
{"id":1208,"date":"2020-08-27T18:47:56","date_gmt":"2020-08-27T21:47:56","guid":{"rendered":"https:\/\/beta.desenrolaenaomenrola.com.br\/2020\/08\/27\/corona-e-alimentacao-onde-fica-a-seguranca-alimentar-de-quem-e-da-quebrada\/"},"modified":"2024-06-29T21:12:09","modified_gmt":"2024-06-30T00:12:09","slug":"corona-e-alimentacao-onde-fica-a-seguranca-alimentar-de-quem-e-da-quebrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/contextos-perifericos\/corona-e-alimentacao-onde-fica-a-seguranca-alimentar-de-quem-e-da-quebrada\/","title":{"rendered":"Corona e alimenta\u00e7\u00e3o: onde fica a seguran\u00e7a alimentar de quem \u00e9 da quebrada?"},"content":{"rendered":"<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><i data-redactor-tag=\"i\">Em pouco mais de cinco meses de pandemia, a grande maioria dos moradores da Brasil\u00e2ndia, na Zona Norte de SP, tiveram que mudar, de alguma forma, a rela\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o dentro de casa.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"readmore\"><\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><\/a><\/p>\n<p><a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<\/a><a class=\"eb-image-viewport\">\t\t<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Distrito da Brasil\u00e2ndia | Foto: Beatriz Reis<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Na Vila Terezinha, distrito da Brasil\u00e2ndia, periferia da Zona Norte de S\u00e3o Paulo (SP), Valqu\u00edria de Souza Oliveira, 54, recebe, quinzenalmente, uma cesta de alimentos org\u00e2nicos em sua casa, distribu\u00edda desde o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, o novo coronav\u00edrus, pela Preto Imp\u00e9rio, um coletivo do bairro. &#8220;Os alimentos t\u00eam outro sabor, n\u00e3o estragam r\u00e1pido, a gente consegue conservar um tempo na geladeira. O org\u00e2nico \u00e9 outra coisa, n\u00e9. Aqui em casa todo mundo gostou. N\u00e3o tem nem compara\u00e7\u00e3o com o que a gente comprava na feira&#8221;, comenta.<\/p>\n<p>Val, como \u00e9 conhecida no bairro, divide a casa com mais sete familiares, entre eles crian\u00e7as, que, at\u00e9 mar\u00e7o, antes da interrup\u00e7\u00e3o das aulas presenciais, faziam, pelo menos, duas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias nas escolas em que eram matriculadas, refei\u00e7\u00f5es estas que seguiam normas t\u00e9cnicas e eram acompanhadas por nutricionistas. Com as crian\u00e7as fora da escola, o desafio da fam\u00edlia foi ainda maior para tentar equilibrar o que se p\u00f5e \u00e0 mesa todos os dias. Neste sentido, receber as cestas de org\u00e2nicos tem feito a diferen\u00e7a. &#8220;Para a alimenta\u00e7\u00e3o dos pequenos est\u00e1 sendo maravilhoso&#8221;, diz Val.<\/p>\n<p>Outro desafio, com certeza, \u00e9 a grana. No in\u00edcio da pandemia, apenas o genro de Val trabalhava e completava a renda familiar, mas, h\u00e1 pouco tempo, a filha tamb\u00e9m conseguiu voltar a trabalhar, o que foi um grande al\u00edvio, principalmente, porque o cen\u00e1rio nacional n\u00e3o \u00e9 animador: houve um aumento de 26% no n\u00famero de desempregados diante da pandemia, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Ao todo, 12,4 milh\u00f5es de brasileiros estavam desempregados na quarta semana de junho; 2,6 milh\u00f5es a mais que o registrado na primeira semana de maio. Junto a isso, vale destacar que a Brasil\u00e2ndia apresenta a 5\u00aa pior taxa de emprego formal da cidade, segundo o <a href=\"https:\/\/www.nossasaopaulo.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Mapa_Desigualdade_2019_tabelas.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mapa da Desigualdade de 2019<\/a>.<\/p>\n<p><span>Com as contas ainda apertadas, a fam\u00edlia de Val usa a estrat\u00e9gia de comprar alimentos aos poucos, nos mercados locais do bairro, e sempre com bases nas promo\u00e7\u00f5es. &#8220;Isso, porque os pre\u00e7os variam muito&#8221;, explica ela. N\u00e3o \u00e0 toa, na grande maioria das vezes, a escolha do alimento que vai \u00e0 mesa \u00e9 feita de acordo com as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, e n\u00e3o pela necessidade e cuidado com a qualidade do que se come.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_Foto-2_Beatriz-Reis.