ENTREVISTA

Internet precária nas periferias impede moradores de pesquisar candidatos às eleições

Edição:
Ronaldo Matos

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 Com acesso limitado à internet, moradores não conseguem pesquisar sobre candidatos, propostas de governo e checar a veracidade de notícias sobre eventuais atos de corrupção.

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Os preços dos planos de internet móvel levam o baiano Auderlei Teixeira a consumir notícias sobre candidaturas somente pela televisão. (Foto: Flávia Santos)

Como os moradores das periferias que não têm acesso pleno à internet irão decidir em quem votar nas eleições de 2022? Essa é a questão que vem atormentando o baiano Auderlei Teixeira, 45, homem negro, migrante nordestino, e morador da Cidade Ipava, Zona Sul de São Paulo, que votou pela primeira e última vez em 1993.

De lá pra cá, Teixeira conta que se sente arrependido de não ter votado nas eleições seguintes, mas que fará diferente esse ano. “Transferi meu título da Bahia pra cá, quero muito votar esse ano”, afirma.

“O governo poderia criar um projeto para facilitar a internet para todos”

Auderlei Teixeira, 45, é pai de família, migrante nordestino e morador da Cidade Ipava, bairro da Zona Sul de São Paulo. 

Mesmo se sentindo novamente motivado em votar nestas eleições, Auderlei diz que encontra muitas dificuldades para ter acesso às informações sobre propostas dos novos candidatos, entender o por que muitas obras começam nesta época do ano, e revela o medo de não conhecer de fato os candidatos antes de votar, e acabar escolhendo qualquer um deles.

“O governo poderia criar um projeto para facilitar a internet para todos, e quando chegar nessa hora, as pessoas terem condições de acessar e acompanhar a política”, conta o pai de família, que só consegue acessar a internet pelo celular quando está a caminho do trabalho. 

Com pouca vivência em consumir notícias usando o celular, Auderlei não acha seguro se informar por meio de plataformas digitais. (Fotos: Flávia Santos)

A Cidade Ipava, bairro onde Auderlei mora, é um território que pertence ao distrito do Jardim Ângela, localizado na zona sul de São Paulo, onde 60% da população se autodeclara preta ou parda. Neste território, segundo levantamento do Mapa das Desigualdades da Rede Nossa São Paulo, há apenas 1,4 antenas de internet móvel para cada 10 mil habitantes, enquanto no Itaim Bibi, região nobre da cidade, existem 49,8 antes de telefonia móvel para o mesmo montante de moradores.

A Associação Brasileira de Infraestrutura para Telecomunicações (ABRINTEL) recomenda que as operadoras disponibilizem uma antena de telefonia móvel para acesso à internet para cada 2.200 pessoas.

Outro aspecto cruel citado por Auderlei é o preço dos serviços da internet móvel, que em meio a inflação nas alturas compromete o poder de compra do morador da quebrada. “Eu acho que isso tudo vai impactar sim, os planos de internet são caros pra gente conseguir pagar”, diz o morador.

Como resultado deste processo de não ter acesso à internet garantido no bairro onde mora, o morador recorre a televisão, para assistir telejornais em canais de televisão como Globo e Record. Auderlei diz acreditar mais nas notícias veiculadas nos programas que assiste do que nos conteúdos disponíveis na internet, onde, segundo ele, é mais fácil de encontrar fake news.

Sem esperanças 

Em janeiro de 2022, a cidade de Franco da Rocha ficou conhecida nacionalmente por conta dos temporais que atingiram o município causando enchentes, deslizamentos de terras, mortes de moradores e destruição de casas. Um dos bairros mais atingidos pelas chuvas foi o Lago Azul, onde mora Emilly Cavalcante, 20, jovem que vem enfrentando uma série de barreiras digitais para acessar a internet e realizar pesquisas sobre os candidatos para as eleições deste ano.

Emilly considera que o acesso à internet de qualidade presente em todas as casas das periferias ajudaria a melhorar na tomada de decisão para escolha dos candidatos, pois para ela, essa é a eleição que representa a única esperança para mudanças positivas no país.

“Acredito que deveria ser um requisito básico ter uma internet de qualidade em todas as casas, pois com a mesma poderia crescer um interesse mais intuitivo de pesquisar partidos, candidatos e situações dos mesmos”, afirma.

“O sentimento que cabe a mim é de desesperança”

Emilly Cavalcante, 20, é moradora do bairro Lago Azul, um dos mais afetados pelos temporais que atingiram a cidade de Franco da Rocha em janeiro detse ano.

Segundo o Mapa de Antes de Internet Móvel da Conexis Brasil, entidade setorial que reúne as principais empresas de telecomunicações no Brasil, para promover estudos e debates sobre melhorias na infraestrutura de conexão e comunicações no Brasil, a cidade de Franco da Rocha possui apenas 48 antenas de internet móvel, para atender uma população de mais de 130 mil pessoas.

