Entrevista

Além do carnaval: comunidades de samba atuam o ano inteiro nos territórios

Edição:
Evelyn Vilhena

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Criadas a partir de rodas de samba ou do encontro no futebol, iniciativas movimentam comunidades de samba na quebrada e também são espaços de referência cultural nos territórios.

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O Bloco Filhos do Zaire possui uma raiz que representa a ancestralidade africana e foi fundada em 1 de setembro de 2012 (Foto: Acervo pessoal)

Os blocos de rua são uma das atrações mais aguardadas pelos foliões que curtem o carnaval. Na quebrada não é diferente, e ainda conta com blocos de rua tradicionais que fazem parte da história do carnaval nos territórios. Com origens em rodas de samba e times de futebol, iniciativas periféricas como Filhos de Zaire, Bloco do Beco e Samba do Congo são referências culturais ao longo do ano todo nas quebradas.

Esse é o caso da Associação Filhos do Zaire, que surgiu em 2012, no bairro Jardim Matarazzo, no distrito de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. A criação da iniciativa foi inspirada em um time de futebol dos anos 70 da região que foi inspirado em uma seleção do continente africano chamado Zaire, que hoje é conhecido como República Democrática do Congo e com intuito de utilizar o carnaval como oportunidade para discutir questões raciais no cotidiano.

“Tem toda essa questão da ancestralidade. Todos os nossos temas em 10 anos de história, independente de qual enredo seja, a gente faz questão de destacar e trazer o olhar sobre a ancestralidade”, afirma Rejane Romano, 44, jornalista e presidenta da Filhos do Zaire.

Rejane, afirma que a atuação dos blocos de rua periféricos também tem o papel de empoderar pessoas que são invisibilizadas no dia a dia de uma grande metrópole como São Paulo. 

“Imagina você, a pessoa que mora na periferia, que pega ônibus lotado pra chegar no trabalho e que acaba sendo só mais uma naquele trem. Mas quando chega na avenida é a musa, a rainha de bateria. Então esse processo é muito importante”

aponta a jornalista.

A presidenta da Filhos do Zaire enfatiza que iniciativas como a escolas e blocos de carnaval que tem suas origens ligada ao território, estão presentes no cotidiano, na vida dos moradores, e que se importam com as famílias do entorno não só durante o período das festas, mas ao longo do ano.

“Os blocos de periferia estão presentes no dia a dia da comunidade, porque a gente sabe da situação de vulnerabilidade. Então essas pessoas têm dos blocos esse apoio, essa possibilidade de ter com quem contar”, afirma Rejane.

Rejane afirmou que as comunidades de samba de periferia estão ligados diretamente ao dia a dia do território e que inclusive, durante a pandemia, o Filhos do Zaire realizou entregas de cestas básicas para a população e também para a equipe que compõe o desfile, principalmente por entenderem que essas famílias precisam ser enxergadas antes durante e depois do período carnavalesco, sem exceção.

Com um nome que representa uma seleção africana composta apenas por jogadores negros, a Filhos do Zaire é uma associação que em 2023 completa 11 anos de existência. Mesmo com tanto tempo de atuação na região de Ermelino Matarazzo, a iniciativa ainda não possui um espaço físico para realizar suas atividades durante o ano. Já conseguiram apoio de alguns espaços para confeccionar as roupas do desfile, realizar ensaios e encontros do grupo, mas Rejane conta que essa é uma dinâmica que dificulta o processo de desenvolvimento.

“A gente sente falta de um lugar nosso para poder fazer girar um caixa para escola, fazendo eventos todo final de semana. O principal desafio é esse, principalmente de não ter como criar possibilidades de manter a subsistência da escola e dos projetos dela”, comenta Rejane.

Mesmo com pouco incentivo público, a presidenta da Filhos do Zaire se sente realizada com o trabalho realizado até aqui.

“A minha motivação é através do maior evento do universo que é o carnaval. Oportunizar que pessoas da quebrada tenham acesso a tudo isso, e mais, que elas acreditem no potencial do carnaval. Porque o carnaval é um espaço de resistência”, conclui Rejane. 

Ponto de referência cultural e educativa no território

Na zona sul de São Paulo, o Bloco do Beco é mais uma iniciativa que movimenta o carnaval de rua na periferia e é um ponto cultural para os moradores. Criada em 2002, no bairro do Jardim Ibirapuera, quebrada localizada no distrito do Jardim São Luís, o Bloco do Beco surgiu das rodas de samba que aconteciam espontaneamente após jogos de futebol em um beco próximo à principal rua do bairro.

“Nada formal, era um espaço de confraternização dos jogadores e apreciadores do futebol de várzea”, compartilha Sabrina Lana, 26, moradora do Jardim Ibirapuera e comunicadora na associação.

