Política e Religião: O impacto do movimento conservador nas políticas públicas

Política e Religião: O impacto do movimento conservador nas políticas públicas

A diversidade de pautas que precisam ser tratadas no âmbito político, esbarra no cenário conservador, especialmente quando se trata de temas como diversidade sexual, gênero e religião.

Por Evelyn Vilhena 08/08/2018 - 16:00 hs

Tendo em vista que 202 dos 513 parlamentares da Câmara dos Deputados integram a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional, assuntos como legalização da maconha, descriminalização do aborto, casamento homoafetivo, maioridade penal, entre tantos outros, colidem com os interesses e crenças religiosas de diversos parlamentares que se colocam como representantes de parte da população.

Cientes da relevância de temas como estes, os jovens Alessandro Akim, Estela Cândido e Rayane Braga, moradores da periferia de São Paulo e seguidores de diferentes religiões, compartilham suas visões sobre a interferência de correntes religiosas em debates que impactam diretamente a população.

Assista a reportagem completa do projeto #NoCentrodaPauta

Estela Cândido, 25, evangélica protestante, musicoterapeuta, estudante de pedagogia e residente do bairro Vila Natal, bairro localizado no Grajaú, acredita que política e religião caminham juntas: "A política interfere na religião, mas existe um movimento contrário, onde as religiões e doutrinas interferem na política. São duas coisas que se retroalimentam. Alguma decisão das políticas publica são tomadas por algumas influencias religiosas."

Entre as diversas pautas que se chocam com o movimento político tradicionalista em debate no Supremo Tribunal Federal (STF), temos o debate sobre a legalização do aborto até a 12ª semana de gestação, tema que além de interferir na saúde publica, envolve uma questão fundamental, a restrição da liberdade individual de cada cidadão.

A segunda edição da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), realizada em 2016 pelo Anis - Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB), aponta que uma em cada cinco mulheres aos 40 anos já fez pelo menos um aborto, considerando toda a população feminina entre 18 e 39 anos, o que significa que 4,7 milhões de mulheres já fizeram aborto ao menos uma vez na vida. A pesquisa ainda mostra que dessas mulheres 67% têm filhos, 88% declaram ter religião, sendo que 56% são católicas, 25% evangélicas ou protestantes e 7% professam outras religiões.

A favor da legalização do aborto, a jovem Rayane Braga, 18, católica e moradora do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, acredita que a igreja precisa expandir sua visão sobre o assunto. "Acredito que a igreja deveria olhar com mais humanidade para essas pessoas, abrir mais o pensamento sobre este tema."

Além da legalização do aborto, no próximo dia 09, o STF realiza o julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 494601, que foi apresentado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, contra a decisão do Tribunal de Justiça do estado que validou por meio de uma lei o sacrifício de animais em rituais religiosos. A proibição vem sendo discutida há muito tempo, e impacta diretamente os povos das religiões de matriz africana que incluem em seus rituais a prática de sacrifícios animais.

"A lei de sacrifício de animais interferiu muito na minha religião. Antes do ato religioso e do sacrifício, existe uma espécie de comunhão com animal. Ele é abençoado em atos de rezas e cânticos, porque estamos invocando forças da natureza, a nossa ancestralidade, nossos deuses que são os orixás", conta Alessandro Akim, 17, candomblecista e residente do Jardim Jacira, região sul de São Paulo.

Para o Cientista da Religião, Felipe dos Anjos, a religião como uma institucionalidade capturou a política. "Esse catolicismo tradicional  e conservador aliado a um grupo evangélico ou uma representação especifica de evangélicos que também é conservador e moralista, construiu um bloco religioso hegemônico no pais que eles usam todo poder histórico que acumularam, todo recurso e espaço de poder que acumularam ao longo do tempo para fazer uma espécie de barreira a pautas mais progressistas."

*Esta reportagem faz parte do projeto #NoCentroDaPauta, uma realização dos coletivos Alma Preta, Casa no Meio do Mundo, Desenrola e Não me Enrola, Imargem, Historiorama, Periferia em Movimento e TV Grajaú, com patrocínio da Fundação Tide Setubal.

Cerca de 30 reportagens serão publicadas até o final de outubro com assuntos de interesses da população das periferias de São Paulo em ano eleitoral. Acompanhe os sites e as redes sociais dos coletivos e não perca nada!