OPINIÃO

Do Contra Egum à universidade, te conto as belezas que vi na juventude negra hoje

Do entrelaço no braço, às rezas de quem te ama (e olha), e letras que você põe no papel! Continue! Continuamos!

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Reprodução: Freepik
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Entre as distrações com tanta gente, eu te acho com o corpo encurvado, caderno e caneta na mão. O boné, a camisa de futebol vermelha dois números maiores, assim como a calça larga e lá pra baixo da cintura, daquelas que aparece parte (bem pouca) da bunda; me dão os sinais pra acreditar que tu vem de algum lugar semelhante de onde eu vim. Alí, de alguma quebrada.

Eu te reparo. Do nada você não levanta a cabeça, só os olhos, e tenta reparar se tem alguém te olhando: você reparou que o Contra Egum no braço está à mostra. Imediatamente tu ajusta a manga da blusa e esconde o trançado de palha que te dá proteção.

“Eu sigo te observando. Isso é raro porque, para não ser percebida, às vezes eu até prefiro não observar nada”

Simone Freire, jornalista e moradora da Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo.

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A tua pele passa a me chamar a atenção. É bonita pra c*! Retinta! Tu é jovem e tem aquelas marcas nos braços, aquelas retas feitas pela lâmina afiada da vida nas fases em que o peso do mundo é demais, mesmo que a gente tente vencer ele.

Não tive dó, fiz reza, e fiquei feliz que você tá se cuidando. Do entrelaço no braço, às rezas de quem te ama (e olha), e letras que você põe no papel! Continue! Continuamos!

Reprodução: Freepik
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Existe caminho para a juventude negra, sabe. Existe! 

Esses dias, Yakíni, um jovem negro, estava quase perdendo o direito de estudar na universidade. Estudou, fez vestibular, passou. Fez matrícula. Mas a vida complexa enquanto jovem negro fez com que ele não conseguisse cumprir a última da última etapa do processo de matrícula. Coisa burocrática.

É incrível, pra não dizer absurdo, que a burocracia – pensada para lidar com as particularidades de alunos que não são da cor ou lugar social de Yakíni – tenha quase tirado a oportunidade dele estudar.

E digo quase porque ele conseguiu recuperar o seu direito. Sim, para isso foi preciso que sua mãe, familiares e toda uma rede de apoio preta, de militantes à pessoas não-militantes, usassem suas vozes e vezes nos lugares que ocupam. A USP, onde ele vai estudar, precisou voltar atrás e devolver a sua vaga. Basta saber se ela vai rever seu futuro para acolher quem precisa acolher.

Daqui a pouco você estará que nem Yakíni por aí voando. Não sei seu nome ou endereço, mas boto fé que vou ler seus escritos por aí um dia. Ou será que tu me lê aqui primeiro? Que se abram os caminhos!

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