Entrevista

Liderança indígena reforça necessidade de “estudar a história do Brasil real”

Jera Guarani, líder indígena da aldeia Tenondé Porã, conversou com o Desenrola sobre a importância de se contar a história real dos povos originários.
Edição:
Ronaldo Matos

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A não romantização da dor e luta dos povos indígenas junto a disseminação de sua história contada por seus próprios protagonistas, esses são alguns dos caminhos apontados pela líder indígena Jerá Guarani, em entrevista ao Desenrola, sobre o fortalecimento e contribuição na luta dos povos indígenas.

Questões que afetam a população indígena são colocadas em foco principalmente em datas como o dia 19 de abril, data controversa que originalmente propõe celebrar o dia do “índio”, instituído em 1943, e que teve seu nome revogado em 2022, para o Dia dos Povos Indígenas. Sozinhas, datas que lembram a importância dos povos originários não mudam estruturas, por isso precisam ser acompanhadas de leis, políticas públicas e ações práticas para garantir a existência de uma população múltipla e que é parte ancestral do território.

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Para Jera Guarani, as datas que celebram os povos indígenas, reconhecendo a pluralidade dessa população, ampliam em partes a visão da sociedade: “traz um pensamento de que não existe só um tipo de indígena”, afirma, reforçando a necessidade de políticas efetivas.

Estima-se que esses números são maiores, pois diante do medo em se autodeclarar, entre outras questões, muitos indígenas podem não ter sido contemplados nos dados. Nesse sentido, surge a importância da autodeclaração para o próximo Censo do IBGE que está sendo realizado em 2022. Esses números podem servir como argumento para construção de políticas públicas pensadas para a população indígena, além de subsidiar discussões e movimentos no campo.

A líder indígena da aldeia Tenonde Porã, da etnia Guarani Mbyá, Jera Guarani contou, entre outras coisas, sobre a necessidade de estudar a história real do Brasil para entender a relevância histórica e ancestral dos povos originários. Confira:

Desenrola – Datas como o Dia Internacional dos Povos Indígenas ou o Dia dos Povos Indígenas representam algum avanço ou mudança (prática ou subjetiva) na vida dos povos originários?

Jera Guarani: Acho que ainda não. O 19 de abril, por exemplo, é uma data em que as escolas acham que tem que trabalhar a questão indígena, mas ainda assim de uma forma superficial e nada real, que só fortalece todos os anos dentro dessa linha de ação pedagógica, o preconceito que às vezes parece que nunca vai diminuir. No dia do “índio”, aí as pessoas falam de indígenas, de uma forma romantizada, que são bonitinhos, que cantam, que dançam, que vivem no mato, que pesca, que caça, e nunca trabalha a questão da diversidade, da luta pela terra, do descaso do governo, das políticas públicas em relação a esses povos que são originários e que tem direitos constitucionais antes mesmo da criação da constituição que temos aqui no Brasil. É como se os povos indígenas só fossem existir naquela data e depois nunca mais ninguém fala sobre isso.

Desenrola – Como a propagação de uma história única contada sobre a pluralidade dos povos reflete hoje na população?

Jera Guarani: Causa uma grande falta de conhecimento sobre os que ainda resistem e re-existem no seu belo, encantador e inspirador modo de ser, na sua maneira de falar, cantar e dançar, se movimentar e de se se elevar espiritualmente.

Desenrola – De que forma o processo educacional pode contribuir com a valorização da cultura e saberes dos povos originários?

Jera Guarani: De forma correta, não dá forma cheia de romantismo barato, preconceito pesado, arrogância de superioridade que são tratados os povos originários.

Desenrola – Existem pessoas que desassociam indígenas que vivem em contextos urbanos às populações indígenas. Como ressaltar essa ligação e ancestralidade?

Jera Guarani: Esse cenário para ser compreendido, se deve estudar a história real do Brasil. O fato é que esse Brasil teve um passado muito sombrio e em muitas regiões hoje ainda se repete a roubalheira dos territórios indígenas, os assassinatos, os conflitos que acabam terminando em mortes, inclusive de crianças, idosos, mulheres, etc. E ainda muitas pessoas que hoje vivem em cidades, ou em comunidades, como a do Pankararu no Real Parque, sofrem muito preconceito e alguns de indígenas que estão em suas terras, porque às vezes pensam que essas pessoas simplesmente escolheram morar em São Paulo em busca de trabalho e pronto.

Não se considera na verdade tudo o que aconteceu ali nas praias da Bahia, nessa parte do norte/nordeste que foi super pesado, a invasão e roubalheira de territórios, como para a grande maioria dos primeiros povos que teve contato com o não indigena invasor. Foram caçados e exterminados, proibidos de pronunciar sua língua materna, usados como mão de obra escrava, perderam completamente seus territórios, estupros aconteceram, que acelerou o processo de miscigenação. Então tem todas as questões e várias outras que fazem com que indígenas saiam da sua terra natal, do seu território de origem, às vezes simplesmente para continuar vivos.

Desenrola – De que maneira o contexto político reflete na garantia e/ou perda dos direitos e acessos dos povos originários?

Jera Guarani: Da maneira como colocamos um Presidente arrogante e preconceituoso como esse que temos que aguentar.

Desenrola – Como a população pode colaborar com a luta dos povos indígenas?

Jera Guarani: Estudar a história do Brasil real, em sua grande maioria contada pelos próprios. A internet já é uma boa ferramenta que possibilita estudar bem, mesmo sem ir para a aldeia. E dessa forma ficar atento para qualquer chamada de apoio, para defender a natureza.

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