A operadora Vivo conta com 12 antenas de distribuição de sinal de internet móvel. Esse é o mesmo número de estações de distribuição de internet móvel da Claro. Já a TIM conta com 24 antenas, representando 50% dos serviços de internet móvel no município. Diante destes dados, o bairro Lagoa Azul, onde Emilly mora não possui antes de celular, um fato que vem comprometendo a qualidade do sinal e o interesse da moradora pela política.

Ela votou pela primeira vez em 2020, nas eleições municipais, mas hoje em dia, o sentimento de Emilly em relação à política é bem diferente em relação à época do primeiro voto. “O sentimento que cabe a mim é de desesperança”, desabafa.

Para a jovem, debater política com amigos e família não faz mais parte do seu repertório de assuntos cotidianos, que ela gosta de abordar. “Não é o meu assunto preferido, pois cada um tem seu ponto de vista, vivências e nada está ao nosso favor”, argumenta.

A credibilidade da televisão 

A partir de um levantamento de dados que entrevistou 50 moradores de periferias e favelas da Região Metropolitana de São Paulo, o Desenrola apurou como as populações que convivem com um precário acesso à internet estão desmotivadas a se engajarem no debate político para escolher novos representantes nas eleições de 2022.

Uma das pessoas respondentes deste levantamento de dados é a jovem Emilly Cavalcante, que reside com a família no bairro Lagoa Azul. Mesmo com a qualidade da internet deixando a desejar, Emilly tenta acessar algumas plataformas digitais para pesquisar o que está acontecendo com a política no país, porque ela não acredita muito no que os telejornais noticiam.

“O conteúdo que passa na televisão não é auto explicativo, então não auxilia em muita coisa”

Emilly Cavalcante tem 20 anos e mesmo desmotivada com a crise política no país, ela vai votar nas eleições de 2022.

Segundo a pesquisa publicada pelo Poder Data em outubro de 2021, a televisão é o meio de comunicação mais utilizado por 40% dos brasileiros, já a internet é a referência para acessar informação para 43% da população.

“O conteúdo que passa na televisão não é muito auto explicativo, então não auxilia em muita coisa, então eu acompanho canais no YouTube”, conta a moradora, complementando que esses canais são fontes confiáveis de informações e abordam notícias sobre os candidatos.

Vivendo em outro contexto de periferias urbanas na cidade de São Paulo, a mãe e dona de casa, Daniela dos Santos, 37, moradora do Jardim Aracati, zona sul de São Paulo, têm bastante semelhanças com os pontos de vista da jovem Emilly de apenas 20 anos.

“A televisão passa apenas os candidatos de maior partido”

 Daniela dos Santos, 37, é eleitora há 20 anos e moradora do Jardim Aracati, Zona Sul de São Paulo.

Para ela, a televisão também é um meio de informação com pouca credibilidade, que dá destaque somente aos partidos de maior expressão. “Muitas vezes a televisão passa apenas os candidatos de maior partido”, diz.

A alternativa segundo Santos é pesquisar na internet não de forma aleatória, mas quando já possui um candidato em mente. “Procuro bem pouco informações sobre política na internet, só procuro saber quando escolho um candidato e vou pesquisar sobre ele”, conta.

Mesmo com essa escolha de pesquisar candidatos na web, Daniela explica que a o serviço de internet que possui instalada em sua casa é bem ruim, e diante desta situação, as informações acabam não chegando facilmente até ela, fato que tem se tornado um dos maiores motivos para ela não ter interesse em discutir política com familiares e vizinhos.

De acordo com o estudo intitulado como Panorama Político 2022: opiniões sobre a sociedade e democracia, elaborado pelo Instituto DataSenado, com apoio da Universidade de Brasília (UnB), pelo menos 72% dos brasileiros já viram, leram ou ouviram notícias de origens políticas e que desconfiaram serem de fato verdadeiras.

“O sentimento que tenho sobre a política é de frustração e raiva”

 Daniela dos Santos está desmotiva a discutir os rumos da política no Brasil com parentes e amigos.

Após 20 anos de ter a primeira experiência de votar, Santos relata que não sente muito apego para discutir política com amigos e parentes. “As pessoas às vezes só querem atacar e não veem que os maiores partidos têm os piores políticos, e para mim muitos deles são manipulados”, relata a dona de casa.

“O sentimento que tenho sobre a política é de frustração e raiva, a sensação que tenho muitas vezes é de caos”, revela a dona de casa.

De olho no futuro dos filhos, que garanta o acesso à educação e saúde de qualidade, ela espera conseguir ter acesso à internet de qualidade para tentar encontrar bons candidatos que de fato a representem.

“O acesso à internet nos dias de hoje é essencial para tudo, principalmente no momento em que vivemos, quanto mais informações de qualidade e de boa procedência, melhor as pessoas podem tomar suas decisões”, conclui a moradora do Jardim Aracati.

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