Entrevista

Morador cuida de horta comunitária que alimenta 200 famílias na zona leste de SP

Na segunda entrevista da série Guardiões do Clima, conversamos com o Seu João, morador da Cohab Juscelino, responsável pela plantação e colheita da horta que fornece alimentos saudáveis no território.
Edição:
Evelyn Vilhena

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“Nunca faltou alimento por conta da terra”. É assim que João Tavares Maciel, conhecido no território como Seu João, 62, responsável pela horta orgânica do Cine Quebrada na Cohab Juscelino, na zona leste de São Paulo, lembra da infância em Pernambuco, estado onde nasceu.

Todos os dias, Seu João cuida da horta orgânica que fica na ocupação cultural Cine Quebrada. O plantio começou em 2020, para diminuir os impactos alimentares da pandemia de covid-19 na região. Atualmente, o corre do Cine Quebrada e do Seu João contribui na alimentação de 200 famílias da região.

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Esse cuidado com a terra não é algo novo para Seu João. Ele recorda que, aos 10 anos, começou a ajudar o pai com o trabalho na roça, em Caruaru. “Ele dizia que não tinha nada para dar que iria agradar a não ser serviço e fartura de alimento”, relembra.

“Tinha tudo que você pode imaginar. Mandioca, batata, feijão, café, banana. Tudo isso a gente tirava da própria terra. Além de comer, também fazíamos doaçãoes”. Começava ali sua relação com a terra, enquanto ainda morava na região nordeste do país.

Vindo para São Paulo, na década de 1980, Seu João sentiu o impacto da diferença socioambiental entre as regiões. “Quando cheguei na capital foi um pouco difícil porque sempre trabalhei na roça, aqui [em São Paulo] fui trabalhar numa fábrica. Até para respirar o ar é diferente”, conta.

Após alguns anos de trabalho, Seu João conseguiu comprar uma casa no extremo leste da capital paulista, local onde buscou criar caminhos para se reaproximar da terra. Para isso, recebeu ajuda de um antigo chefe que pagou o terreno à vista, para que pudesse pagar parcelado.

“Planejei meu terreno para conseguir plantar. Tenho seriguela hoje de uma muda que plantei lá naquela época, por volta dos anos 1990. [Tem] 30 anos que tenho ela.”

Seu João, aposentado e cuidador da horta orgânica do Cine Quebrada

Quando chegou na Cohab Juscelino, em 1988, estava em curso a expansão habitacional na periferia da zona leste. As primeiras quebradas tomavam forma ali no território. Pai de três filhos, Seu João viu de perto as mudanças estruturais no bairro. 

“Antigamente a gente podia plantar bem em frente à nossa casa. Hoje em dia não tem tanto espaço, porém, muitas pessoas conseguiram moradia, isso é muito bom por um lado”

Seu João, aposentado e cuidador da horta orgânica do Cine Quebrada

Relação com a terra

Já em São Paulo, Seu João começou a cuidar das praças que haviam próximas da sua casa. Cuidados que mantém até hoje em dia. Varre, recolhe entulho e coloca placas para alertar sobre o despejo ilegal de lixos. Desde que chegou na capital paulista, a preservação do ambiente no entorno é algo comum para Seu João.

“Quando cuidamos dessas praças melhoramos o oxigênio. Isso é bom para o próprio morador. Pode estar 30 graus, perto de árvore você não sente calor. Isso é bom para o meio ambiente. Em Pernambuco, isso era 10 vezes melhor.”

Seu João, aposentado e cuidador da horta orgânica do Cine Quebrada

Os alimentos da horta do Cine Quebrada compõem diversas cestas básicas que o coletivo entrega para famílias do bairro. Doações financeiras e outros alimentos ajudam no complemento da cesta. Mutirões e trabalhos voluntários são feitos para organização e distribuição dos alimentos.

O espaço é administrado por moradores de forma coletiva, com algumas pessoas à frente das articulações. Além dos alimentos, o Cine Quebrada também promove diversas atividades culturais, como grupo de dança, disponibilização de biblioteca e exibição de filmes para crianças.

O acesso à alimentação a partir da horta, que fornece alimentos para a população no território, é um dos exemplos de mobilizações coletivas que atuam diretamente em demandas ligadas aos direitos humanos. Ações que também lidam com as mudanças climáticas, que, entre outros impactos, refletem no acesso e produção dos alimentos em territórios vulnerabilizados.

Uma das principais referências culturais na quebrada, o movimento tomou forma quando passou a ocupar uma escola estadual que foi abandonada pelo governo do estado. O local é tido como símbolo de resistência e luta na região.

Incomodado com o descaso do poder público com as demandas da região, seu João abraçou a ideia da ocupação. Ele é conhecido no Cine Quebrada pelo seu conhecimento com o plantio e a vontade de fazer diferença no território, onde se dispôs a cultivar no espaço.

Desde então eu cuido, varro, coloco placa avisando que não pode jogar lixo. Me sinto muito orgulhoso por cuidar da terra. Sinto felicidade por acordar cedo e ter disposição pra [cuidar da] natureza”, conta Seu João.

De segunda à sexta-feira a horta é cuidada por seu João. Pontualmente, às 7 horas da manhã começa o trabalho. Colhe os frutos maduros, planta outras mudas e limpa a horta. Ao longo da semana ele recebe ajuda de diversas pessoas que também se articulam para a continuidade das ações.

Racismo ambiental e mobilização territorial

Seu João destaca que ainda há problemas ambientais na quebrada, como uma pedreira ativa que fica no mesmo bairro e causa tremores nas casas. Além de enchentes na região.

“Quando alagou encheu a padaria, os apartamentos do térreo dos prédios, casas desabaram. Ali é terra, quando chove essa terra cai no rio. Se a terra cai para o rio, o que acontece? Impede o curso da água”, ele completa: “Isso por conta da prefeitura, eles nunca limparam. Vieram cuidar agora [depois das enchentes]. Quando cheguei na quebrada esse rio já existia”, aponta.

Seu João conta que, se pudesse, mandaria um recado sobre a questão ambiental no território. “Sr. Prefeito, precisamos melhorar o ar, o tempo, as praças públicas, precisamos cuidar das terras peladas que não tem um pé de árvore”, alerta.

Essa reportagem foi contemplada pelo edital Bolsas de Reportagem Justiça Climática – AJOR e iCS: Justiça Climática e o Enfrentamento ao Racismo Ambiental no Brasil”, promovido pela Ajor, Associação de Jornalismo Digital e o iCS, Instituto Clima e Sociedade, no âmbito do The Climate Justice Pilot Project.

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