Representatividade do slam e das batalhas de rima inspira autoafirmação da juventude periférica

Mediado pelo escritor Emerson Alcalde, o debate “Slam e Batalhas de Rima - Narrativas da juventude periférica” trouxe importantes discussões para a quarta edição do Congresso Escritores da Periferia, abordando a literatura como instrumento de auto-afirmação e identidade dos jovens. Os apontamentos foram provocados pela slammer Kimani e o rapper Luis França, que participaram do diálogo.

Por Vitória Guilhermina 01/12/2018 - 10:16 hs
Foto: Daniel Brasil
Representatividade do slam e das batalhas de rima inspira autoafirmação da juventude periférica
Mesa formada por artistas do movimento do movimento do slam e de batalhas de rima.

A ocupação de espaços públicos com manifestações culturais articuladas por jovens dentro de seus territórios vem trazendo um legado de autoafirmação e entendimento da sua identidade, ao colocar em pauta discussões como gênero e racismo. Questões como essa apareceram no segundo debate do Congresso de Escritores da Periferia, realizado neste sábado (24) no Centro de Mídia M´Boi Mirim, localizado no Jardim Ângela, zona sul de São Paulo.

As vivências da slammer Kimani, do rapper Luiz França e do escritor Emerson Alcalde, marcaram a terceira e última mesa do 4°Congresso de escritores da periferia, organizado pelo coletivo Desenrola e Não me Enrola no Centro de Mídia M’Boi Mirim, trouxe como tema “Slam e Batalhas de Rima - Narrativas da juventude periférica”.

Com o amplo processo de apagamento histórico, silenciamento e invisibilidade cultural, pela qual a juventude periférica passa cotidianamente, se torna cada vez mais comum a perda de suas identidades, o que tem como consequência a busca por padrões de beleza e de vida normativos, impostos pela sociedade do consumo.

Como forma de transgressão social, esses jovens criam dentro de si uma grande necessidade de serem ouvidos e vistos e nesse sentido, os saraus, slams e as batalhas de rima se tornam espaços de visibilidade, encontro e transformação social.

Tais espaços acabam por promover o acolhimento destes jovens que, distribuídos em roda, dividem suas realidades e angústias de forma coletiva, entrando em contato com suas próprias identidades e ganhando visibilidade e voz. “Na cena do slam eu consegui me descobrir, me entender como mulher negra, e não mais moreninha, entrei em contato comigo mesma, agora consigo transformar minhas dores em poesia”, conta a poeta Kimani.

As batalhas de rimas chegaram ao Brasil de forma mais organizada no Rio de Janeiro, em 2003, com a criação da Batalha do Real. Essa foi uma das primeiras batalhas em formato de evento protagonizado por jovens periféricos, pois anteriormente essas batalhas aconteciam improvisadamente dentro de alguns bailes cariocas. Posteriormente, as batalhas chegam a São Paulo inspiradas nos eventos cariocas, como por exemplo, a batalha de Santa Cruz, localizada ao lado da estação de metrô.

Os slams começam em Chicago nos anos 80 como uma brincadeira de dar notas às poesias e logo se expandiram pelo mundo, chegando ao Brasil em 2008 com o Zap Slam. “Tanto as batalhas quanto o slam ou sarau estão dentro do hip hop, são falas políticas e sociais, de quem vive a quebrada”, argumenta a poeta Kimani.

Esses espaços são marcados pelo embate político e, por serem organizados em territórios que têm uma grande ausência de políticas públicas, os moradores articulam sua própria cultura e meios de discutir política: “o slam da Guilhermina é na rua, em si é um evento político, nós desde a fundação temos a nossa bandeira vermelha. Deixamos claro um posicionamento político do lado da esquerda e de enfrentamento ao fascismo”, argumenta Emerson Alcalde, poeta e organizador do Slam da Guilhermina, na Zona Leste da cidade de São Paulo.

A marcante presença de adolescentes e moradores nesses espaços de fala e visibilidade demonstra o impacto e a transformação social causada pela articulação dos jovens nos territórios. Com poucos espaços de cultura e lazer nos bairros periféricos, se torna ainda mais legítima a ocupação de ruas e praças transformando a quebrada, como conta Luiz França, organizador da Batalha do Bambuzal. “A melhor coisa é ver todo mundo reunido na praça, meus amigos, minha família, as tia que vende doce na quebrada, todo mundo aparece, e organizamos as batalhas para todos terem voz, e conseguir passar sua mensagem.”

Com a forte demanda de construção ou criação de espaços de cultura nas periferias, se torna essencial na vida dos jovens a existência de saraus, slams e batalhas de rima, pois assim se constituem como espaços de visibilidade, representatividade e reconhecimento de suas identidades, acarretando também uma descentralização da produção cultural e surgimento de artistas de várias linguagens dentro das periferias.