ENTREVISTA

“É um movimento de força feminina”: Coletivo fomenta presença de mulheres no grafite

O coletivo Grapixurras das Minas promove encontros entre mulheres que se expressam através do grafite e busca garantir um ambiente seguro para colocarem sua arte no mundo.
Por:
Samara Silva
Edição:
Evelyn Vilhena

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Palpites, abusos, desrespeito e comparação são algumas das situações que mulheres enfrentam ao grafitar nas ruas. Situações que atrapalham não só as criações expostas nos muros, mas que também as desestimulam a saírem dos seus locais seguros.

Com o objetivo de promover espaços acolhedores de troca e encontros onde mulheres que fazem todo tipo de arte de rua possam se expressar, surge o Grapixurras das Minas. Em 2017, enquanto Iara Lopes, conhecida como Yaya e Paloma, conhecida como Sujeitas, pintavam um muro, também compartilhavam seus sentimentos sobre a falta de mulheres nos eventos de grafite, e desse papo surge a coletiva.

“Não é apenas para mulheres que já possuem técnicas. É as minas que estão começando e querendo conhecer outras minas. É para promover essa troca de conhecimento, amizade e união entre as mulheres no grafite.”

Iara Lopes (YAYA), 29, geógrafa, moradora de Osasco, região metropolitana de São Paulo e organizadora do Grapixurras das Minas.

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O nome da coletiva foi sugerido por Paloma (Sujeitas) e faz referência aos eventos de grafite que já aconteciam e eram organizados majoritariamente por homens. A diferença é que buscaram deixar explícito que a iniciativa é voltada apenas para mulheres. “O ‘das Minas’ é para trazer o recorte e deixar claro que era só para mulheres colarem e pintarem”, diz Iara Lopes (YAYA).

Formado de forma espontânea através das mulheres que colavam para grafitar e procuravam no que poderiam contribuir para agregar na construção da coletiva, atualmente o Grapixurras conta com mais três organizadoras oficiais além da Iara e Paloma: Riane (Sister), Cintia (Bonnie) e Niala (Nica), e apoio de Paula (Bruxa) e Mica (Micaguei).

O primeiro evento oficial do Grapixurras das Minas aconteceu em 2018, onde reuniu cerca de 15 mulheres para grafitar um escadão no Jardim Celeste, região do ABC Paulista. “Foi uma sintonia gostosa, as minas já pegaram a maior amizade. Voltamos todas juntas. O primeiro logo deu a entender que ia dar tudo certo”, afirma Iara Lopes (YAYA), uma das organizadoras do evento.

Camila Coelho, conhecida como Nega, é professora, moradora da região oeste de São Paulo, já participou de várias edições dos encontros e afirma que para além de técnica, elas podem trocar entre si sobre suas vivências.

“Rola troca de tinta, de foto, de sticker, rola troca de arte, de ideias. Quando a gente tá num espaço que se sente livre, a gente se sente mais segura de dividir, colaborar e entregar para as pessoas que estão ao redor o que a gente tem de melhor. Tudo feito com amor.”

Nega, professora, já participou de várias edições do Grapixurras das Minas.

Apoio de políticas públicas

Após 5 anos de existência realizando rateios entre as participantes para subsidiar os eventos, em 2023, o coletivo foi aprovado no Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), lei de incentivo a projetos culturais de São Paulo. A 20ª edição do evento das minas, que aconteceu em janeiro de 2023, foi o primeiro encontro com apoio da política pública e reuniu cerca de 200 grafiteiras, em Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo.

Esse foi o primeiro encontro em que o Grapixurras das Minas conseguiu disponibilizar kits com spray para alguns participantes pintarem durante o evento.

“Agora a gente consegue fornecer kits de lata para as primeiras minas [que se inscrevem via formulário] e ver [que] as mina não precisar tirar do próprio bolso para comer um almoço da hora”, aponta Iara Lopes (YAYA), ressaltando que durante o dia também teve a possibilidade de rolar o “churrasco das minas”, que contava com opção vegana e ainda sorteios com artes levadas por algumas participantes.

