Opinião

Caminhos e encruzas

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Um texto introdutório do caderno Conexões Territoriais, publicação gratuita sobre direito à cidade e mobilidade nos bairros de Guaianases, Itaim Paulista e Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo.

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Foto: Yuri Vasquez

O texto que segue é a introdução da publicação Conexões Territoriais publicada no final de 2021 e na qual fiz incidência local e articulação em parceria com a Ciclocidade – Associação dos ciclistas Urbanos de São Paulo e a Fundação Rosa Luxemburgo.

Querendo acessar o material completo basta acessar o link aqui. 

• Quais as potências da minha quebrada?

• Há incentivos pra mobilidade ativa entre as periferias das cidades?

• Porque o asfalto e as calçadas da minha quebrada são diferentes das de outros bairros?

• Quem tem direito pleno a transitar no espaço público?

O ano é 2021. Estas perguntas e várias outras perpassam nossas mentes, nossos corpos, nossas corpas, ao longo dos nossos caminhos.

Há tempos. Há tempos nós, moradores e moradoras de subúrbios, quebradas, periferias, temos tido pouca atenção de governantes e pouca ou quase nenhuma abertura para influenciar no “lado A” do que as cidades apresentam como “nossa história”, nossa relevância na memória das cidades, nossa contribuição material e imaterial sobre o que é público, sobre o que é de “todos” e sobre o que sonhamos ser de todes por lei, por direito.

Pessoas de periferia, comprovadamente, são o grupo que tem menos direito à cidade, pois estas regiões, ao longo de décadas, tiveram acesso restrito a todos os serviços públicos, tem menos infraestrutura no geral, saneamento básico desigual (às vezes inexistente) e são as pessoas que mais pagam pelo transporte público das cidades, que é caro e que tem acessos e confortos “diferenciados”, dependendo de onde você acessa (ou “compra”) este serviço (pra alguns: este produto).

Foto: Yuri Vasquez

Somos nós, pessoas de periferia, que trabalhamos mais horas por dia, e também somos nós que viajamos mais horas pela cidade a trabalho, sendo exploradas por umas poucas famílias endinheiradas. Também somos nós, pessoas de periferia, as maiores pagadoras de impostos e as pessoas mais afetadas por pandemias mundiais.

Em suma, o “Brasil” foi e ainda é fábula para a maioria das pessoas destes territórios, maioria que segue vendo seus direitos negados e que muitas vezes acabam sendo as últimas a saber que o seu futuro foi decidido a portas fechadas por “nobres senhores”.

Por isso, fazemos e fortalecemos nossos corres das e nas quebradas. Por isso, trocamos essas ideias. Merecemos mais.

Oprê! Eu que aqui te escrevo sou uma pessoa preta e de periferia. Sou filho de Roberta, de Minas Gerais, e de Aloisio, da Bahia. Eu nasci no Bexiga e estou na metade da minha vida. Moro na terra dus Guaianás, Guaianases, Zona Leste da periferia de Éssepê. Eu tenho testemunhado, muitas vezes com medo e sempre com indignação, como nos últimos anos há uma tendência perversa de tirar o povo pobre de periferia das instâncias de participação das cidades.

Pra piorar, aqui na cidade de São Paulo, não se considera a participação de conselhos e a criação de Planos Municipais gerados através de participação popular que ocorriam, ainda que timidamente, aqui na cidade de São Paulo.

A dobradinha Dória-Covas tem no currículo o histórico de ter acabado com a Secretaria de Mulheres e a Secretaria da Igualdade Racial no Município. E segue, coerente com sua história, numa toada de exclusão e silenciamento, tendendo à participação de fachada, “gourmet”, ou seja, a participação na qual só participa (ou disputa “mercado”) a classe média não-negra, lobistas e empresas de “compadres e comadres” que em sua maioria já tem informações privilegiadas sobre a administração pública.

E tem mais, e mais grave: durante a pandemia da covid-19, que matou muito em Essepê, em 2020 e 2021, a prefeitura quer porque quer fazer a revisão do Plano Diretor, sem garantir à população pobre e de periferia o acesso para influenciar.

E no Brasil, como estamos?  

