Coletivos LGBTs usam arte para pautar direito à vida nas periferias

O simples ato de circular pelas ruas, andando a pé, utilizando um aplicativo de mobilidade ou transporte público apresenta uma série de situações de conflito que envolve a população LGBT. Neste caso, os direitos de ir vir, bem como o acesso ao trabalho e renda se tornam extremamente ameaçados. Em paralelo a este cenário, o surgimento de espaços culturais que promovem encontros afetivos e de entretenimento tem mostrado caminhos alternativos para resistir ao avanço da intolerância do preconceito de gênero e orientação sexual.

Foto: Thais Siqueira
Coletivos LGBTs usam arte para pautar direito à vida nas periferias
Perfomance no palco principal da boate Chimmus LBGT, no Capão Redondo.

 

Quem passa pela altura do número 5.170 da estrada de Itapecerica nas terças-feiras à noite, por volta das 23h30, não imagina que a Choperia Fortaleza, muito conhecida na região se transforma em uma balada LBGT neste dia da semana. A Chimmus Baile LGBT recebe em média 500 pessoas a cada edição.

Ela está dentro de um circuito cultural formado por mais quatro baladas voltadas para a comunidade LBGT nos territórios do Jardim Ângela, Jardim São Luis, Capão Redondo e Campo Limpo. Frequentado por pessoas de 16 a 35 anos, além de ser um ponto de encontro e diversão, o espaço está se consolidando como um lugar de afeto e formação política orgânica para o seu público.

"Para poder estar com os amigos, para escutar uma música, para poder beijar na boca e estar com os nosso parceiros, nós não precisamos atravessar a ponte para desenvolver alguma coisa. Aqui na nossa comunidade também é muito potente”, conta o bailarino e educador Thiago Silva, de 27 anos,  morador do Jardim Ângela.

Assista a reportagem completa.

Ele criou em 2017 o projeto Quebrada Maquiada, iniciativa que trouxe para espaços públicos do território da M´Boi Mirim e do Capão Redondo intervenções artísticas protagonizadas por personagens da cultura drag queen.

“A arte Drag só é visível dentro de uma boate. É tudo muito marginalizado”, enfatiza Silva. Ele  afirma que as pessoas ainda julgam de maneira muito preconceituosa o estilo de vida de uma drag. “Se você encontrar uma transformista drag andando na comunidade ou no centro, ela é sempre vista como prostituta. Más ela simplesmente está indo fazer a sua arte e o seu trabalho dentro de uma boate, que querendo ou não, na zona sul é potente.”

A experiência com o projeto foi tão positiva que ao final ele continuou fomentando essas atividades, por meio de apresentações de performances dentro das baladas, conectando diretamente o publico desses espaços com outras vertentes da arte LGBT.  

A menos de dois quilômetros de distância da Chimmus Baile LGBT acontece o projeto Basquete & Autonomia, iniciativa articulada por um coletivo formado por jovens que são moradores do Capão Redondo, também na zona sul da cidade.

O projeto promove uma série de atividades que pautam a autoafirmação da pluralidade de gênero e orientação sexual, a partir do contato com o basquete, praticado de maneira emancipatória e libertária. “A gente tende a achar que somos muito sozinhos e quando você vê  outros coletivos produzindo e fazendo coisas, o território também evolui e isso é muito importante”, aponta Fran Bandeiras, uma das criadoras do coletivo.

A jovem de 21 de anos argumenta que o projeto encontrou no basquete uma maneira de fazer essa discussão sobre quebras de estereótipos. “As nossas atividades tem esse trabalho de aproximar as pessoas para entender o que a gente é, porque essas discussões abrem mais o horizonte das pessoas que são preconceituosas.”

Do Capão a Pirituba: uma dimensão territorial da luta por direitos

Para quem pretende atravessar a cidade e sair do distritos do Capão Redondo, em direção ao distrito de Pirituba, localizado na zona noroeste de São Paulo, para conhecer outros movimentos de luta da comunidade LGBT das periferias vai percorrer uma média de 50 quilômetros utilizando transporte público ou carro particular.

