Autores contam como é viver da arte na quebrada durante o Congresso de Escritores da Periferia

Entre diversos problemas de acesso a direitos sociais básicos que os moradores da periferia enfrentam, podemos apontar a dificuldade de se viver de arte, seja com a escrita, a pintura ou qualquer outra forma dela. Esse debate ganhou força durante a segunda meda de discussões sobre novos autores, realizada no Congresso de Escritores da Periferia.

Por Bianca Tracanella 11/12/2018 - 10:54 hs
Foto: Ricardo Trindade
Autores contam como é viver da arte na quebrada durante o Congresso de Escritores da Periferia
Autores discutem a produção literária independente das periferias
A segunda roda de conversa do 4° Congresso de Escritores da Periferia abordou o tema “Contribuição dos saraus para o surgimento de novos autores”, mostrando como é a realidade e a forma de vida de quem produz arte na periferia. O debate contou com a participação de Marcio Ricardo, autor independente do Grajaú, do escritor e artista plástico Casulo e da poeta Carol Peixoto, integrante do coletivo Poetas Ambulantes.
Durante o debate, o poeta Marcio Ricardo resgatou a dificuldade de produzir as suas primeiras poesias ainda na infância, apontando a falta de confiança transmitida por familiares e pessoas próximas. “Quando criança, um colega foi mostrar uma poesia minha para uma professora e ela disse que eu não tinha capacidade de fazer aquilo, que tinha copiado, eu tinha nove anos”, relembra.
Ele conta que a primeira pessoa que ele sentiu confiança para mostrar as suas poesias foi à professora e escritora Maria Vilani, que dava aula para ele em um escola do Grajaú. “A primeira vez que eu fui mostrar minha poesia para alguém, foi com 18 anos, para a Vilani, de tanto que isso me travou”, afirma, citando que esse momento vivido na infância provocou alguns anseios e desconfortos em relação ao seu potencial para a escrita.
Já a poeta Carol, abordou os trajetos e tomadas de decisão que ela tomou para tentar vender sua produção. “Todo domingo eu ia para a Paulista, saía de casa às 8 horas, ficava até as 17 horas. Se tinha Bienal, eu ia e assim seguia, se tem FlLIP, faço divida e vou”, comenta a artista.
Os participantes contaram que a ajuda de outras inspirações foram fundamentais para seu início nesse ramo. Carol e Casulo citaram a Cooperifa como um estimulante artístico.
“Eu tinha muita poesia escrita antes de 2004, 2005, quando comecei a frequentar a Cooperifa, mas é aquela coisa né, eu gostava de falar para os amigos, vizinhos e parentes. Quando eu cheguei na Cooperifa, eu percebi que tinha um monte de gente que queria ouvir aquilo. Aí eu comecei a tirar as poesias manuscritas e ler lá, tremendo no microfone e as pessoas até gostavam. Mesmo assim, demorou 6 anos para eu publicar meu primeiro livro”, descreve Casulo.
Durante mais de uma hora e meia de roda de conversa, os autores concluíram que viver de arte tem seus desafios, mas é uma atividade importante para inspirar crianças, adultos e jovens com suas ações vivências.
“Há cinco anos atrás, um menino chegou até mim pedindo para que eu o adicionasse no Facebook e eu adicionei. Passou 20 minutos, eu fui para casa e lá estava ele me chamando. Na conversa, ele contou que só tinha um real e estava gravando o tempo de cinco em cinco minutos para poder falar comigo. Ele pediu para que eu lesse um versinho dele, eu li, e depois de elogiar, o menino prometeu que largaria a cocaína para fazer poesia igual a mim. Hoje, o mesmo menino trabalha na biblioteca com o irmão dele. É isso que a literatura faz nas quebradas”, conclui Marcio Ricardo.