Reportagem

Coalizão Negra Por Direitos fortalece voto antirracista nas periferias de SP

Edição:
Ronaldo Matos

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Ação coordenada pela Coalizão Negra Por Direitos conseguiu espalhar 206 Comitês Antirracistas em diversas cidades e periferias do Estado de São Paulo durante o primeiro turno das eleições. 

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Núcleo do Comitê Antirracista na periferia de Itanhaém, litoral sul de São Paulo. (Foto: Thiago Fernandes)

Na última quarta-feira (5) de outubro, a Coalizão Negra Por Direitos divulgou o balanço da campanha Quilombo nos Parlamentos, iniciativa que fomentou a visibilidade e a importância de eleger candidaturas de pessoas negras comprometidas com o combate ao racismo nas esferas de poder da política institucional. 

A nota divulgada pela organização afirma com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que foram eleitos 26 parlamentares nas eleições do dia 2 de outubro, mas esse número de candidatos negros eleitos não indica avanços na representatividade no Poder Legislativo, já que o número de representantes do movimento negro permaneceu o mesmo, e deputados com longa trajetória de defesa de direitos da população negra não se reelegeram.

“Com o resultado da eleição no último domingo, o Senado, principalmente, tornou-se muito mais alinhado ao Bolsonarismo e à política de morte contra a população negra. Precisamos nos preparar para uma casa (Senado) mais violenta e menos receptiva às agendas voltadas para essa população”

Sheila de Carvalho, articuladora da Coalizão Negra Por Direitos e diretora política do Instituto de Referência Negra Peregum.

Além disso, a articuladora política da Coalizão Negra Por Direitos ressalta que o perfil político e racial do restante dos deputados e senadores eleitos, representa um cenário de forte resistência no Parlamento a propostas de avanço na defesa de direitos da população negra, indígena e mulheres.

A corrida para deputado estadual em São Paulo 

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) será ocupada em 2023 pela candidatura coletiva Pretas, eleita com 106.781 mil votos. Liderada pela deputada estadual Mônica Seixas junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o mandato de mulheres negras das periferias se define como feminista e antirracista.

Em entrevista ao Desenrola, Seixas afirma: “eu gostaria que mulheres negras ocupassem a Assembleia Legislativa, é por isso que nesse projeto (Pretas), eu trago mulheres de outras periferias como Osasco, Itapevi, Barueri, Taboão da Serra e Litoral Paulista”, diz a deputada reeleita, conhecida por integrar em 2018 um dos primeiros mandatos coletivos eleitos na ALESP chamado Bancada Ativista.

A deputada estadual Monica Seixas integra a candidatura coletiva Pretas. (Reprodução YouTube)

A candidatura coletiva Pretas integra a plataforma Quilombo nos Parlamentos, uma iniciativa da Coalizão Negra Por Direitos, para facilitar o acesso do eleitor a informações de pessoas ligadas ao movimento negro que disputaram as eleições concorrendo a cargos para o Congresso Nacional e Assembleias Legislativas de todo o país.

Além da plataforma Quilombo nos Parlamentos, candidaturas negras que concorreram aos cargos eletivos nas eleições de 2022 também ganharam outro reforço importante na sua campanha: os Comitês Antirracistas.

Criado pela Coalizão Negra Por Direitos para combater o racismo em âmbito político-partidário, os comitês estimularam e apoiaram por meio de mobilizações feitas pelas redes sociais e nas ruas, mandatos que defendem em seus planos de governo a soberania de causas raciais com destaque para o direitos das mulheres e da população negra e pobre das periferias.

O ponto de partida para a criação dos Comitês, que abrangem todo o território nacional, se deu em 2020, momento em que a pandemia afetou e tirou principalmente a vida da população preta e pobre, que não pôde ficar em casa para se proteger – como mostram as imagens da transformação do Cemitério do Jd. São Luís, zona Sul de São Paulo, naquele ano. 

“A falta de compromisso por parte do Governo Federal com as vidas negras e pobres nos fez entender que é a nossa tarefa eleger candidatos comprometidos com a coletividade, contra o racismo, aquilombando os parlamentos para que não haja margem para o genocídio dessa população”

Aline Barbosa, organizadora do Comitê Antirracista do município de Embu das Artes, região metropolitana de São Paulo.

Atualmente existem 206 Comitês espalhados em todo o estado de São Paulo localizados em residências, associações, universidades, coletivos, entre outros espaços de movimento negro organizado. A metodologia de conscientização, segundo Aline, consiste no boca a boca.

“Nós sabemos que o horário eleitoral, fundo partidário, não é igual para todos. Os integrantes dos comitês estão na mobilização para que os candidatos e suas propostas sejam conhecidos. Esse movimento é feito com a família, amigos, vizinhos, por meio de reuniões presenciais e online, grupo de WhatsApp para disseminar essas candidaturas”, defende Aline.

Eleições e legado

Após o TSE finalizar a apuração das eleições de 2022 para o Congresso Nacional e Assembleias Legislativas de todo o país, a campanha Quilombo nos Parlamentos pode perceber o impacto de promover a cultura do voto antirracista nas redes sociais e nas periferias, por meio dos Comitês Antirracistas.

Os candidatos que tiveram sua campanha eleitoral potencializada pela plataforma Quilombo nos Parlamentos alcançaram 4 milhões de votos. Ao todo, oito deputados federais e 18 deputados estaduais ligados ao movimento negro foram eleitos. Além disso, 97 candidaturas ocupam atualmente postos de suplência em seus partidos.

A Coalizão Negra Por Direitos conseguiu espalhar mais de 200 Comitês Antirracistas em diversas cidades e periferias do Estado de São Paulo. (Foto: Thiago Fernandes)

As narrativas do voto antirracista

Nos últimos 60 dias, período que corresponde as fases de pré-campanha e campanha eleitoral oficial, o Twitter revela que uma das principais figuras públicas que promove o debate sobre o voto antirracista é o perfil de Douglas Belchior, líder do movimento negro na Uneafro Brasil e candidato a deputado federal pela Partidos dos Trabalhadores (PT), que não conseguiu se eleger ao Congresso Nacional, alcançando a marca de 50 mil votos.

“Vote preto” é uma das principais mensagens promovidas em publicações no Twitter. Belchior e outras lideranças declaradamente progressistas e ligadas a correntes partidárias de esquerda tem como principal narrativa no Twitter tornar a política institucional mais representativa, com a participação ativa de pessoas negras comprometidas com a luta antirracista e o combate às desigualdades sociais e raciais que afetam a população negra e pobre das periferias brasileiras.

No período analisado, as publicações destacam a presença da Coalizão Negra Por Direitos como uma fonte de informação sobre candidaturas negras que propõe em meia a polarização política nas redes sociais um debate central: a democracia brasileira precisa ser construída por pessoas negras na política institucional.

Partidos como PT e PSOL foram os mais citados nas mais 4 mil publicações, que associavam a figura de Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à presidência da república, como um apoiador do movimento negro organizado, para transformar a forma de fazer política nos espaços de poder.

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