Programa VAI aproxima juventude periférica da gestão pública municipal de SP

Desde 2003, ano de aprovação do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais - VAI, jovens de diversas regiões periféricas da cidade têm administrado o dinheiro público, para devolvê-lo ao seu território em forma de produções artísticas que geram impactos na economia local e importantes transformações sociais nos moradores.

Por Evelyn Vilhena 11/12/2018 - 11:00 hs
Foto: Mundo em Foco
Programa VAI aproxima juventude periférica da gestão pública municipal de SP
Oficina de audiovisual do coletivo Mundo em Foco, 2017.

Nos últimos 15 anos, o programa VAI mexeu com três importantes estruturas da sociedade civil: impedir o desenvolvimento de atividades artísticas abertas ao público sem o apoio financeiro e institucional do poder público; reconheceu como campo profissional o trabalho desenvolvido pelos coletivos culturais nos territórios periféricos; e viabilizou a participação de jovens com idade entre 18 e 29 anos na gestão de recursos públicos destinados a cultura na cidade de São Paulo.

A partir desses três importantes elementos, essa política pública tem sido importante para promover a descentralização de recursos públicos, inserindo a juventude num dos principais movimentos de produção artística e articulação política dos últimos 20 anos: o Movimento Cultural das Periferias.

Buscando entender os impactos das ações afirmativas, protagonizadas por jovens moradores das periferias, conversamos com três jovens que trabalham a partir do audiovisual, teatro e literatura, e passaram pela experiência de administrar e investir o dinheiro público em seus territórios.

Assista a reportagem completa do projeto #NoCentrodaPauta produzida pelo Desenrola e Não Me Enrola.

Política cultural de direito: altos e baixos

Segundo dados da Secretaria Municipal de Cultura, em 2016 o programa VAI apoiou 230 projetos. Já em 2018, esse número caiu para 150 contemplados. Ou seja, cerca de 80 projetos deixaram de receber o recurso público para aplicar em suas ações, contrariando uma cultura da política pública de sempre ampliar o número de iniciativas fomentadas anualmente.

Um dos principais motivos que contribuíram para essa redução no número de projetos contemplados está ligada ao congelamento de 43,5% do orçamento da pasta da cultura na cidade, ocorrido em janeiro de 2017, no início da nova gestão da prefeitura.

O gestor cultural Gil Marçal, ex-coordenador de políticas públicas da Secretaria de Cultura da cidade de São Paulo, reforça a importância de discutir o orçamento da cidade junto ao poder público: “a política pública e o poder público só avançam com acompanhamento da sociedade, e muitas vezes só avança com pressão. Então é necessário realizar a pressão para inovação e ampliação dos programas.”

A cultura de dialogar com a sociedade sobre suas reais demandas ainda é um desafio para os gestores de diversas políticas públicas. Programas que possibilitam o acesso a recursos e que contribuem para o desenvolvimento do protagonismo juvenil, afetam inclusive a participação política desses jovens.

O VAI possibilitou que a galera entendesse que esse programa não é um favor, não é uma política de ajuda. É uma política cultural de direito”, enfatiza o gestor cultural.

Marçal ressalta que a partir desse ponto, as pessoas entendem que elas pautam políticas culturais. “É entender que você é um ativo na participação e na construção de novas políticas públicas e de formas que dialoguem com a nossa realidade.”

Autoafirmação e profissionalização da Juventude

Um dos principais legados do programa VAI consiste na inserção orgânica da juventude periférica no diálogo com o poder público e na gestão de recursos financeiros aportados por essa lei de fomento cultural.

“Enquanto coletivo éramos apenas fotógrafos, não tínhamos isso de fazer oficina. Quando ganhamos o VAI conseguimos passar nosso conhecimento por meio das formações que passamos a oferecer”, relata Rodrigo Sousa e Sousa, integrante do coletivo Mundo em Foco, que atua por meio do audiovisual em Ermelino Matarazzo, contemplados pelo programa pela primeira vez em 2008.

A resposta da juventude para esse investimento tem se apresentando de várias formas, entre elas estão o fortalecimento da economia local à base da produção artística, bem como na ativação de importantes transformações sociais que impactam moradores que participam das ações promovidas pelos coletivos.

“O acesso a esse tipo de recurso fez com que entendêssemos a importância do nosso trabalho. A importância do nosso papel no território. Nosso foco era nos fortalecer e atuar em equipamentos próximos, mas passamos a atuar em outras regiões. Isso foi importante porque começamos a conhecer outros coletivos e outros lugares de resistência que são parceiros até hoje”, conta Rodrigo Candido, integrante da Cia Diversidança, coletivo de teatro atuante no Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

Para Carol Peixoto, integrante do Poetas Ambulantes, coletivo que há 6 anos leva poesia para os transportes públicos de São Paulo, contemplados pela primeira vez em 2013, esse recurso afetou na profissionalização do coletivo: “Hoje a maioria do coletivo consegue se manter só com o trabalho cultural. Porque muitas vezes o artista independente faz poesia, mas precisa dar aula. Vende seu livro, mas precisa de outras formas para se bancar.  O programa trouxe essa profissionalização de poder receber pelo seu trabalho artístico, porque é uma profissão.”

Para além da profissionalização do trabalho, criação de redes e desenvolvimento territorial, o acesso a políticas públicas como o VAI, contribui para os coletivos ganharem força política e cultural para cobrir lacunas deixadas pelo estado, reforçando ainda mais a importância do direcionamento de recursos para a juventude que produz arte nas periferias.

São ferramentas como essa que dão mais força aos movimentos culturais que sempre existiram nesses territórios, construindo novas possibilidades de vivencia e atuação nesses espaços. “As pessoas não querem mais sair da periferia, eles querem mudar a periferia. Esses jovens tem um senso de mudança para melhor pensando nas suas famílias, seus amigos, nas futuras gerações, e essa marca é muito significativa. Isso é política. “Finaliza Gil Marçal.

*Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento e TV Grajaú, com patrocínio da Fundação Tide Setubal.

Cerca de 30 reportagens serão publicadas até o final de outubro com assuntos de interesses da população das periferias de São Paulo em ano eleitoral. Acompanhe os sites e as redes sociais dos coletivos e não perca nada!