
{"id":1346,"date":"2020-11-10T19:17:20","date_gmt":"2020-11-10T22:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/11\/10\/legado\/"},"modified":"2024-06-29T21:11:36","modified_gmt":"2024-06-30T00:11:36","slug":"legado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/colunas\/legado\/","title":{"rendered":"Legado"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Comunidade, esse m\u00eas foi dif\u00edcil escrever, primeiro pela diversidade de assuntos que poderia&nbsp;<\/span><span>conter nesse texto. Minha cocandidatura pol\u00edtica, COVID-19, pol\u00edtica brasileira, machismo&nbsp;<\/span><span>estrutural, futebol e privilegio branco que vivemos. Enfim, muitos temas, todos mergulhados&nbsp;<\/span><span>em uma mulher negra ind\u00edgena e perif\u00e9rica, que nasceu na periferia e foi criada na favela.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\" style=\"width:639.24970691676px;height:426px;\">\n<p>\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/712\/Vale-das-Virtudes-Campo-Limpo---Zona-Sul---SP2017-Foto-DiCampanaFotoColetivo.jpg\" title=\"Foto: DiCampanaFotoColetivo (Vale das Virtudes, Campo Limpo - Zona Sul - SP\/2017)\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/712\/Vale-das-Virtudes-Campo-Limpo---Zona-Sul---SP2017-Foto-DiCampanaFotoColetivo.jpg\" title=\"Foto: DiCampanaFotoColetivo (Vale das Virtudes, Campo Limpo - Zona Sul - SP\/2017)\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport eb-image-popup-button\" href=\"images\/p\/712\/Vale-das-Virtudes-Campo-Limpo---Zona-Sul---SP2017-Foto-DiCampanaFotoColetivo.jpg\" title=\"Foto: DiCampanaFotoColetivo (Vale das Virtudes, Campo Limpo - Zona Sul - SP\/2017)\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\" style=\"width:639.24970691676px;\">\n\t\t\t<span>Foto: DiCampanaFotoColetivo (Vale das Virtudes, Campo Limpo &#8211; Zona Sul &#8211; SP\/2017)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>Eu tenho muitos pontos cegos dentro de mim e em minha consci\u00eancia, pois ainda n\u00e3o existe condi\u00e7\u00f5es estruturais para esquecer tudo que passou pela minha hist\u00f3ria e de tantas e tantos que eu conhe\u00e7o, mas sabemos que todas as trag\u00e9dias institu\u00eddas em nossas vidas me trouxe para luta social, cultural e pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p>Eu gostaria de ter mais lembran\u00e7as felizes da minha inf\u00e2ncia, mas minha fam\u00edlia n\u00e3o tinha m\u00e1quina fotogr\u00e1fica para registrar esses momentos, ent\u00e3o eles vivem em outras pessoas, eles a possuem e nesses momentos eu n\u00e3o sou protagonista. Mas me lembro bem do que \u00e9 morar a beira de um c\u00f3rrego, pois em fim, mesmo que canalizado (em partes) ele continua l\u00e1 exalando seu poder. Eu n\u00e3o vivi muito alagamentos, pois meu pai e vizinhos cuidavam mensalmente do lixo e escavavam para que ele n\u00e3o alagasse nossa casa. Essa \u00e9 a realidade de muitos brasileiros e foi a minha. A urbaniza\u00e7\u00e3o da favela veio quando eu n\u00e3o morava mais l\u00e1, meus pais ficaram felizes e eu tamb\u00e9m pela melhoria do ambiente da minha casa, minha casa propriedade da minha fam\u00edlia na favela, pois onde vivo hoje estou de passagem, pois o aluguel depende de trabalho.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia tamb\u00e9m n\u00e3o foi diferente da maioria das fam\u00edlias nos anos 90, violenta com os filhos por medo da viol\u00eancia, n\u00e3o compreendia nossa vida art\u00edstica ou nossas baladas. Apanhei bastante para entender que s\u00f3 o trabalho seria uma forma digna de vida, mas quem n\u00e3o fica violento com a falta de dinheiro e a demanda de trabalho. Passamos, todos os meus amigos por momentos de viol\u00eancia que se misturava com amor e carinho, muita terapia para n\u00e3o ligar amor a viol\u00eancia, muita poesia para trazer de volta algo poss\u00edvel para al\u00e9m da viol\u00eancia vivida e vista entre crimes, corpos, toque de recolher e toda guerra que presenciamos na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m me contou essa hist\u00f3ria, eu vivi enquanto crescia, muitas coisas est\u00e3o nesse ponto cego outras s\u00e3o objetivas e sei que criei v\u00e1rias fugas de momentos econ\u00f4micos dif\u00edceis. A escola foi minha fuga, minha fortaleza, quando aprendi a ler, aprendi o teletransporte, aprendi com os livros que poderia esconder minha pobreza em belas reda\u00e7\u00f5es, em falas e respostas dif\u00edceis para minha idade, em ser educada e ser firme. Uma menina firme, uma mulher firme me salvou de diversos abusos e problemas.