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>A maioria das fam\u00edlia entrevistadas pela pesquisa realizada pela Preto Imp\u00e9rio prefere comprar seus alimentos nos mercados locais do bairro |&nbsp;Foto: Beatriz Reis&nbsp;<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><b data-redactor-tag=\"b\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"font-size: 20px\" style=\"font-size: 20px;\">Corona na Brasil\u00e2ndia<\/span><\/b><\/p>\n<p>O 7\u00ba distrito mais populoso da capital, com mais de 260 mil habitantes &#8211; sendo 50,6% de pessoas autodeclaradas negras -, a Brasil\u00e2ndia foi, segundo o \u00faltimo <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/saude\/COVID19_Relatorio_SItuacional_SMS_20200529.pdf\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">relat\u00f3rio regionalizado<\/a> de casos de Covid divulgado pela Prefeitura, em maio, o distrito com mais \u00f3bitos da cidade em decorr\u00eancia do v\u00edrus. Foram 209 mortes confirmadas, seguido dos distritos de Sapopemba (205), Graja\u00fa (183), Cap\u00e3o Redondo (163), Jardim S\u00e3o Lu\u00eds (157) e Jardim \u00c2ngela (156).<\/p>\n<p>Assim como Val, outras 120 fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social na Brasil\u00e2ndia recebem as cestas de alimentos org\u00e2nicos distribu\u00eddas para amenizar os efeitos negativos da Covid, tanto financeiramente, quanto para garantir uma sa\u00fade melhor para os moradores.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"quotes\">\n<blockquote class=\"eb-quote style-default\"><p>&nbsp;&#8220;A galera do bairro j\u00e1 est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, uma quest\u00e3o ambiental prec\u00e1ria, falta de saneamento b\u00e1sico e, ainda, sem alimenta\u00e7\u00e3o. Sim, isso \u00e9 um processo de genoc\u00eddio a longo prazo. Quando chega uma doen\u00e7a como essa, \u00e9 \u00f3bvio que muitas pessoas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade v\u00e3o vir a \u00f3bito<\/p>\n<p><cite>Dimas Reis, integrante da <a href=\"https:\/\/www.pretoimperio.com\/\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" style=\"background-color: rgb(255, 255, 255);\">Preto Imp\u00e9rio<\/a>.<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>A educadora e nutricionista Amanda de Jesus, tamb\u00e9m concorda e afirma que \u00e9 extremamente importante que a popula\u00e7\u00e3o consiga manter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel para garantir que o corpo tamb\u00e9m esteja saud\u00e1vel e mais preparado para lidar com o v\u00edrus. A falta de pol\u00edticas que saibam lidar com isso, por exemplo, agrava o que ela denomina como &#8220;nutric\u00eddio&#8221;. &#8220;\u00c9 nos matar atrav\u00e9s dos alimentos, pela boca&#8221;, explica.<\/span><\/p>\n<p>Segundo ela, ainda \u00e9 um desafio constante lidar com a massiva oferta, principalmente para a popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica, de produtos ultraprocessados e industrializados, que, de forma geral, n\u00e3o fazem bem para a sa\u00fade. Vale destacar que o Brasil \u00e9 tamb\u00e9m, desde 2008, l\u00edder mundial em consumo de agrot\u00f3xicos e que os h\u00e1bitos alimentares do brasileiro est\u00e3o muito pautados pelo alto consumo de sal, gordura, bebidas ado\u00e7adas e refei\u00e7\u00f5es prontas. A pergunta que fica diante deste cen\u00e1rio \u00e9: o que tem sido feito para garantir a seguran\u00e7a alimentar de quem \u00e9 da quebrada?&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_dados-PI.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><b data-redactor-tag=\"b\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"font-size: 20px\" style=\"font-size: 20px;\">As mudan\u00e7as no prato<\/span><\/b><\/p>\n<p>A pesquisa <i data-redactor-tag=\"i\">A alimenta\u00e7\u00e3o na Brasil\u00e2ndia em tempos de Covid-19<\/i>, realizada pela Preto Imp\u00e9rio, em julho, ouviu, por telefone, 103 fam\u00edlias que recebem as cestas de org\u00e2nicos do coletivo e que residem em v\u00e1rios subdistritos da regi\u00e3o. Segundo a pesquisa, para mais de 90% delas, desde que a pandemia come\u00e7ou, a rela\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o tem mudado dentro de casa.<\/p>\n<p>Em resumo, 68% dos lares t\u00eam mais de quatro pessoas residindo na mesma casa, e 37% deles t\u00eam, pelo menos, uma crian\u00e7a. Entre os principais motivos para esta mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o, t\u00eam destaque os fatos de a renda familiar ter diminu\u00eddo, os produtos estarem mais caros ou o fato de respeitarem o isolamento e mudarem a rotina de sair de casa: ao todo, 50% das fam\u00edlias mudaram os locais onde costumavam comprar comida e 71% delas, agora, preferem o mercadinho perto de casa.