O pouco apoio e políticas públicas com foco em espaços para essa troca entre as mulheres afeta não apenas a produção dos encontros, mas também inviabiliza a locomoção de muitas mulheres, já que a maioria mora em diferentes territórios periféricos da cidade.

É o caso da rapper e grafiteira Pamela Miranda, 26, conhecida como Miranda, que mora em Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo, e geralmente precisa pegar dois ônibus, metrô e trem para chegar aos locais do evento: “Eu estando dentro do metrô vou para qualquer lugar, é grana [a questão]”, afirma.

Miranda ficou sabendo do Grapixurras das Minas através de uma conhecida e já chegou a ir em mais de 10 edições dos encontros. Segundo ela, os eventos contribuíram para aumentar a frequência com que coloca sua arte na rua e ainda a possibilidade de pintar para além da sua quebrada.

“Eu não tinha uma frequência tão alta. Pintava mais os mesmos lugares, mas o Grapixurras das Minas tirou esse limite de espaço. Me fez conhecer outras manas e pintar em outros lugares, isso é dahora”, conta Miranda.

Espaço que acolhe e fortalece

Miranda afirma que uma das diferenças entre eventos organizados por homens e o Grapixurras das Minas, é o acolhimento e a importância da sua presença para outras mulheres, as quais ela considera suas irmãs de rua. Ela conta que já chegou a ir para o encontro sem tinta e foi fortalecida por diversas minas no local.

“Aqui você sabe que sua presença é importante para outras pessoas, elas fazem questão da sua presença. Você tá sem tinta? Cola. Tá sem dinheiro? Vou te mandar a condução. É um movimento de força feminina”

Miranda, rapper, moradora de Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo.

Para garantir a presença de grafiteiras que são mães, além da alimentação são realizadas atividades e oficinas com foco nas crianças, para que possam se entreter e dar a possibilidade das mães conseguirem pintar com mais tranquilidade.

Camila Coelho (Nega), 35, é professora, moradora do Butantã, região oeste de São Paulo, e mãe. Ela cola no Grapixurras das Minas desde a 7ª edição e conta que já deixou de participar de eventos por não ter rede de apoio pessoal ou no local.

“Geralmente em rolês organizados por pessoas do sexo masculino eles não pensam na acolhida da criança. Nem sempre os muros são fáceis de administrar, porque é na rua, tem carro passando, a criança quer correr e acaba que você não pinta”, aponta Nega.

“Você fica triste. Ver todo mundo pintando e você limitada de se expressar”, completa, ao citar que levar seu filho junto com ela para grafitar demanda tempo e atenção, assim, não consegue se concentrar para pintar.

Milena, 24, é moradora de Embu das Artes e assina como Ser em seus grafites, conta que conheceu o Grapixurra das Minas através de uma amiga. Ela está participando pela terceira vez do evento e sempre leva sua filha junto, a Gaia. “Trago ela para conhecer a arte de rua e conviver com mulheres. Ela se sente 100% à vontade, pinta e borda”, afirma Ser.

Cintia (Bonnie), 38, é moradora de Mauá, no ABC Paulista, passou a fazer parte do coletivo após participar de algumas edições e afirma que a arte de rua deu a ela e a outras mulheres a chance de expressarem a sua existência.

“Fazemos e vivemos para mostrar que existimos, que estamos aptas desde o ventre para sermos livres, fazer e chegar no lugar que desejamos. Somos resistência e continuaremos resistindo. Os espaços estão sendo retomados por aquelas que um dia foram diminuídas ou mal faladas só porque somos mulheres tomando a frente das nossas próprias vidas”

Cintia (Bonnie), moradora de Mauá, no ABC Paulista e uma das organizadoras do Grapixurras das Minas.

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