A participação popular em Conselhos de Direitos ou em Conselhos de Políticas Públicas tem fundamento na Constituição de 1988 que instituiu, ou ao menos tentou instituir, a cidadania e a participação como elementos-chave para a democracia “brasileira”, havendo menção a isso em vários artigos dela.

A prática geral dos governantes, em sua maioria, é a de se colocar como a primeira e a última palavra no que diz respeito à formulação e acompanhamento de políticas públicas que afetam a todes. 

O resultado é: periferias, negres, povos originários, povo de axé, mulheres, LGBTQIA+, idosos, gordes e PCDs ficam de fora da maioria das formulações de políticas públicas.  

Apesar disso, de tantas mancadas históricas feitas com a gente, as periferias seguem criando linguagens e tecnologias culturais e pensando e repensando sua atuação política. Vêm mandando a real há décadas em fóruns, coletivos, associações e outros diversos espaços, até mesmo nos partidos políticos, com as tensões inerentes a isso.

As periferias vêm sempre se organizando para pautar o que querem e o que não querem nas quebradas. Acho bem importante, inclusive, a possibilidade de transitar com as ideias de uma quebrada pra outra, coisa que é prática de mili anos nas quebradas.

Essa cartilha que você está lendo tem denúncias, propostas e formulações que partem de várias manas e manos que, como dizemos, “não estão de chapéu atolado”. 

Foto: Yuri Vasquez

A Ciclocidade trouxe aqui na minha região uma provocação bacana sobre mobilidade ativa, infraestrutura e um diálogo super potente sobre participação no Plano Diretor Estratégico da Cidade de São Paulo.

Não o plano apresentado pela prefeitura de Bruno Covas (hoje de Ricardo Nunes), um plano “vilanesco” que quer o povo de fora, mas um outro, um plano em gestação e formulação nas ruas há anos, nas ocupações culturais, nos ilês, nas igrejas, nas associações de comunidades, nas vielas, bares e saraus das perifas da cidade de São Paulo. Um plano que parte da roda, da troca, da escuta.

Há tempos as quebradas sabem a necessidade de se ouvir, promover escambos de saberes sobre questões que nos atravessam diariamente como moradores de periferia. Talvez somente dessa forma poderemos ter um plano utópico e ainda sim possível, no qual nos sintamos parte integrante, como promotores de políticas públicas, não só como destinatáries da metade do que temos direito.

Ao longo de dois Cafés Encontros e um ciclo de formações, proseamos sobre mobilidade dos bairros de Ermelino Matarazzo, Guaianases e Itaim Paulista. Pude ouvir e perceber o quanto as quebradas têm questões urgentes pro transporte, pro meio ambiente, pra convivência. Estamos em busca de um bem viver nos bairros.

➜ Por que as ciclovias não chegam ao meu bairro? Por que os espaços ociosos não são revitalizados, ocupados, vocacionados? Por que o asfalto que chega no fundão das perifas não é o mesmo que o dos bairros ricos e o centro da cidade?

➜ Por que o investimento em infra-estrutura de ruas, praças e espaços públicos é diferente se comparado a outros lugares mais centrais ou “nobres”? Por que não tem incentivo pra circularmos e socializarmos entre as quebradas? 

Por que a polícia nos agride quando estamos nas ruas dos nossos próprios bairros? Por que toda condução leva para o centro?

Ouvir e ler vários relatos nossos, participar dessas conversas me fez enxergar mais pessoas que são diariamente desviadas das suas potencialidades territoriais por culpa do Estado e do “Deus Mercado”, que mimados que são teimam em não ouvir os seus vizinhos.

O que a gente vê por aí é que nossas cidades não são cidades “mal planejadas”, mas são sim cidades planejadas para “outros” que não nós. Privilégio cega e ensurdece. 

Temos vários desafios. Podemos saber disso tudo e deixar de nos inquietar, nos mover, falar pra amigues e familiares? Que potências nossos caminhos e tantas das nossas encruzilhadas tem pra moldar novos caminhos e quereres mais paritários, justos, coletivos?

Os textos, dados e ideias que você verá e lerá por aqui têm muito a ver com as inquietações e lutas históricas das quebradas, que seguem sangrando, lutando e pautando pelos tão óbvios e tão negligenciados direitos sociais.