<\/p>\n<p>Celia Nazare da Silva, 53, \u00e9 propriet\u00e1ria do conhecido Sacol\u00e3o Silva Ramos, tamb\u00e9m localizado na Vila Terezinha, onde vende frutas, verduras, legumes, hortali\u00e7as, entre outros produtos. Segundo ela, nos primeiros meses da pandemia, o movimento do com\u00e9rcio local aumentou, pois &#8220;todo mundo s\u00f3 pensava em comer, ent\u00e3o o movimento estava \u00f3timo&#8221;. Agora, com pouco mais de cinco meses de pandemia, o movimento deu uma ca\u00edda.<i data-redactor-tag=\"i\"><\/i><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_Foto-3_Priscila-Reis.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Para muitas fam\u00edlias do distrito, o pre\u00e7o dos alimentos aumentaram, o que tem interferido no que \u00e9 poss\u00edvel ou n\u00e3o comprar pra casa | Foto: Beatriz Reis <\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>&#8220;As pessoas est\u00e3o comprando um pouco menos agora. Muita gente perdeu o emprego, outras voltaram pro trabalho e n\u00e3o est\u00e3o tanto em casa&#8221;, diz. O pre\u00e7o dos alimentos tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o avaliada por ela. &#8220;As mercadorias aumentaram pra gente comprar pro sacol\u00e3o, ent\u00e3o fica dif\u00edcil pra gente conseguir manter o mesmo pre\u00e7o [na venda]&#8221;, explica ela, justificando o aumento dos pre\u00e7os no sacol\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Em todo Brasil, a qualidade e a quantidade de comida que as crian\u00e7as e adolescentes brasileiros est\u00e3o consumindo foi afetada pela pandemia, segundo a pesquisa <a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/media\/9966\/file\/impactos-covid-criancas-adolescentes-ibope-unicef-2020.pdf\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Impactos Prim\u00e1rios e Secund\u00e1rios da Covid-19 em Crian\u00e7as e Adolescentes<\/a>, da Unicef, realizada pelo Ibope, e divulgada no final deste m\u00eas. De acordo com o levantamento, 21% dos entrevistados afirmaram que vivenciaram momentos em que os alimentos acabaram e n\u00e3o havia dinheiro para comprar mais.<\/p>\n<p>Dos entrevistados, 6% tamb\u00e9m disseram que a \u00fanica sa\u00edda foi deixar de comer, o que representa cerca de nove milh\u00f5es de brasileiros deixando de realizar alguma refei\u00e7\u00e3o por falta de dinheiro. O estudo ainda mostra que a comida, quando tem, \u00e9 de pior qualidade em muitos casos. Quase metade (49%) dos brasileiros sofreu alguma mudan\u00e7a nos h\u00e1bitos alimentares neste per\u00edodo de quarentena.<\/p>\n<p>Para a nutricionista Amanda de Jesus, a principal dica para uma boa alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 dar aten\u00e7\u00e3o maior aos alimentos naturais, aos alimentos da feira, ou seja, &#8220;aproveitar a xepa, que \u00e9 o que a quebrada j\u00e1 tem costume de aproveitar&#8221;. &#8220;Ser\u00e1 que sabemos o que realmente estamos consumindo? A feira tem que ser a base. O mercado acaba sendo complementar, apenas. Mas, normalmente, se faz ao contr\u00e1rio. \u00c9 preciso inverter este olhar&#8221;, sinaliza.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_Foto-4.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>Ao todo, 120 fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social na Brasil\u00e2ndia recebem as cestas de alimentos org\u00e2nicos distribu\u00eddas pela Preto Imp\u00e9rio | Foto: Beatriz Reis <\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p>Amanda tamb\u00e9m fala sobre as cestas b\u00e1sicas distribu\u00eddas massivamente \u00e0s fam\u00edlias no in\u00edcio da pandemia, quando diversas lives de artistas famosos e grandes organiza\u00e7\u00f5es e empresas passaram a distribuir milhares de mantimentos pela quebrada. Estas a\u00e7\u00f5es ajudaram muitas fam\u00edlias que, de uma hora para outra, foram impactadas pela pandemia.