Entrevista

Jovem carioca usa NFTs para fazer ações solidárias no Morro Santo Amaro

Edição:
Ronaldo Matos

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A partir da criação e comercialização de NFTs, a iniciativa do artista visual Gean Guilherme, está transformando criptomoedas em recursos para doação de alimentos em favelas do Rio de Janeiro. 

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Ele se inspira na realidade e na cultura das favelas para criar suas obras em NFTs. (Foto: Arquivo Pessoal)

Durante a pandemia de Covid-19, Gean Guilherme, 22, morador do morro Santo Amaro, favela localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, uniu a fascinação e criatividade para criar artes digitais em formato de NFT´s, para comercializar essas criações em plataformas de criptomoedas. Metade do recursos arrecadado era convertido em dinheiro para comprar cestas básicas doadas aos moradores do território onde ela mora.

De todos as NFT´s produzidas pelo artista, a que mais rendeu lucro foi a arte tridimensional “Menor portando – Tecnologia”, que na época foi vendida por 500 tezos, uma criptomoedas que após ser convertida para essa transação chegou a quase 2 mil dólares na época. Essa venda ocorreu num momento que Gean não estava conseguindo faturar nada para tocar as ações sociais.

“A primeira ação foi para a compra de alimentos, a gente conseguiu arrecadar em criptomoedas e transformar em cestas básicas e foi aí que percebi que era possível fazer alguma coisa com aquilo ali”

Gean Guilherme, 22, é artista visual e morador do morro Santo Amaro, favela localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro. 

A partir desta ação solidária, ele criou projeto SocialCriptoart, iniciativa que reúne as artes visuais tridimensionais criadas pelo artista em uma plataforma digital, onde o público pode se cadastrar para adquirir as suas criações por meio de criptomoedas, que são fontes de recursos também para realizar a distribuição de alimentos nas favelas.

“E aí qual é o processo: quando você vende uma parada você recebe em criptomoedas, e aí existe um processo de conversão, de transformar essas moedas em reais para poder sacar”, explica o jovem.

Segundo o designer, a conversão das criptomoedas para o valor em real é quase que instantânea, no qual ele envia o valor para a corretora responsável, através de um cadastro com seus dados, e a partir do momento que o contato e confirmação são feitos, a corretora cobra uma taxa de movimentação, mas logo em seguida transfere o valor via pix ao destinatário.

Por ainda ser um assunto de difícil compreensão imediata, o artista e designer diz que seu foco é o social, mas não somente falar de tecnologia futurista para todos, mas também explicar, educar e formar o público jovem sobre tecnologia futurista e usar esse recurso na perspectiva de um olhar periférico.

“Nosso maior objetivo é a educação, porque a galera nem imagina o que é e acaba colocando muita coisa na cabeça, de acabar com o mundo, que tudo é uma farsa e acabam não tendo um olhar pra esses usos da tecnologia, um olhar social”, diz o artista.

Gean Guilherme e seus apoiadores entendem e consideram delicado trazer isso para a periferia, pois essa realidade é um lugar esquecido por políticas públicas, mas com seu trabalho tem buscado pelo menos tentar mudar a perspectiva da juventude da quebrada, para ela voltar a sonhar, fazendo surgir oportunidades para a população.

“O foco é criar perspectiva nesses lugares que a gente nem sempre sabe se vai ficar vivo, a criação de futuro da favela com sensibilidade pode movimentar o morro”

Gean Guilherme criou  uma  plataforma digital que converte a venda de NTF´s em alimentos para moradores das favelas.

Neste contexto social não falta inspiração para Gean criar artes impactantes que retratem a realidade da favela. Um dos trabalhos que o jovem artista se orgulha de ter produzido é uma releitura em NFT da capa do álbum “Sobrevivendo no Inferno” do Racionais MC´s. A venda desta criação resultou em doações de recursos em dinheiro para o Instituto Ademafia de Cultura e Esporte, do bairro da Glória, também localizado na zona sul do Rio.

 Futurologia na favela

Ainda pouco difundida nas periferias e favelas do Brasil, a sigla NFT significa tokens não fungíveis, uma imagem digital única e exclusiva criada com recursos software e plataformas digitais na internet que é protegida por meio de códigos de criptografia, método de identificação que impede a criação de cópias.

“Basicamente a gente vai transformar uma arte em um token, por exemplo, quando eu tenho esse boné aqui, é algo muito específico, sabe? É esse boné, tem as marcas de uso, porque eu usei, então é um boné único”, explica o jovem sobre a tecnologia futurista e como são criados os tokens 3Ds.

Gean acrescenta que esse formato tecnológico conseguiu traduzir o conceito através da criptografia, que significa a garantia de segurança dessas mídias, onde ele criptografa em blocos específicos essas informações, que são armazenadas para sempre de forma totalmente pública e qualquer pessoa pode acessar e validar se é verdadeira ou não, possibilitando a partir dessas ferramentas o novo conceito de criação da internet.

Para se apropriar ainda mais sobre o assunto, o jovem de 22 anos investiu tempo e dedicação para estudar sobre os impactos da futurologia na favela, um campo de pesquisa sociológica que busca identificar tendências de comportamento da sociedade.

Em meio a esse processo, Gean conseguiu definir uma série de projetos de futuro para ampliar a popularidade dos NFT´s nas favelas do Brasil, bem como da sua atuação como um artista visual que usa tecnologias tridimensionais para desenvolver novas formas de enxergar a favela.

Um desses projetos consiste na criação de uma loja virtual de NFT´s que funcione como um Marketplace, visando reunir obras de artistas brasileiros e estrangeiros, para vender esses tokens que resultarão em benefícios sociais voltados para os moradores das periferias.

Realidade 

A vivência profissional e cultural para produzir esse tipo de arte digital custou caro para Gean. Mesmo com tudo aparentemente dando certo, ele percebeu num certo momento de todo esse trabalho que suas atividades estavam cansando e tirando a possibilidade dele fazer suas artes na mesma frequência, o que fez ele refletir e pensar na possibilidade de convidar outros artistas e designers para somar com ele.

“Se eu não tiver tempo pra fazer as artes, não vai ter venda e não vai ter dinheiro pra projeto nenhum, e aí o que eu pensei foi transformar. Ao invés daquilo vir só de mim, pensei que pudesse surgir de várias outras pessoas pra poder descentralizar essa responsabilidade social que eu estava agarrando”, argumenta.

Com a ajuda de outros artistas, ele teve a oportunidade de reunir uma série de novos tokens, para que fossem vendidos e seus valores serem distribuídos diretamente para iniciativas sociais das favelas e periferias.

“É um jogo sinistro, mas é maneiro, porque deu independência para muitos artistas, basicamente eu só usava meus 3D’s para postar no Instagram e ganhar like, hoje em dia coloco elas nas plataformas e consigo tirar uma grana”, finaliza.

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