Reportagem

Cooperativa de educadores engaja estudantes periféricos em novo modelo pedagógico

Edição:
Evelyn Vilhena

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Criada por professores da zona leste de São Paulo, a Cooperativa Bamboo atua através de um modelo pedagógico que vai além de suprir ausências educacionais.

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Samuel e Leandro são professores na rede pública e juntos criaram a Cooperativa Bamboo. Foto: Rafaela Araújo

Em duas salas comerciais com cerca de 30 m², são organizadas atividades pedagógicas que atendem crianças, adolescentes e adultos no bairro Cohab II, no distrito de José Bonifácio, zona leste de São Paulo. É através desse espaço, organizado por professores da rede pública, que acontecem as ações da Cooperativa Bamboo, pensada para atender demandas educacionais do território.

Criada em 2016, no distrito de José Bonifácio, a Cooperativa Bamboo atende moradores da região, mas também de territórios vizinhos, como Guaianases, Cidade Tiradentes, Parque do Carmo, Poá e Ferraz de Vasconcelos. 

“Pensar um trampo que primeiro ninguém explora ninguém, e que também não explore a comunidade. Que seja horizontal, todo mundo fizesse parte, que as decisões fossem tomadas juntas”, é a partir desse lugar que nasce o projeto, como conta Samuel Chaves Neto, 37 anos, morador da Cohab II, professor da rede municipal, formado em Geografia pela USP e co-fundador da Cooperativa Bamboo.

Samuel narra que o espaço não surge apenas para suprir ausências do poder público na questão educacional, mas para pensar de forma tecnológica aprendizados para a quebrada. “Um projeto aberto, comunitário e de um aprendizado de movimento social mesmo, de quem vai dar as respostas para os nossos problemas é a gente”, afirma.

Leandro Chaves, 40, irmão de Samuel, é formado em história, co-fundador da cooperativa e professor na rede pública, aponta que sente desde muito tempo essas ausências no território. Uma das influências dos irmãos no campo da educação é a mãe deles, que também é professora. 

“Essa discussão me veio muito a partir de cursinho comunitário e dos movimentos sociais. Boa parte das pessoas que viraram professores aqui, que são nossos amigos, vieram de contatos do movimento social”

Historiador Leandro Chaves

Entre tutorias, cursinhos e aulas de idiomas, o espaço já funcionou de várias formas: com aulas por valores sociais e com bolsas, mas foi um formato que não deu certo. O professor conta que o plano da Cooperativa era conseguir sair de uma lógica de exploração, tanto na hora de oferecer o serviço para comunidade, como no momento de remunerar os professores.

“Oferecer um trampo com um preço social, remunerar decentemente, e chegar na comunidade com um preço que não existe. Tentamos fazer isso até a pandemia, só que não funcionou, então fomos vendo que funcionava no modo voluntário mesmo”, aponta Samuel, reforçando que hoje estão com uma turma mantida com doação e conseguiram abrir mais uma turma de tutoria. 

 “Eu queria que a minha escola fosse como aqui”

Uma das formas de atuação dos professores na Cooperativa é a tutoria, que funciona a partir da identificação das necessidades de cada aluno, para assim definir um caminho que desperte o interesse do grupo.

(Fotos: Rafaela Araujo)

Rodrigo dos Santos, Murillo Henrike e Pedro Henrique, ambos com 10 anos de idade, fazem aulas de tutoria na cooperativa. Eles contam que fizeram uma pesquisa sobre futebol e que isso os levou a discutir sobre história.

“Ontem pesquisamos sobre a 2° Guerra Mundial, começamos a pesquisar sobre futebol, fomos atrás dos países de cada time, daí a gente queria pesquisar sobre a Alemanha que tem aquele goleiro famoso, e chegamos nas guerras”

Rodrigo de 10 anos.

Ele afirma que a forma como aprende na Cooperativa é diferente da abordagem na escola. “É muito difícil ser jogador, tem que saber ler, escrever, matemática e tem que trabalhar em equipe, aí a gente aprende falando do que a gente gosta, é muito diferente da escola, lá é chato”, afirma Rodrigo.

