Opinião

Dia das mães e mercado de trabalho: que diretos temos?

Ser uma mãe negra, ser uma mãe indígena, ser uma mãe trans, tudo isso muda o aspecto da maternidade. O que não muda é uma mulher pode ganhar 52 vezes menos que o homem estando no mercado de trabalho, exercendo a mesma função.

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Eu fiquei pensando sobre mulher e mercado de trabalho e lembrei muito do Itan de Oxum, de que quando os orixás vêm à terra no processo de criação e desenvolvimento do nosso universo, dentro dessa cosmologia iorubana que temos aqui no Brasil, dizem que Oxum não foi convidada, ela ficou muito chateada e se retirou. Quando ela se retirou do processo, as águas secaram, as plantas pararam de crescer, os animais deixaram de ser férteis. 

Isso fez com que todo o processo terrestre começasse a desfalecer. Então, os orixás foram orientados por Orunmilá que chamassem Oxum, convidassem, dessa a ela o seu cargo, o seu posto na sociedade. Desde então, Oxum é Yalodê, ela é a grande pensadora, ela é a criação, ela é o processo todo envolvido na vida humana, na vida animal, na vida da flora, na vida da terra. Oxum é a água, ninguém vive sem água. E isso me fez pensar muito sobre nós mulheres dentro do mercado de trabalho, principalmente no que diz respeito à maternidade.

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A maternidade é uma situação importante social, no que diz respeito ao desenvolvimento de nosso povo. Ele também é um processo emocional importante, porque ser mãe é uma coisa emocionante e muito importante no processo de ancestralidade.

Quando a gente faz um filho, a gente se coloca no processo de continuidade, de continuar existindo. E isso para nós é muito importante, que somos mulheres, homens, negros. Estar e existir, para nós é uma questão fundamental, mas é importante pensar nas condições que estamos dando para a maternidade, no que diz respeito às mulheres dentro do mercado de trabalho.

Lembrando que hoje grande parte das mulheres, elas são arrimos de suas famílias. Elas são quem sustentam as suas famílias economicamente. A maternidade hoje não está só conectada ao casamento, mas à vontade de ter filhos. E isso tem um impacto muito grande no mercado de trabalho. A gente sabe que quando uma mulher revela, numa entrevista em muitos campos profissionais, que ela quer ser mãe e isso é considerada uma desvantagem, uma desvantagem dela dentro da empregabilidade, porque impacta em disponibilidade e produtividade. E tudo isso está sendo avaliado pelo mercado de trabalho. Então, é importante que a gente reflita essa questão.

A gente tem hoje um boom de mulheres na universidade, mas a gente sabe que grande parte acaba não terminando a universidade porque a instituição não dá condições. Não tem creche, não tem horários flexíveis, não tem uma relação flexível com essa mulher que é mãe. E tudo isso vai impactar em sua continuidade dentro do processo de curso.

A gente sabe também, que está aí nos sites de desenvolvimento e de pensamento econômico social, que 247 mil mulheres que tiraram licença maternidade nos últimos anos, após dois anos foram demitidas de seus empregos. E não dá para a gente desconectar isso com a relação da maternidade, por todas elas terem em comum serem mães durante esse período.

Apesar da Lei 14.020, proteger as mulheres no mercado de trabalho durante a gestação do período em que ela afirma que está grávida até cinco meses após ter o bebê, ela está protegida e não pode ser demitida. Mas a gente sabe que as empresas acabam, após esse período, mandando as mulheres embora ou promovendo outros tipos de violências profissionais, como esvaziamento de cargo, retirada de suas funções. Mesmo isso sendo ilegal, ainda é um acontecimento muito forte.

Eu penso que a sociedade que ama a maternidade, crianças pequenas, adora ver os bebês nos comerciais e as crianças cantando no TikTok, deve lembrar que por trás dessa criança tem uma mãe. E essa mãe precisa ser protegida pela sociedade para que ela possa desenvolver a sua maternidade plenamente.

Para além da produtividade profissional, a gente tem questões psicológicas, sociais e de saúde que precisam ser pensadas. Quando a gente fala em Dia das Mães, quando a gente fala em mãe, né? A gente tem hoje uma diversidade de mães, assim como a gente tem uma diversidade de mulheres.

E a gente deve pensar em políticas públicas que consigam olhar para elas no todo, mas também especificamente para cada mãe. Porque ser uma mãe negra, ser uma mãe indígena, ser uma mãe trans, tudo isso muda o aspecto da maternidade. O que não muda é uma mulher pode ganhar 52 vezes menos que o homem estando no mercado de trabalho, exercendo a mesma função. E isso o que a gente deve pensar no que diz respeito às mulheres hoje. 

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