Sabrina conta que ainda em 2002, um grupo de sambistas junto com moradores da região do Jardim Ibirapuera, decidiram organizar um desfile de rua. “Dessa primeira experiência nas ruas pipocaram sonhos, a chama se acendeu e todo mundo sabe o que uma chama é capaz de fazer quando existe combustível”, coloca a comunicadora.

As rodas de samba que deram origem ao Bloco do Beco inicialmente eram compostas por batuqueiros de diversas escolas de samba e que tocavam em eventos. Juntos, viram no carnaval de rua uma possibilidade mais acessível para todos e com gastos menores. 

“O carnaval se tornou parte da cultura do bairro Jardim Ibirapuera, fazendo parte do cotidiano dos moradores de todas as idades e se consolidou como um bloco tradicional da zona sul de São Paulo”, afirma Sabrina Lana, moradora do Jardim Ibirapuera e comunicadora no Bloco do Beco.

O primeiro desfile de rua do Bloco do Beco aconteceu em 2002 e no outro ano, em 2003, a Associação foi oficialmente fundada. (Foto: Acervo pessoal)

A integrante do bloco aponta que em determinados momentos se torna um desafio manter viva a cultura do carnaval de rua, principalmente quando se trata da falta de recursos, ausência de parcerias, patrocínios e apoio de órgãos públicos. “O carnaval não se faz apenas com banheiro químico, ambulância e policiamento, estruturas ofertadas pela Prefeitura de São Paulo, ainda mais depois da crise que nosso setor enfrentou”, ressalta Sabrina.

Diferente do bloco Filhos do Zaire, mas também com poucos recursos, o Bloco do Beco conseguiu a conquista do espaço físico no bairro e passaram também a proporcionar oportunidades de formação e vivências para os moradores.

O Bloco articula e gerencia três espaços no território: o Ponto de Cultura Bloco do Beco, a Biblioteca Comunitária Luiza Erundina e o IbiraLab, espaço voltado para produção audiovisual. Com aulas de instrumentos musicais, oficinas de percussão, debates e outras atividades, o Bloco do Beco se tornou uma associação cultural que luta pela garantia do direito à cultura, educação e lazer a todo cidadão.

“Para além do carnaval, hoje atuamos em diversas frentes e trabalhamos todos os dias para construir um espaço de educação integrada, enxergando a cultura como potência transformadora”

coloca Sabrina.

Ela reforça que o acesso à cultura abre novas possibilidades: “Uma aula de percussão não ensina só a tocar um instrumento, ensina respeito, história, afeto, valores que o dinheiro não paga. Aqui já faltou dinheiro, instrumentos, estrutura, mas nunca faltou combustível. Nosso combustível é sonhar, sonhar com um mundo melhor e transformar a nossa quebrada”, afirma Sabrina.

 Encontro de compositores periféricos

“Um colega meu abriu um bar e eu falei que organizava uma roda [de samba] pra ele”. E foi assim que o Samba do Congo surgiu em 2011, na Brasilândia, zona norte de São Paulo, como conta Fernando Ripol, um dos fundadores e representante do Samba do Congo.

“Eu tinha uma ideia de fazer um projeto de composição para as pessoas levarem as músicas que escreveram pra gente tocar e compor junto também”, conta Fernando sobre o início do Samba ainda em 2011. Após o período de um ano que os compositores se encontravam para compor, passaram a ocupar a Casa de Cultura da Brasilândia, onde ficaram por sete anos até conquistarem sua sede em 2018, também no território.

“Fizemos o primeiro [Cordão do Congo]em 2013. Foi bem espontâneo e foi crescendo. Mas a gente sempre teve a filosofia e o entendimento do carnaval de rua de São Paulo em forma de resgate”, aponta Fernando sobre a criação do Cordão que surgiu a partir das rodas de samba.

O carro-chefe do Cordão do Congo é na terça-feira. Toda semana acontecem encontros de compositores e rodas de samba na sede da escola. (Foto: Acervo pessoal)

O intuito do Samba do Congo sempre foi manter viva a essência do carnaval de rua. Fernando enfatiza a característica de ser uma manifestação periférica, que ao longo do tempo foi se tornando elitizado. “A essência do samba é africanista, é periférica e é negra, diga-se de passagem”, coloca.

Em suas composições, o Samba ainda busca homenagear figuras importantes para o território, com a intenção de manter esse legado histórico vivo e na memória coletiva, como por exemplo compositores que fizeram parte do coletivo mas que já faleceram, o embaixador do samba da região chamado Luiz do ‘pandeiro’ e até mesmo o bairro do Morro Grande já foi também prestigiado.

“É gigante a importância do carnaval na periferia, porque é devolver para a periferia o que sempre foi dela. Sempre levando no peito a bandeira do samba e fazendo com que as coisas aconteçam, independente do poder público”

afirma Fernando.

Além do Cordão e das rodas de samba que acontecem toda semana, o Samba do Congo realiza atividades culturais, como encontros de compositores, confraternizações e eventos mensais, seja com ou sem apoio de políticas públicas.

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