E essa viagem vale muito a pena para conhecer a trajetória da rapper e produtora musical Luana Hansen, moradora de Pirituba. Envolvida no movimento hip hop há cerca de 20 anos, ela acumula uma série de vivências e histórias de luta que ilustram bem a vida de uma mulher negra, lésbica e periférica, que decidiu lutar pelo direito ao trabalho e renda em meio ao cenário machista do rap nacional.

“Eu só existo dentro do movimento hip hop porque eu criei o meu próprio estúdio. Eu tive que aprender a produzir, ser Dj, Mc e produtora musical, para eu ter a liberdade de gravar e falar o que eu quisesse  e ter o direito de um dia existir”, desabafa a rapper.

Ela acredita que a sua postura foi determinante para quebrar o estigma machista dentro do movimento hip hop, que a impedia de ter ascensão em sua carreira. “Tudo o que eu fiz, a minha orientação sexual sempre esteve em destaque. Teve emprego que eu consegui através da minha orientação sexual e teve muitos outros que eu perdi através da minha orientação sexual. É muito bizarro isso.”

Dados desumanos sobre o direito de ir e vir na cidade

Enquanto pesquisas apontam que o Brasil é um dos países onde mais morre pessoas por questões de agressão motivadas pela sua orientação sexual e identidade de gênero, existem poucos dados que buscam mostrar as motivações culturais, sociais e políticas, que contribuem para que esse cenário continue a crescer.

A pesquisa “Viver em São Paulo: Diversidade” publicada em maio de 2018 pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o SESC e o Ibope traz um dado alarmante, no qual, 51% das pessoas entrevistadas disserem já ter presenciado situações de preconceito contra pessoas LGBTs.  

Na mesma pesquisa, um dado chama ainda mais atenção para o alto nível de preconceito presente nas respostas dos entrevistados, pois 43% afirmaram ser contra pessoas do mesmo sexo demonstrar afeto, com beijos e abraços em locais públicos. Essa estatística reforça o constante aumento de agressões em locais públicos.

Para o articulador cultural Thiago Silva, nos últimos anos últimos anos houve uma espécie de transformação de comportamento das pessoas. Segundo ele, elas continuam preconceituosas, más passaram a aceitar a presença de gays, lésbicas e trans em determinados lugares.

Já a produtora musical, Luana Hansen, classifica essas pessoas como cidadãos que fazem o papel do politicamente correto. “As pessoas não chamavam mais ninguém de negro, de gordo, de veado, pois ficavam com medo de expor. Passado esse período do politicamente correto, a gente voltou a intolerância. Na verdade, a gente sempre foi tolerado. A gente nunca foi respeitado”, avalia.

O pesquisador Anderson Maciel, que também atua como educador e possui um trabalho de base importante com ações cultural desenvolvidas pelo Coletivo Cultural Sankofa, da zona leste de São Paulo, acredita que a arte tem um papel fundamental nas periferias para criar espaço de afeto e resistência política. “O trabalho nas bordas é importante. De norte a sul e de leste a oeste tem bastante grupos que já conseguem fortalecer essa questão de nos sentirmos acolhidos, bem recebidos, fortalecidos e representados culturalmente.”

De olho no atual momento político, o pesquisador destaca que haverá ainda mais luta. “Por mais que esse seja um governo bem  difícil, a luta e a resistência vai ser ainda maior. Se construiu muito conhecimento, articulação e empoderamento com a população LBGT. Agora as pessoas vão colocar a mão na massa de verdade, mais do que já estavam fazendo antes.”

*Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento e TV Grajaú, com patrocínio da Fundação Tide Setubal.

Cerca de 30 reportagens serão publicadas até o final de outubro com assuntos de interesses da população das periferias de São Paulo em ano eleitoral. Acompanhe os sites e as redes sociais dos coletivos e não perca nada!