negros americanos agora tem empregos assalariados de colarinho branco e tem mais op\u00e7\u00f5es de emprego al\u00e9m de administrar seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. O movimento de milh\u00f5es de fam\u00edlias negras para sub\u00farbios integrados nos \u00faltimos quarenta anos tamb\u00e9m \u00e9 uma tend\u00eancia bem-vinda, mesmo que um dos efeitos tenha sido enfraquecer a viabilidade de muitos neg\u00f3cios independentes de propriedade de negros deixados para tr\u00e1s em bairros historicamente negros.<\/span><\/p>\n<p>A ironia ainda maior \u00e9 como o movimento pelos direitos civis foi conduzido foi um belo ato de organiza\u00e7\u00e3o negra. Bancos negros que emprestaram dinheiro \u00e0s igrejas e l\u00edderes negros que protestavam o uso de transporte negro para levar pessoas que boicotavam os servi\u00e7os de \u00f4nibus dos brancos. Os hot\u00e9is que abrigavam manifestantes de todo o pa\u00eds e os restaurantes que os alimentavam. A mesma luta pelos direitos de integra\u00e7\u00e3o pode ter levado posteriormente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de muitas dessas empresas. At\u00e9 o Dr. Martin Luther King chegou a essa conclus\u00e3o quando disse: &#8220;Posso ter nos integrado em um pr\u00e9dio em chamas&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-minimalbox\"><p>O antigo Brooks Motel, anteriormente localizado na Morris Street (Charleston, Carolina do Sul), \u00e9 outro exemplo de como a integra\u00e7\u00e3o contribuiu para diminuir o n\u00famero de neg\u00f3cios vi\u00e1veis de propriedade de negros. Constru\u00eddo antes da assinatura da Lei dos Direitos Civis pelo presidente Lyndon B. Johnson em 1967, o motel acomodou a maioria dos l\u00edderes dos direitos civis quando eles vieram para Charleston, incluindo o Dr. Martin L. King, Jr. Hoje, n\u00e3o h\u00e1 placa do motel ou do restaurante Brooks. Ambos foram demolidos para dar lugar a condom\u00ednios, que deslocaram n\u00e3o apenas empresas, mas tamb\u00e9m fam\u00edlias dos bairros tradicionalmente negro.<\/p>\n<p><cite>Barney Blakeney &#8211; Charleston City Paper<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Esses s\u00e3o os motivos pelos quais um movimento Black Money \u00e9 necess\u00e1rio nos Estados Unidos e aqui no Brasil, considerando que \u00e9 o pa\u00eds com a maior popula\u00e7\u00e3o preta fora da \u00c1frica. Aqui no Brasil ainda \u00e9 poss\u00edvel ver neg\u00f3cios de pessoas pretas e brasileiras dentro das quebradas, por\u00e9m, muitas vezes sem nenhuma consci\u00eancia racial e intelectual. Mas estamos lentamente despertando e \u00e9 poss\u00edvel notar uma certa mudan\u00e7a partindo da est\u00e9tica. Mulheres, homens e crian\u00e7as est\u00e3o assumindo seus cabelos naturais, o que \u00e9 sim um grande avan\u00e7o, mas n\u00e3o devemos nos limitar a cultura negra \u00e0 est\u00e9tica. Precisamos nos fortalecer financeiramente e nos perceber enquanto indiv\u00edduo e grupo pol\u00edtico, numa sociedade que tenta a todo momento deslegitimar tudo o que fazemos, pelo fato de sermos pretos.<\/p>\n<p>Segundo uma pesquisa do SEBRAE de 2017 &#8211; os negros formam o maior contingente de empreendedores do Brasil.<\/p>\n<p>Pessoas pretas movimenta mais de 1 trilh\u00e3o e meio de reais por ano aqui no Brasil. O grupo de pessoas pretas representa 38,8% dos pequenos neg\u00f3cios no pa\u00eds contra 32,9% dos brancos. Os pretos lideram tanto no ranking de empreendedores j\u00e1 estabelecidos, tanto no ranking de empreendedores iniciantes. Com isso, grandes empresas de cosm\u00e9ticos passaram a investir em estrat\u00e9gias de marketing voltada para pessoas pretas, com o interesse de faturar nas nossas custas.<\/p>\n<p>Somos um povo criativo, detentores de muitas habilidades. No Brasil tinha uma grande diversidade de trabalho escravo. Muitas mulheres pretas trabalhavam nas ruas como escravas de ganho, ditas &#8220;negras de tabuleiro&#8221; vendiam quitutes, alimentos, aguardente. Tinha as quitandeiras, os tropeiros que exerciam atividades comerciais de uma regi\u00e3o \u00e0 outra, carpinteiros, ferreiros, engenheiros, mestre de artesanatos, barbeiros e at\u00e9 mesmo professores. O pouco do dinheiro que recebiam como escravos de ganho, muitos deles investiam em cooperativas secretas organizadas por pretos libertos e escravizados que coletivamente economizavam para comprar sua pr\u00f3pria liberdade, a carta de alforria e o que mais fosse de emerg\u00eancia entre os associados. Teve hist\u00f3rias de ex escravos que fizeram uma pequena fortuna no Brasil colonial. Temos tamb\u00e9m o exemplo dos quilombos que tinham grande pot\u00eancia econ\u00f4mica atrav\u00e9s das produ\u00e7\u00f5es e trocas de mercadorias com outros quilombos.