Já Pedro, conta que queria aprender na escola como aprende na Cooperativa. “Também queria que a minha escola fosse assim, legal. Aqui tem o boliche, tem o computador, tem uma sala, um montão de livro, mas eu ainda não gosto de ler”, finaliza contando sobre suas vivências no espaço.

Alexandre da Silva, 19 anos, morador da Cohab II, é ex-aluno da cooperativa e começou com as aulas de reforço quando estava na 6° série. O jovem fez as tutorias no espaço, cursinho, e atualmente estuda licenciatura em Física na Unicamp. Ele conta que se descobriu como professor dentro da cooperativa e a partir das trocas com os professores. 

“Eu digo que a licenciatura na minha vida tem total influência deste último professor que me deu aula aqui no espaço, o Wesley. E diferente desse sistema decoreba que muitas vezes é o vestibular, esse professor me ensinou que ciências naturais estão de forma prática nas nossas vidas, que dá para aprender e é prazeroso”

Alexandre Silva, ex aluno. 

O jovem conta que a cooperativa possibilitou que ele tivesse um sonho e um caminho para seguir, que segundo ele é dentro da educação. “Quando eu era mais novo eu não tinha um sonho, uma pretensão de vida, mas quando eu entrei aqui e comecei a crescer e ver as coisas do mundo, surgiu uma paixão pela educação dentro de mim”

Alexandre Silva, ex aluno. Foto: Rafaela Araújo

“Queremos ter um projeto de educação que saía desse lugar de suprir só a ausência”

Leandro Chaves, co-fundador da cooperativa, relata que durante a pandemia a Cooperativa teve uma crescente procura por tutorias e acompanhamento escolar, para ele isso evidencia a carência do ensino público.

“Durante a pandemia se evidenciou o lugar de que os estudantes de escola pública precisavam muito mais de um acompanhamento escolar, começamos abrir grupos de acompanhamento escolar e teve um boom muito grande”, aponta Leandro.

Samuel Chaves afirma que a busca é por um projeto de educação que dialogue com o que tem de mais moderno no ensino. “Com eixos de educação não violenta, humanizada, cooperação, respeito, equidade e transformação, que pedagogicamente seja avançado, que saía desse lugar de suprir só a ausência”, reflete.

“Um projeto que pense novas práticas, e também uma organização de trabalho de outra maneira, por isso que é a cooperativa”

Samuel Chaves,  professor da rede municipal e co-fundador da Cooperativa Bamboo.

Ele ainda afirma que as crianças e adolescentes precisam de um sistema educacional que acredite nelas, de pessoas que confiem no que elas querem e estão falando. “Alguém para acreditar neles, ouvir, trocar ideia mesmo, acreditar no sonho deles, isso é fundamental no processo de educação, permitir que eles sejam vistos”, afirma o professor.

“A gente nunca teve investimento nenhum, zero investimento sabe, funcionou sempre na loucura. Até para reformar aqui eu pedi um empréstimo no meu CPF, e a maior parte do rolê sempre foi voluntário mesmo”

relata Samuel

Samuel conta que estão pensando outras formas de manter o projeto que não seja com a mensalidade. “Esses grupos de tutoria, que são quatro, conseguimos apoio de pessoas que contribuem mensalmente e financiam esses grupos, e agora estamos buscando outras formas, como editais, apoios, benfeitorias”, aponta.

Atualmente a cooperativa se mantém de forma semipresencial, com quatro turmas de tutorias de forma gratuita, financiadas por professores parceiros, que contribuem mensalmente com os custos de espaço, sendo duas turmas onlines e duas turmas presenciais.

Além das turmas de idiomas aos sábados por um valor social de 80 reais mensais, as turmas dos cursinhos estão sendo re-planejadas, em busca de apoios financeiros.

Para Alexandre, ex-aluno do projeto e hoje estudante de Física, a Cooperativa foi uma possibilidade não só para sonhar, como realizar. “Eu digo que a cooperativa me entrega algo para acreditar, me deram a possibilidade de sonhar”, afirma.

No início de agosto a cooperativa abriu inscrições de bolsa de estudos para as tutorias voltadas as estudantes das redes públicas de ensino.

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