Reportagem

Hamburgueria surpreende clientes com sorteio de leite e óleo de cozinha no Capão Redondo

Edição:
Ronaldo Matos

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Apesar de cômica, a ação faz parte de um movimento contra a carestia e chama a atenção para a insegurança alimentar enfrentada por 33,1 milhões de brasileiros.  

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Durante transmissão ao vivo no Instagram, Carlos Rogério, proprietário da hamburgueria Fogo de Rua, anuncia a ganhadora do litro de leite. (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde julho deste ano, a Hamburgueria Fogo de Rua, localizada no Jardim São José, no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, tem realizado sorteios de alguns itens da cesta básica entre os clientes do estabelecimento como forma de fazer uma crítica social e satirizar o alto preço dos alimentos encontrados no mercado.

O proprietário da Fogo de Rua, Carlos Rogério Souza, 39, morador do Capão Redondo, conta que a ideia de realizar os sorteios surgiu após uma ida rápida ao supermercado da região para comprar pão para o café da tarde da família. O valor da compra de um litro de leite, dez unidades de pão francês, e duzentos gramas de mortadela foi de R$16 reais.

“Hoje um pai de família que é assalariado tem que fazer uma escolha: ou ele compra o pão, ele almoça ou ele janta. Com esses dezesseis reais eu poderia ter comprado 1kg de frango à passarinho ou filé de frango. Infelizmente é um problema econômico que a região está enfrentando e foi dessa indignação que veio a ideia de fazer, com sarcasmo, essa crítica ao que vem ocorrendo”

Carlos Rogério, empreendedor e idealizador do sorteio. 

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Foto: Rebeca Motta

Uma das ganhadoras do sorteio foi a Cristiane Lauton, 38, moradora do Jardim Copacabana. Premiada com um litro de leite, a administradora de empresas afirma que ficou surpresa com a ação da hamburgueria. “Achei o máximo a ideia da Fogo de Rua em sortear alguns alimentos como prêmio ironizando os preços do mercado. Recebi meu litro de leite, mandei um boomerang (vídeo curto do instagram) agradecendo e ainda dou risada do fato”, conta.

Carlos Rogério conta que a ideia foi bem absorvida pelos clientes e amigos. O empreendedor diz que a brincadeira é levada a sério com direito a fogos de artifício, carro de som e transmissão ao vivo pelas redes sociais da Fogo de Rua, além da entrega do prêmio em domicílio.

Ao todo ,72 clientes participaram dos dois sorteios realizados até o momento que premiou um litro de leite e um litro de óleo de soja.  “A reação dos clientes era cômica. Até quem não consumia na loja virou cliente para participar da ação porque a galera sabe que tá tudo caro”, diz o empreendedor.

Foto: Rebeca Motta

Gastronomia na periferia 

A Hamburgueria Fogo de Rua começou com um trailer que era 90% reciclado e com o sonho do Carlos, que sempre morou nos entornos do Capão. Com muita luta ele conseguiu comprar o terreno que abriga o espaço físico da loja.

A decoração segue a tradição antiga feita em 70% de material reciclado. O negócio expandiu nos últimos anos e além da hamburgueria é também um bistrô, que oferece ao público comida de qualidade, como risotos, moquecas, bacalhau, entre outros pratos servidos no local.

“Se você for nos restaurantes chiques, nomeados, quem vai estar cozinhando são os filhos de baianos, nordestinos, é o cara que mora na quebrada, então porque não trazer essa gastronomia pra periferia? Essa é a ideia do Fogo de Rua”, afirma o empreendedor.

Ações contra a carestia 

Em uma pesquisa realizada pela nossa equipe de reportagem, verificamos que o preço do óleo de cozinha e o litro do leite, produtos sorteados pela hamburgueria, variavam de R$ 10 a R$ 15 nos meses de junho e julho, em comércios das periferias da zona sul de São Paulo, Taboão da Serra e Embu das Artes.

No primeiro trimestre de 2022, a Rede PENSSAN, divulgou os dados da nova edição da pesquisa Olhe para a fome, que aponta para o aumento da insegurança alimentar na casa dos brasileiros.

Segundo o relatório, o número de famílias sem ter o que comer todos os dias saltou de 19,1 milhões de pessoas em 2021 para 33,1 milhões de pessoas em 2022. São 14 milhões de novos brasileiros sem o direito à alimentação garantido em pouco mais de um ano.

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“Substituo por salsicha”: moradores relatam insegurança alimentar em crianças nas favelas da zona oeste de SP

Carestia, desemprego e ausência de políticas públicas aumentaram a insegurança alimentar de famílias, moradores de favelas da zona oeste de São Paulo. Ações solidárias minimizam os impactos da fome, mas não resolveram o problema que permanece afetando crianças e adultos da região.  


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Em meados da década de 70, o Brasil também passava por um momento de alta da inflação impulsionada pela Ditadura Militar. Nas periferias da Zona Sul de São Paulo, um grupo de mulheres se organizou para criar o Movimento Contra a Carestia, a ação ficou conhecida como um dos maiores movimentos populares do país e coletou, de porta em porta, mais de 1 milhão e 300 mil assinaturas num abaixo-assinado contra o alto custo de vida na época.

O economista e pesquisador do Centro de Estudos Periféricos[2] [3] , da Unifesp, Cleberson da Silva Pereira, explica que o aumento no preço do óleo de cozinha está ligado à diminuição da oferta do petróleo, isso porque o óleo de soja também pode ser utilizado para produzir biocombustíveis, uma opção mais barata em relação a gasolina e ao diesel.

No caso do leite, o professor explica que o aumento desse item se dá porque o preço da ração das vacas também aumentou e consequentemente ficou mais caro para o produtor manter os animais, e o custo dessa demanda foi, inevitavelmente, repassado para o consumidor final.

De um modo geral, mudanças climáticas, alto custo de produção, diminuição da oferta de matéria prima por causa da guerra entre Rússia e Ucrânia têm impactado o preço desses produtos.

“Além das causas já citadas para o leite e óleo de soja, a cesta básica aumentou porque o preço dos combustíveis estava muito alto, especialmente o óleo diesel. Esse item impacta toda a cadeia logística e o preço final dos produtos. Quem acaba sofrendo com o aumento do preço dos itens da cesta básica é a população que ganha até 3 salários mínimos preferencialmente”, finaliza o economista.

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