Opinião

Guilhotina educacional: estuda quem pode, come quem trabalha

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A implantação de uma escola de ensino integral precisa integrar sociedade civil, pesquisas sobre o público e políticas públicas que correlacionam, caso contrário será um desastre.

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Um dos primeiros textos desta coluna buscou tratar sobre educação de qualidade, contudo naquela mesma época eu havia começado a escrever um texto acerca do NOVOTEC, texto esse que nunca publiquei. Ao reler meus arquivos antigos e tentar abrir o debate sobre a PEI (Programa de Ensino Integral) decidi que era necessário procurar tratar dos interesses políticos e da ausência do reconhecimento da realidade da maioria dos jovens brasileiros.

A ideia da escola de ensino integral é incrível, não posso aqui negar que é lindo pensar em adolescentes que podem estudar o dia todo, que possuem matérias novas e inovadoras numa grade escolar e muitas atividades extras.

Contudo a PEI aplicada em São Paulo não é nada disso, não inova já que agrega e alinha suas ideias a um modelo de educação para emprego da década de 90 (ensino técnico), não traz atividades extracurriculares pensadas no desenvolvimento do adolescente e nem refaz a estrutura escolar que é por vez extremamente desconfortável para estar durante longos períodos (e não tô falando de dar alguns notebooks e colocar rede wifi viu?).

Mas aqui não quero focar em tratar da mera estrutura física ou dos desdobramentos pedagógicos da PEI, e sim discorrer um pouco sobre como uma escola de ensino integral não cabe na realidade do adolescente brasileiro e implantar isso como política pública única e solitária gerará exclusão escolar (evasão ou abandono como o governo costuma intitular).

Durante meu estágio escolar realizado num período entre fim de fevereiro e maio vivenciei um pouco do desespero dos alunos sobre as mudanças propostas, como fiz estágio numa escola de ensino regular que estava começando a ter algumas coisas relacionadas a PEI, vi a entrada de muitos alunos novos vindos de outras escolas para tentar “fugir” do ensino integral e terminar o ensino médio.

É fato que boa parte dos nossos adolescentes precisam trabalhar e estudar e que parte destes estão em situações de trabalho precarizadas, segundo um estudo publicado na Campanha da Fundação Abrinq com alertas acerca do trabalho infantil.

Só em 2020, cerca de 556 crianças e adolescentes foram vítimas de acidentes de trabalho, que vão desde quedas até amputações. Destas, 46 vieram a falecer. O Trabalho Infantil a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Trimestral realizada pela Fundação Abrinq, com base nos dados do IBGE.

Claro que no mundo ideal ninguém quer imaginar uma adolescência atravessada pelo trabalho, mas se nosso país legislou um dito “jovem aprendiz” é porque muitas vezes esses adolescentes por diversos motivos entram no mercado de trabalho, a questão é qual mercado os aguarda? O Estado está os apoiando nessa entrada? Trabalhar significa perder o direito ao estudo?

Então já que vamos criar o mundo ideal, estes jovens vão ter que largar a escola? Pois não vivem o ideal? A PEI além de negar a dimensão de vida dos nossos jovens brasileiros, ainda é implantada após uma pandemia que deixou várias famílias devastadas em diversas dimensões de suas vidas.

Nisso, adolescentes que trabalham desde dos 14 anos (oficialmente) terão que escolher: trabalho ou estudo? E dentro disso vai pesar aquilo que dará mais fome.

A implantação de uma escola de ensino integral precisa integrar sociedade civil, pesquisas sobre o público e políticas públicas que correlacionam, caso contrário será um desastre.

Será que nossos jovens sempre sonharam com isso? Com educação física às 7h da manhã sendo que suas aulas ocorrem à tarde? A escola antes de ser um lugar de “moldar” trabalhadores (o que foi injetado na escola perante ao modelo social), é um dos lugares onde ocorrem as primeiras interações sociais, as trocas, os desdobramentos de descobertas, é um local rico e amplo, proveitoso em produzir grandes mentes caso as deixe brilhar.

E uma realidade onde os interesses desses indivíduos não são ouvidos é uma demonstração da desimportância do papel do jovem no Brasil dentro do recorte do debate, não existe um acolhimento.

A questão aqui não é o que poderia dar certo, mas sim o que já está dando errado.

O fato da PEI ser em ensino integral não é um mal, como disse inicialmente é incrível pensar sobre e inclusive no nordeste houveram algumas movimentações nesse sentido que foram mais bem pensadas e implantadas, contudo qual a realidade dos nossos jovens? Nossos jovens estão conseguindo ser o que são? É possível estudar sem estabilidade de vida? Uma política pública não pode ser feita sozinha, ainda mais quando se trata de educação.

Políticas públicas de educação devem ser para benefício populacional e não eleitoral, com o passar dos anos a frase de Darcy Ribeiro se torna mais real: “A crise na educação não é uma crise e sim um projeto”.

Pensar em educação é uma urgência comunitária e social, mais do que nunca não é sobre o que eu acredito e penso, é sobre os impactos que as políticas têm na vida das pessoas, é sobre o desenvolvimento de indivíduos com direitos.

A criança tem cem linguagens (e depois, cem, cem, cem), mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura separam-lhe a cabeça do corpo.
Dizem-lhe: de pensar sem as mãos, de fazer sem a cabeça, de escutar e de não falar,
De compreender sem alegrias, de amar e maravilhar-se só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe: de descobrir o mundo que já existe e, de cem, roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe: que o jogo e o trabalho, a realidade e a fantasia, a ciência e a imaginação,
O céu e a terra, a razão e o sonho, são coisas que não estão juntas.
Dizem-lhe: que as cem não existem. A criança diz: ao contrário, as cem existem.

Loris Malaguzzi

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