<\/p>\n<p>A diversidade de encargos gerou ainda outras camadas sociais, principalmente nas localidades portu\u00e1rias e associadas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, destinadas ao com\u00e9rcio varejista. Ainda que as fun\u00e7\u00f5es comerciais fossem exercidas em sua maioria por homens, mulheres negras livres exerceram um importante papel nesse aspecto da vida econ\u00f4mica e social no per\u00edodo colonial brasileiro.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar que a atividade do com\u00e9rcio varejista \u00e9 comum por parte das mulheres africanas no Brasil e na \u00c1frica, principalmente na regi\u00e3o centro-ocidental do continente, onde em v\u00e1rias etnias cabia \u00e0s mulheres a atividade comercial varejista. Com isso, a pr\u00e1tica comercial ligada \u00e0 divis\u00e3o social do trabalho de acordo com o sexo seria uma perman\u00eancia econ\u00f4mica e cultural mantida pelas africanas no Brasil. E essa rela\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e g\u00eanero muito afetam as mulheres pretas no momento de abrir a pr\u00f3pria empresa,&nbsp;precisam lidar com o racismo e o machismo.<\/p>\n<p>J\u00e1 sabemos que temos o esp\u00edrito empreendedor, mas n\u00e3o temos educa\u00e7\u00e3o financeira. As leis aplicadas no Brasil eram escravocratas, excludentes e genocida. Vou citar aqui algumas, s\u00f3 para enfatizar essa reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; 1837: Primeira lei de educa\u00e7\u00e3o: negros N\u00c3O podem ir \u00e0 escola.<\/p>\n<p>&#8211; 1850: Lei das terras: negros N\u00c3O podem ser propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>&#8211; 1871: Lei do ventre Livre: mas ningu\u00e9m nascia livre.<\/p>\n<p>&#8211; 1885: Lei do sexagen\u00e1rio: o escravo com mais de 60 anos poderia ser livre ap\u00f3s trabalhar mais 2 anos afim de agradecer o patr\u00e3o. Poucos chegavam a essa idade.<\/p>\n<p>&#8211; 1888: Aboli\u00e7\u00e3o depois de longos e s\u00f3rdidos 388 anos de escravid\u00e3o. Uma lei pra ingl\u00eas v\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; 1890: Lei dos vadios &amp; capoeiras: todos os negros que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou resid\u00eancia comprovada, iriam pra cadeia. O que deu in\u00edcio ao encarceramento em massa da popula\u00e7\u00e3o negra. Um agravante que perdura ainda na atualidade.<\/p>\n<p>\u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o mudar esse cen\u00e1rio! N\u00e3o adianta s\u00f3 cobrar o Estado, sendo que o pr\u00f3prio sustenta o racismo estrutural. Cabe a n\u00f3s buscarmos por uma mudan\u00e7a na ordem social e&nbsp;pensarmos duas vezes antes de&nbsp;gastar horrores no MCDonald&#8217;s pra depois pedir desconto pra uma irm\u00e3 de quebrada. J\u00e1 passou da hora da gente se valorizar e n\u00e3o mais ter receio de colocar um pre\u00e7o justo no nosso trabalho.<\/p>\n<p>Temos hoje em dia grandes refer\u00eancias de pessoas pretas que entenderam o conceito de Black Money e se organizam para oferecer produtos e servi\u00e7os com representatividade e qualidade. Esses pequenos empreendedores precisam do nosso apoio. Vamos fechar com os nossos, e gradualmente deixaremos de consumir das grandes empresas brancas, at\u00e9 porque a maioria se diz antirracista, adoram afirmar que n\u00e3o compactuam com o racismo, mas n\u00e3o tem nenhuma pol\u00edtica de inclus\u00e3o e de diversidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"heading\">\n<h2>E para fechar, vamos de m\u00fasica!<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Lan\u00e7amos recentemente o videoclipe Black Is Back In Style (preto voltou de moda) com imagens que trouxe com sensibilidade a jornada de um casal que atravessa desafios juntos e se conscientiza coletivamente. Al\u00e9m de abordar a rela\u00e7\u00e3o de intimidade, n\u00f3s refor\u00e7amos a perspectiva do Black Money dentro das periferias, usando a m\u00fasica como ferramenta de conscientiza\u00e7\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o do povo preto.