Coletivos resistem à proposta de fechamento da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã

Em resposta ao pedido de reintegração de posse emitido pela prefeitura municipal de São Paulo, que alega que não existem atividades culturais no local, cerca de 20 apresentações artísticas movimentaram o sarau Ato de Resistência, articulado por coletivos que realizam a gestão da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã.

Por Vitória Guilhermina 10/04/2019 - 10:50 hs
Foto: Gueto Cine
Coletivos resistem à proposta de fechamento da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã
Intervenção cultural na Casa Cultural Hip Hop Jaçanã, durante o Sarau Ato de Resistência.

A prefeitura de São Paulo está alegando que a sede da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã, localizado na zona norte de São Paulo, está ocioso e que não tem atividades culturais regulares para a população, e afirma que está ocupado de forma irregular, e por isso pede a reintegração de posse do imóvel.

Após receber essa notificação, um grupo de moradores e artistas organizaram o sarau Ato de Resistência, realizado no último final de semana de março, reunindo cerca de 300 pessoas na ocupação cultural, para assinar um abaixo assinado que pede o permanecimento do espaço e reconhecimento como uma casa de cultura.

“O ato hoje é um repúdio ao pedido da prefeitura, estamos mostrando que tem muita cultura sim"

Para Davi Albuquerque, professor de filosofia e integrante do coletivo Estéticas Urbanas que reside na casa, o ato simboliza a resistência conta as diversas formas de violências cometidas pelo Estado. “O ato hoje é um repúdio ao pedido da prefeitura, estamos mostrando que tem muita cultura sim, mas cultura feita por nós, uma cultura nossa, uma cultura que acabe com o extermínio da nossa população, uma cultura que há conscientização e afeto.”

Um dos artistas que se apresentaram no evento é o jovem Henrique Pedro, 21, que comenta a dificuldade de acessar outros espaços culturais no território: “os outros espaços de cultura do bairro são relativamente inacessíveis, porque não é um espaço gerido pela comunidade, tem todo um calendário burocrático, e depende muito das verbas governamentais.”

O jovem reforça que valoriza a autonomia dos artistas, coletivos e articuladores comunitários para continuar promovendo transformações sociais para os moradores do bairro. “Durante o verão a piscina fica fechada e coletivos autônomos se organizaram para fazer piscinas comunitárias para as crianças”, conta ele, apontando como os coletivos se organizam para atender os moradores, diante da má administração do CEU, próximo a ocupação.

Gestão pública ou autônoma?

Antes de se tornar um centro cultural no território, a Casa de Cultura Hip Hop Jaçanã era um Telecentro, que se manteve fechado e abandonado por muito tempo. Após o processo de ocupação e revitalização, o espaço passou a abrigar diversos coletivos e organizações sociais da zona norte, trazendo de início oficinas de capoeira, entrega de leite e reuniões comunitárias. Hoje a ocupação abriga cerca de nove coletivos de diferentes linguagens artísticas.

O distrito do Jaçanã integra a subprefeitura Jaçanã/Tremembé que tem mais de 290 mil habitantes e possui apenas quatro espaços de cultura, de acordo com o senso de 2017 da subprefeitura. Eles estão localizados entre a Fábrica de Cultura Jaçanã e o CEU Jaçanã, que são geridos por pastas administrativas do governo municipal e estadual.

"Agora que demos uma função social, que usamos o espaço, que criamos um espaço para se discutir os direitos através de cultura, querem tirar de nós"

Esse cenário faz do histórico de má administração de espaços públicos no território do Jaçanã uma razão coletiva para mobilizar moradores, interessados em cumprir um papel social que deveria ser do poder público.

“Esse espaço está sofrendo uma perseguição do governo no sentido de ser reintegrado, mas não faz sentido, porque era um espaço público que estava abandonado, sem função social, e agora que demos uma função social, que usamos o espaço, que criamos um espaço para se discutir os direitos através de cultura, querem tirar de nós, afirmando que não tem cultura aqui, fazemos ações aqui, não ficamos na teoria, movimentamos a casa”, denuncia Sergio La Paloma, um dos articuladores mais antigos da casa.

Com a forte intenção de ecoar a cultura da periferia, as atividades da ocupação vão além da cultura hip hop, fomentando também a organização de um espaço coletivo, gerido de forma autônoma por diversos grupos artísticos de múltiplas linguagens. Desta forma, o espaço dialoga e acolhe a comunidade, difundindo mecanismos para denunciar, discutir e compartilhar conhecimentos sobre o cotidiano de quem mora em territórios que são esquecidos diariamente pelas políticas públicas.


Foto: Gueto Cine

O incentivo a projetos culturais protagonizados por jovens

A casa dá visibilidade e espaço para os artistas do território ter condições de trabalhar e organizar suas apresentações e projetos, criando assim uma potente rede de referências positivas, que estimulam jovens do território a criar suas próprias iniciativas.

“Minha primeira apresentação foi feita no quintal da casa de uma amiga, até que nos convidaram para ocupar a casa. Antes ninguém conhecia meu trabalho, agora eu faço várias apresentações e as pessoas me conhecem. Estamos criando nossos próprios projetos, trabalhos e deixando nossa cultura viva”, afirma Gabriela Santos, 22, integrante do coletivo Sons Periféricos e uma das organizadoras do Sarau.

Ela aponta que a ocupação cultural contribui diretamente para a emancipação da juventude no território: “a casa é importante para mostrar que não estamos esperando que alguém faça um projeto pra gente lá no CEU. Estamos criando nossos próprios projetos.” 

 A opinião de Gabriela é compartilhada pela moradora Cileide Maria, 59, que assistiu o processo de transformação social fomentado pelos coletivos da ocupação. “A casa é um espaço de divertimento para as pessoas, que faz os jovens sair da rua e participar dos shows, aulas de música, dança e muda todo o bairro.”