<\/p>\n<p>Ser uma menina firme, me fez n\u00e3o sofrer em n\u00e3o ser escolhida na &#8220;salada mista&#8221; ou miss caipirinha, mas estar feliz em ser a oradora do gr\u00eamio, em sair sozinha, andar com os garotos, em ser a metida sabe tudo, mas que me trouxe amizades que tenho at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Existem diversos caminhos para as mulheres na periferia, mas muitas vezes tudo parece um grande labirinto que nos leva ao mesmo lugar, a maternidade. Na verdade essa foi a \u00fanica vez que achei que de verdade n\u00e3o haveria chance e que minha vida n\u00e3o teria outra estrada, al\u00e9m de aceitar o&nbsp;trajeto. Mas eu sempre fui firme, e mesmo que quase perdendo o tempo eu segurei a estrada e me fiz a primeira mulher formada no ensino superior na minha fam\u00edlia, pr\u00eamio? N\u00e3o, revanche!<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui ir muito mais longe que isso no que se refere a institui\u00e7\u00e3o, mas essa passagem foi combust\u00edvel suficiente para que minhas palavras fossem a\u00e7\u00f5es conectadas \u00e0s lutas das quais eu pertencia e da an\u00e1lise de tempos t\u00e3o distantes e t\u00e3o presentes no territ\u00f3rio perif\u00e9rico.<\/p>\n<p>Cada fala do ser perif\u00e9rico me transporta para um peda\u00e7o, um dia, uma hora da minha vida, absolutamente nada me traz estranheza, hoje fa\u00e7o o teletransporte ao contr\u00e1rio, mais forte consigo olhar de frente para a vida constru\u00edda nas condi\u00e7\u00f5es em que vivemos.<\/p>\n<p>Somos sobreviventes, da falta, de saneamento b\u00e1sico, alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, como se diz hoje, da falta de seguran\u00e7a e planejamento do nosso trajeto. Mas precisamos ser firmes, nossos ancestrais foram em condi\u00e7\u00f5es muito piores. Minha m\u00e3e veio para S\u00e3o Paulo como escrava dom\u00e9stica e hoje eu estou aqui, escrevendo, isso \u00e9 legado.<\/p>\n<p>Sa\u00fado aqui todas que vieram antes de mim e me colocaram aqui hoje periferia \u00e9 mat\u00e9ria que transborda mem\u00f3rias de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>Sinal de nascen\u00e7a&nbsp;<br \/>\nSou&nbsp; negra,<br \/>\nsangue ind\u00edgena, brasileira,<br \/>\nde trajet\u00f3ria equilibrada na trag\u00e9dia,&nbsp;<br \/>\npovo, la\u00e7o, estupro,&nbsp;miscigena\u00e7\u00e3o for\u00e7ada no murro.<br \/>\nEnfileiradas paulistanas,<br \/>\ndesfile de trabalhadoras \u00e0 deriva,&nbsp;<br \/>\nsolavancos do transporte p\u00fablico.<br \/>\nMascaradas relembram,<br \/>\no passado ancestral.<br \/>\nO medo nos olhos, a f\u00faria nas m\u00e3os.<br \/>\nLadeiras acima, ladeiras a baixo, seguimos, len\u00e7os nos cabelos, colares sagrados no peito.<br \/>\nObservando esse filme coletivo do homem branco faminto por sangue nativo,<br \/>\nUma ordem que n\u00e3o cessa,&nbsp;<br \/>\nSegue com nome e sobrenome<br \/>\nDe v\u00edrus,<br \/>\numa reprise funesta de antepassados, desconhecidos,<br \/>\nmas sentidos&nbsp;nas veias que nos restam.<\/p>\n<p><cite>Anabela Gon\u00e7alves<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunidade, esse m\u00eas foi dif\u00edcil escrever, primeiro pela diversidade de assuntos que poderia&nbsp;conter nesse texto. 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Com experi\u00eancia em ger\u00eancia de projetos, planejamento e acompanhamento de equipe de a\u00e7\u00e3o e educadora. Atuo como presidenta da organiza\u00e7\u00e3o social Bloco do Beco, al\u00e9m de 20 anos como ativista na Periferia Sul com a\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de g\u00eanero, pol\u00edtica e cultura, em coletivos como KATU de educa\u00e7\u00e3o, Fala Guerreira e Periferia Segue Sangrando."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3642,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1346\/revisions\/3642"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1345"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1346"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}