<\/p>\n<p>No entanto, Amanda de Jesus tamb\u00e9m sinaliza algo bem importante e pouco discutido: quem doa cestas tamb\u00e9m precisa se responsabilizar pela qualidade do que est\u00e1 doando. &#8220;Se tem oportunidade de escolha, porque n\u00e3o escolher uma cesta melhor, que tenha menos produtos ultraprocessados, por exemplo, ou distribuir frutas e legumes&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Este cuidado com o que se come citado pela nutricionista foi seguido em outra a\u00e7\u00e3o importante no territ\u00f3rio da Brasil\u00e2ndia de combate \u00e0 Covid-19, e protagonizada pela a\u00e7\u00e3o direta dos moradores, na base do n\u00f3s por n\u00f3s. Assim que decretada a pandemia, a AMAVB, a Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores do Alto da Vila Brasil\u00e2ndia, iniciou a distribui\u00e7\u00e3o de marmitas para dezenas de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Eram 170 marmitas distribu\u00eddas todos os dias, al\u00e9m de outras 200 que recebiam prontas de outra organiza\u00e7\u00e3o, resultando em cerca de 360 marmitas distribu\u00eddas diariamente. Em 4 meses, foram distribu\u00eddas mais de 34 mil quentinhas, incluindo algumas no per\u00edodo noturno. Hoje, o n\u00famero de produ\u00e7\u00e3o das marmitas diminuiu drasticamente, muito por conta da redu\u00e7\u00e3o dos apoios financeiros e parcerias, embora a pandemia permane\u00e7a e ainda impacte a vida de milhares de pessoas.<\/p>\n<p><b data-redactor-tag=\"b\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"font-size: 20px\" style=\"font-size: 20px;\">Seguran\u00e7a alimentar como direito<\/span><\/b><\/p>\n<p>O direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada (DHAA) ainda tem s\u00e9rio desafios no pa\u00eds, e a morosidade de seus avan\u00e7os t\u00eam reflexos nesses tempos de pandemia. Nacionalmente, o Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (SISAN), criado em 2006, a partir da <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_Ato2004-2006\/2006\/Lei\/L11346.htm#:~:text=3%C2%BA%20A%20seguran%C3%A7a%20alimentar%20e,respeitem%20a%20diversidade%20cultural%20e\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Lei n\u00ba11.346<\/a>, e assinada pelo ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, definiu a seguran\u00e7a alimentar e nutricional como &#8220;a estrat\u00e9gia que consiste na realiza\u00e7\u00e3o do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base pr\u00e1ticas alimentares promotoras da sa\u00fade, que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambientais, culturais, econ\u00f4mica e socialmente sustent\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p><span>Mas, foi somente em 2010, em sess\u00e3o solene do Congresso Nacional no plen\u00e1rio do Senado, que foi promulgada a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 047\/2003, que incluiu o direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o entre os direitos sociais da Carta Magna. At\u00e9 ent\u00e3o, eram direitos sociais educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho, moradia, lazer, seguran\u00e7a, previd\u00eancia social, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade e \u00e0 inf\u00e2ncia e assist\u00eancia aos desamparados.<\/span>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_Foto-5_.jpg\" alt=\"\u201cA feira tem que ser a base. O mercado acaba sendo complementar, apenas. Mas, normalmente, se faz ao contr\u00e1rio\u201d, explica a nutricionista Amanda de Jesus | Foto: Beatriz Reis.\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"eb-image-caption\">\n\t\t\t<span>\u201cA feira tem que ser a base. O mercado acaba sendo complementar, apenas. Mas, normalmente, se faz ao contr\u00e1rio\u201d, explica a nutricionista Amanda de Jesus | Foto: Beatriz Reis.<br \/>\n<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"text\">\n<p><span>\u00c0 n\u00edvel municipal, embora a cidade de S\u00e3 Paulo tenha certo protagonismo na discuss\u00e3o, foi a partir de 2013, na gest\u00e3o do prefeito Fernando Haddad, que a Prefeitura de S\u00e3o Paulo iniciou o processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar e nutricional (SAN) com a lei n\u00ba 15.920, que estabeleceu que o munic\u00edpio deveria tomar as medidas necess\u00e1rias para garantir o direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada e a seguran\u00e7a alimentar e nutricional de sua popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Foi neste per\u00edodo tamb\u00e9m que foi institu\u00eddo, finalmente, os componentes municipais do SISAN: a Confer\u00eancia Municipal de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (CMSAN); a C\u00e2mara Intersecretarial de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (CAISAN-Municipal) e o <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/desenvolvimento\/participacao_social\/index.php?p=269614\" class=\"\" title=\"\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Conselho Municipal de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional de S\u00e3o Paulo (COMUSAN-SP)<\/a>, anteriormente criados, mas, neste momento, passam a ser componentes do sistema nacional.