REPORTAGEM

Moradores da zona sul e leste de São Paulo investem na produção de pipas para gerar renda

Para algumas pessoas, soltar pipa é uma brincadeira que remete à infância, mas para moradores da Cidade Ipava e São Miguel Paulista, a atividade também se tornou fonte de renda para a família.

Leia também:

amilinha Folhas Top acumula seguidores e admiradores de pipas em corte e recorte. Foto: Patricia Santos,
Camilinha Folhas Top acumula seguidores e admiradores de pipas em corte e recorte. Foto: Patricia Santos,

Em muitas quebradas a pipa está longe de ser algo que ficou no passado. A atividade tem capacidade de reunir de crianças a adultos que curtem a brincadeira. Para muitos, o compromisso com a pipa é coisa séria: vai da organização de equipes de pipeiros a venda do item.

Everton Souza, 35, morador do Parque Cruzeiro do Sul, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, é apaixonado por pipas desde criança. Em 2021, se juntou com cinco amigos do bairro e fundaram a Equipe Vem Pro Relo, que atualmente tem 27 integrantes e juntos saem com pipas da zona leste da cidade para todo canto onde possam participar de eventos.

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos.

“Fomos para Guarulhos em mais de 20 pessoas da equipe, com mais de 100 pipas, churrasqueira, tenda, carretilhas. Tinha um caminhão pra levar todas essas coisas. Pipa é o meu remédio antidepressivo, fiz muitas amizades que se não fosse a arte do pipa, jamais teria feito”, compartilha Everton.

A Equipe Vem Pro Relo durante evento em Guarulhos, que contou com equipes de todo o Estado de São Paulo. Foto: redes sociais.
A Equipe Vem Pro Relo durante evento em Guarulhos, que contou com equipes de todo o Estado de São Paulo. Foto: redes sociais.

José Gilvan, 38, conhecido como Tuca, é morador da Cidade Ipava, zona sul de São Paulo, e responsável por produzir as variadas pipas que a equipe Pipeiros do Ipava solta. Nordestino, Tuca conheceu a pipa quando chegou em São Paulo, aos 7 anos, e desde então, junto com os primos, passou a produzir pipas.

“A primeira pipa que fiz na vida fiquei quase dois meses soltando ela, colocava no alto e tirava com medo de perder. Eu não tinha condições para quase nada, minha mãe era sozinha pra cuidar de seis filhos. Agora já são quase 30 anos fazendo só pipa e a minha mãe acha maravilhoso”, conta Tuca que criou a Explosivo Pipas. 

Durante os festivais da Equipe Pipeiros do Ipava Tuca leva mais de 20 pipas e mostra um pouco do seu trabalho nos céus da zona sul. Foto: Flávia Santos.
Durante os festivais da Equipe Pipeiros do Ipava Tuca leva mais de 20 pipas e mostra um pouco do seu trabalho nos céus da zona sul. Foto: Flávia Santos.

Tuca intercala as produções de pipas e a jornada de trabalho na cozinha de um hospital. Para ele, as pipas são uma renda extra aliada a sua diversão.

O preço das pipas produzidas pelo Tuca variam de 7 a 20 reais, com tamanhos entre 50cm a 1m. A marca criada por ele, Explosivo Pipas, faz sucesso entre os pipeiros que gostam da arte de corte e colagem. 

“Eu invento os desenhos na hora. Por conta do trabalho, por dia eu consigo fazer entre 10 e 15 pipas. As de um metro consigo fazer cerca de 8 no dia, mas a maior que já fiz tinha 1,70m e foi para um festival. A minha pipa chegou em lugares que eu mesmo nunca fui”

conta Tuca.

No bairro do Jardim Letícia, distrito do Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, os pipeiros têm um ponto de encontro certo: todo domingo, exceto em dias de chuva, a Praça dos Sonhos está sempre cheia de moradores soltando pipas desde as primeiras horas do dia.

Sérgio Xavier é morador do bairro Jardim Letícia, e produz pipas há 14 anos. Ele é proprietário da loja Black Pipas, que fica em frente a praça. O negócio começou após saber que um conhecido estava vendendo todos os materiais que tinha e então resolveu comprar. Atualmente trabalha com quatro funcionários que produzem em casa as pipas vendidas na loja.

“Eu não tenho tanto ganho com a venda das pipas em si, cada uma sai a partir de 1 real, a mais cara custa 8 reais. O lucro vem das linhas e acessórios, [e] é o que paga as contas, paga os funcionários e me ajuda a levar comida para casa”

Sérgio Xavier, proprietário da Black Pipas,
Empreendedor há 14 anos, Black, como é conhecido por conta da loja, tem nas pipas a principal fonte de renda. Foto: Patricia Santos.
Empreendedor há 14 anos, Black, como é conhecido por conta da loja, tem nas pipas a principal fonte de renda. Foto: Patricia Santos.

“Aqui em dia de evento o que a gente mais vê são homens mais velhos, pais de família, até avô. A pipa salvou a vida desses caras, é o resgate da infância e viver aquilo que não pudemos ter naquela época”, afirma Sérgio sobre a movimentação dos moradores que soltam pipa na região.

Mulheres na produção 

Camila Borges, 36, é moradora do Parque Maria Luiza, distrito de Aricanduva, zona leste de São Paulo, e conta que o corte e colagem de pipas se tornou sua principal fonte de renda após surgir como válvula de escape durante a pandemia de covid-19.

Dividida entre as demandas da maternidade, casamento e trabalho, Camila produz as pipas da sala de casa e também ajuda outras mulheres que soltam e produzem pipas através dos tutoriais que compartilha nas redes sociais. Atualmente Camila conta com a ajuda de toda família para as produções e suas vendas acontecem de forma online pelas redes sociais, principalmente pelo instagram.

“Folhas mais simples consigo produzir umas 30 por dia, mas se forem essas absurdas que faço, ai é no máximo 10. Os preços variam de 7 a 30 reais, depende do trabalho que cada produção me dá”, conta Camila.

Além da produção das pipas, Camilinha, como é conhecida nas redes, entende que seu papel está além da venda de suas folhas de pipa, pois ao compartilhar seu trabalho atinge outras mulheres que se inspiram na sua produção dentro de um cenário composto majoritariamente por homens

“Quando entrei não via ninguém fazendo e logo depois surgiram algumas mulheres que faziam para ajudar os maridos. Depois elas começaram a ter como fonte de renda [e] terapia. Me pediam ajuda no chat e até começaram a ir nos eventos com eles e conheci algumas pessoalmente”

compartilha Camila Borges, moradora da zona leste.
Camilinha produz suas pipas em casa e tem nelas a sua principal fonte de renda. Foto: Patricia Santos.
Camilinha produz suas pipas em casa e tem nelas a sua principal fonte de renda. Foto: Patricia Santos.

No Instagram o perfil de Camila acumula mais de 30 mil seguidores e no Youtube são 10 mil inscritos. Para ela, ter o reconhecimento do seu trabalho em uma cultura que é majoritariamente masculina é muito importante.

“Eu conquistei esse espaço, mas ainda sim tiveram muitas situações chatas de machismo onde diziam ‘lugar de mulher é no tanque’ e ainda sim eu consegui me impor. É impagável ver a credibilidade e o respeito que conquistei”, conta. 

Autor

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

ASSINE NOSSA NEWSLETTER

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos.