Projeto Negralizando transforma Casa de Cultura da Vila Guilherme em quilombo urbano

Projeto que incentiva o resgate da ancestralidade afro-brasileira reuniu mais de 400 pessoas na Casa de Cultura Vila Guilherme, para interagir com uma programação formada por intervenções artísticas à base da cultura afro-centrada.

Por Michely Alves e Thamires Rodrigues 10/12/2018 - 15:25 hs
Foto: Michely Alves
Projeto Negralizando transforma Casa de Cultura da Vila Guilherme em quilombo urbano
Apresentação do Coral de Arte e Cultura, regido pelo Maestro Roberto Mendes

 

Imagine a reação de Zumbi e Dandara, líderes da resistência negra no Quilombo dos Palmares, ao verem e perceberem que a luta iniciada por eles há mais de 300 anos, se mantém acesa, por meio do fazer artístico e político de coletivos, como o Negralizando, enraizado no resgate da cultura afro-brasileira.

Os integrantes do coletivo transformaram a Casa de Cultura da Vila Guilherme, localizada na zona norte de São Paulo, em um quilombo urbano, na tarde do último domingo (18), com uma celebração à ancestralidade afro-brasileira, durante um encontro que reuniu um público de diversas idades, formado por artistas, militantes do movimento negro, jovens e moradores da região.  

Ao longo da celebração à trajetória de Zumbi e Dandara, aconteceram diversas atividades entre elas: a apresentação do Coral de Arte e Cultura do Mestre Mendes; oficina de dança com Eduardo Mafalda; apresentações de Sambarock e charme black; e uma participação especial da jovem cantora Emilly Regina, que interpretou um clássico da música black brasileira.

Uma das primeiras intervenções do evento foi a apresentação do Coral de Arte e Cultura, regido pelo Maestro Roberto Mendes, artista negro da zona norte da cidade. Para ele, a música tem o papel de despertar o autoconhecimento nas pessoas, conectando elas com a sua identidade racial. “A cada vez que alguém te chama de moreno, mulatinho, ele divide você em parcelas para que você não se aquilombe e saiba o quão poderoso você é.’’  

Com a missão de ser mestre de cerimônia do evento, a articuladora cultural Adriana Souza, uma das criadoras do Negralizando, acredita que as atividades desenvolvidas pelo coletivo já se tornaram um verbo pautado no resgate histórico da identidade negra. “O Negralizando significa resistência, uma continuidade da nossa história, aonde cada um vai negralizando e construindo um mundo negralizado.” 

Uma das características do Negralizando é a diversidade de idade dos participantes. Um bom exemplo desse cenário éa jovem moradora da Vila Guilherme, Emilly Regina, que teve a oportunidade de fazer uma apresentação no evento, mostrando o seu dom artístico e a sua ligação com a música negra.

Para ela, projetos como o Negralizando precisavam existir em maior quantidade nas periferias: “aqui os jovens são acolhidos”. Ao falar sobre a importância do projeto, Emilly relembra o sentimento de pisar pela primeira vez no baile do Negralizando: “eu achei incrível, tanto é que eu não parei de vir desde o primeiro dia.”

Segundo a organização do Negralizando, cerca de 400 pessoas passaram pela Casa de Cultura da Vila Guilherme, e tiveram a oportunidade de interagir com mais de 12 atrações, que se apresentaram ao longo de mais de nove horas de intervenções culturais, pautadas na arte afro-brasileira.