Espero que você curta ler o conteúdo da Conexões Territoriais, porque ela foi escrita a partir de uma escuta ativa da nossa oralidade plural de periferia.

De certo, não achamos todas as respostas e você pode até se sentir à vontade pra formular novas perguntas. Isso mesmo! Nossa encruza e nossa gira é coletiva.

Bora junto?! Saravá as mudanças!

Querendo acessar o material completo do Caderno Conexões Territoriais basta acessar o link aqui 

Agradeço se comentar o que achou desse texto. Brigado!

Autor

6 COMENTÁRIOS

  1. Oprê ! Brigado por ler e por comentar por aqui Mônica. Auda muito a plataforma do Desenrola ! Volte sempre ! Recentemente a justiça obrigou a prefeitura a adiar o Plano DIretor por ele não ser acessível. Uma denúncia que já estava presente nesse texto e nessa publicação da Ciclocidade. Saravá !

  2. Oprê ! Salve Valdir, brigado por ler e comentar. Realmente a realidade é de abandono ou de ameaça a nós nas quebradas. Por outro lado há ações das quebradas bem bacanas em relação a mobilidade e cicloativismo, ações tanto de enfrentamento e pauta das politicas públicas quanto ações autônomas por direito a cidade. Recomendo muito você conhecer o trabalho da Ciclocidade. Aqui na ZL tem as ações do Bike Leste, as ações de cicloativismo na Ocupação Mateus Santos (Ermelino Matarazzo), o trampo das entregadoras do Senoritas Courrier e muito mais… Não estamos sós ! Abraço e até o texto do mês que vem aqui na coluna. Saravá !

  3. Opre, meu querido Aloysio. Como sempre, você trazendo mil ideias pra gente usar o cérebro durante horas a fio. Tem muita coisa pra comentar a respeito do que você escreveu, mas vou tentar focar em três pontos. O primeiro é que em outras palavras você descreveu a Casa Grande e Senzala versão urbana. Nunca saímos desse esquema maldito, e enquanto não sairmos, viveremos os mesmos problemas, levantaremos as mesmas bandeiras, lutaremos as mesmas lutas. Segundo, a gentrificacao. Nos decretos municipais do início do século XX em São Paulo isso fica muito explícito. Proibição de carroças, de badalar os sinos, demolições e abertura de grandes vias. E não acaba nunca. Empurram a população mais pobre para cada vez mais longe, a especulação imobiliária chega onde nem sonhamos. Terceiro, o que você propõe a respeito de troca de experiências das quebradas eh muito promissor. Tenho participado de algumas experiências embrionárias disso, e tem uma importância enorme. Principalmente quando rola a troca “a gente chega junto na sua quebrada e vocês chegam na nossa”. Inclusive porque nós paulistanos estamos acostumados a um tipo de problema, outras quebradas podem ser piores ainda. Francisco Morato, Cajamar, tem um coronelismo absurdo que paulistano até estranha, se me entende. Enfim, seu texto me fez pensar e muito. Mas sério, esse negócio das quebradas tem que se fortalecer. Se juntar todo mundo, a força será gigante. Desculpa pela empolgação, mas a culpa é do seu texto. Um abraço apertado.

  4. Oprê ! Alessandra, fico feliz de você ter sido provocada a pensar junto sobre isso. Há muitas pessoas se debruçando e agindo em relação a isso em contranarrativas e também em ações autônomas ligadas a correntes centenárias de afirmação das potências das periferias. A cidade de São Paulo foi há séculos um modelo para a branquitude brasileira no que diz respeito a expulsão de pretes e pobres para os arrebaldes das cidades. Desde sempre há quem luta contra isso. E sobre Coronéis, eles estão em São Paulo melhor escondidos, encastelados, mas sempre manifestam a força da sua herança através do Estado ou do “Mercado”. Tem vezes que esse papel é encarnado por um Subprefeito ou um vereador, mas esses que vemos são capatazes apenas. Brigado demais por ler de peito aberto. Até o texto do mês que vem querida. Abração ! Saravá as mudanças !

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