<\/p>\n<p>Neste clipe sensualizamos um pouco, mostrando o nosso cotidiano e o poder do nosso amor afrocentrado, enquanto promovemos algumas marcas afro brasileiras que est\u00e3o em ascens\u00e3o e a ideia de seguirmos unidos, investindo na irm\u00e3 e no irm\u00e3o que sustenta seus respectivos neg\u00f3cios com grandes dificuldades, mas com muita dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com Lena Silva e BiXop no vocal a produ\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/quebradagroove\/\" title=\"\" class=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"color: #1E81F0\" style=\"color: rgb(30, 129, 240);\">Jonathas Noh<\/span><\/a>, a m\u00fasica tem poder de embalar as noites de quem busca a valoriza\u00e7\u00e3o do afeto e da identidade. O roteiro e a dire\u00e7\u00e3o de UmSoh, com c\u00e2mera e edi\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vulcamsfilmes\/\" title=\"\" class=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"color: #1e81f0\" style=\"color: rgb(30, 129, 240);\">Hilberto <\/span>Dias<\/a>, por sua vez, trazemos aspectos do nosso dia a dia, de um jeito sens\u00edvel, atraente e art\u00edstico, utilizando recursos fotogr\u00e1ficos que representam tanto a sensualidade quanto o empoderamento.<\/p>\n<p>A m\u00fasica conta ainda com um toque todo especial que n\u00f3s<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/somos_umsoh\/\" title=\"\" class=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> <span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"color: #1E81F0\" style=\"color: rgb(30, 129, 240);\">UmSoh<\/span><\/a>, como casal intercultural, trabalhamos com frequ\u00eancia: \u00e9 cantada em portugu\u00eas e ingl\u00eas.&nbsp;<span>Confira o lan\u00e7amento nas principais plataformas digitais.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"youtube\">\n<div class=\"youtube-embed video-embed-wrapper is-responsive\">\n\t<iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0JviA54YM8M?feature=oembed\" width=\"480\" height=\"270\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem muita gente aqui no Brasil que parece n\u00e3o entender a ideia do &#8220;dinheiro preto&#8221;. J\u00e1 ouvi pessoas dizerem coisas como, imagine se cri\u00e1ssemos o termo &#8220;dinheiro branco&#8221; &nbsp;ou diss\u00e9ssemos coisas como &#8220;isso \u00e9 racismo reverso&#8221;. Esses coment\u00e1rios s\u00e3o apenas reflexos do racismo que j\u00e1 existe dentro dessa pessoa. Foto: Hilberto Dias \/ Arte: Rogerinho [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":1359,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[79],"ppma_author":[797],"class_list":["post-1360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","tag-colunas"],"acf":[],"authors":[{"term_id":797,"user_id":16,"is_guest":0,"slug":"denme-col-3cattive-me","display_name":"Jordan Fields e Lena Silva","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/5ffe24bad5383269ad53b07b2c2b4c35d219f1bb5043fe72871889660ed5afc5?s=96&d=mm&r=g","first_name":"Jordan","last_name":"Fields e Lena Silva","user_url":"http:\/\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/UmSoh\"><i><\/i> \/UmSoh<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/somos_umsoh\"><i> <\/i> @somos_umsoh<\/a>\r\n\"Bixop e Lena Silva formam a dupla UmSoh, eles provavelmente s\u00e3o o primeiro casal perif\u00e9rico formado por um afro-americano e uma afro-brasileira, que juntos, fazem Rap &amp; Soul abordando diferentes tem\u00e1ticas e difundindo suas culturas, al\u00e9m de incentivar as pessoas a aprenderem idiomas atrav\u00e9s da m\u00fasica. BiXop nasceu e cresceu no estado de Nova J\u00e9rsei em meio a viol\u00eancia e desigualdade que \u00e9 n\u00e3o mostrada na m\u00eddia brasileira.  O seu interesse pelo hip hop brasileiro resultou na aprendizagem da l\u00edngua portuguesa, e a decis\u00e3o de mudar para o Brasil e criar m\u00fasica multilingue buscando novas op\u00e7\u00f5es de crescer como artista.\r\nEnquanto Lena Silva, nasceu no estado da Bahia na cidade de Jequi\u00e9. Teve a oportunidade de viajar e morar no exterior, aprendeu a falar italiano e conheceu a arte da fotografia, hoje \u00e9 fot\u00f3grafa, dreadmaker e cantora\/mc, al\u00e9m de ser companheira de vida de Bixop. Assim nasceu Umsoh, a dupla que fundou o curso Ingl\u00eas Na Quebrada e fazem m\u00fasica em diferentes idiomas que em breve estar\u00e1 dispon\u00edvel.\"\r\n"}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1360"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3726,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1360\/revisions\/3726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1360"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}