<\/p>\n<p>Entre uns dos maiores gargalos da implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas est\u00e1, justamente, a dificuldade em estruturar e aperfei\u00e7oar uma rede de equipamentos p\u00fablica alimentar para a popula\u00e7\u00e3o. Segundo o <i data-redactor-tag=\"i\">Panorama da Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional na cidade de S\u00e3o Paulo: a\u00e7\u00f5es, desafios e perspectivas do papel da cidade na alimenta\u00e7\u00e3o<\/i>, o n\u00famero de equipamentos que cumpriam esta fun\u00e7\u00e3o dimunuiu na cidade em uma compara\u00e7\u00e3o com a d\u00e9cada de 1990. At\u00e9 2015, eram 15 mercados e 17 sacol\u00f5es municipais na cidade (ante 27 em 1993), al\u00e9m de mais de 800 feiras livres convencionais &#8211; apenas sete feiras de produtos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Soma-se a isso, segundo o documento, o constante processo de privatiza\u00e7\u00e3o dos equipamentos p\u00fablicos, a falta de instrumentos de regula\u00e7\u00e3o do mercado por parte do Estado na cess\u00e3o do espa\u00e7o e na pol\u00edtica de pre\u00e7os dos alimentos praticados nesses equipamentos; e, apesar do expressivo n\u00famero de feiras que ainda existem (que ainda s\u00e3o ref\u00e9m, por exemplo, de alimentos cultivados a base de agrot\u00f3xicos), ainda persistem os &#8220;desertos alimentares&#8221; na cidade, com dif\u00edcil acesso aos alimentos saud\u00e1veis por parte da popula\u00e7\u00e3o, principalmente em regi\u00f5es das periferias, o que influencia na real condi\u00e7\u00e3o de manter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e acess\u00edvel nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>*Com colabora\u00e7\u00e3o de Priscila Reis e Beatriz Reis.&nbsp;<\/p>\n<p><i data-redactor-tag=\"i\"><span data-redactor-tag=\"span\" data-verified=\"redactor\" data-redactor-style=\"font-size: 16px\" style=\"font-size: 16px;\">Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realiza\u00e7\u00e3o das iniciativas de comunica\u00e7\u00e3o Alma Preta, Desenrola e N\u00e3o me Enrola, Embarque no Direito, N\u00f3s, Mulheres da Periferia, Periferia em Movimento, Preto Imp\u00e9rio e TV Graja\u00fa, com patroc\u00ednio da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal.&nbsp;<\/span><\/i><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ebd-block   \" data-type=\"image\" style=\"text-align: center;\">\n<div class=\"eb-image style-clear\">\n<div class=\"eb-image-figure is-responsive\">\n<p>\t\t\t\t\t<a class=\"eb-image-viewport\"><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/b2ap3_large_WhatsApp-Image-2020-08-24-at-19.44.25.jpeg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em pouco mais de cinco meses de pandemia, a grande maioria dos moradores da Brasil\u00e2ndia, na Zona Norte de SP, tiveram que mudar, de alguma forma, a rela\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o dentro de casa. Distrito da Brasil\u00e2ndia | Foto: Beatriz Reis Na Vila Terezinha, distrito da Brasil\u00e2ndia, periferia da Zona Norte de S\u00e3o Paulo (SP), [&hellip;]&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":1200,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[47],"ppma_author":[802],"class_list":["post-1208","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contextos-perifericos","tag-contextos-perifericos"],"acf":[],"authors":[{"term_id":802,"user_id":14,"is_guest":0,"slug":"denme-col-12cattive-me","display_name":"Preto Imp\u00e9rio","avatar_url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/0e7addda6f1a9ff0fb48d7d56379e9fc2cb5f700963114a8d9e12b949121bfd2?s=96&d=mm&r=g","first_name":"Preto","last_name":"Imp\u00e9rio","user_url":"http:\/\/","job_title":"","description":"<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pretoimperio\"><i><\/i> \/pretoimperio<\/a>\r\n<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/preto_imperio\/\"><i> <\/i> @preto_imperio<\/a>\r\nO Preto Imp\u00e9rio \u00e9 uma empresa social que busca viabilizar e materializar os sonhos da popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica."}],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1208"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3393,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1208\/revisions\/3393"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1208"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/desenrolaenaomenrola.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/ppma_author?post=1208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}